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Número 757, Julho 2013

Política

Editorial

Um sonho constituinte

por Mino Carta publicado 12/07/2013 07h56
No devaneio, vejo a convocação de uma Assembleia Nacional exclusiva para fundar a Quarta República
Gustavo Miranda
Ulysses Guimarães

Doutor Ulysses. Surgiu de súbito na escuridão do quarto

Quando apago a lâmpada noturna e pouso a cabeça sobre a almofada, às vezes me visitam personagens da minha vida, e até de outras, que em hipótese alguma chamarei de fantasmas. A escuridão facilita esses encontros, e ontem quem compareceu foi o doutor Ulysses. Guimarães, está claro, o “senhor diretas”, que teve o consolo de presidir a Assembleia Constituinte de meio período.

Illo tempore, na qualidade de diretor da semanal Senhor, queixava-me por escrito de uma Constituinte “nem carne nem peixe”. Raymundo Faoro, colaborador da revista, não deixava por menos. Não há como um Parlamento funcionar de manhã como tal e, de tarde, na elaboração de uma Carta, dita Magna, nova em folha. Um dia, o próprio doutor Ulysses, pacato mas peremptório na voz de barítono, me disse: “Nas circunstâncias, é o que podemos realizar”.

A injunção das circunstâncias é o entrave perene e fatal. Na sua recente visita, saído da treva, o doutor me disse como e por que tivera, contra a vontade, de “conciliar”. O verbo usado foi exatamente este, conciliar. Não se diga que lhe faltava coragem. Além de presidir um partido de fato de oposição, e por isso várias vezes perseguido, e ferozmente, ele enfrentou os cães da ditadura e desafiou a candidatura ditatorial de Ernesto Geisel com sua irônica anticandidatura. Teve, porém, de renunciar às Diretas Já para conformar-se com a composição conciliatória da chamada Aliança Democrática, em parceria com os inimigos de ontem, braço civil da ditadura, e, inclusive, com a participação decisiva de Tancredo Neves, pronto a perceber que a demanda do velho companheiro Ulysses não lhe convinha.

Foram estes os temas da conversa às escuras, embora vivaz. O doutor sabia da proposta da presidenta Dilma por uma Constituinte destinada exclusivamente a cuidar da reforma política, e por um plebiscito capaz de oferecer um propósito claro às manifestações de rua que marcaram a vida nacional na segunda quinzena de junho. “Pois é – disse o doutor –, de tão leves desfazem-se no ar.”

Baixei a cabeça, contrito. “Qual seria a alternativa?”, perguntei, aflito. Meneou a cabeça e desapareceu de chofre, apagado pelo meu sono. E no devaneio fora do tempo e do espaço que se seguiu, assisti, pasmem, à convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte exclusiva, integrada pelas melhores cabeças do País, para assentar as bases de um Estado contemporâneo, efetivamente democrático, como o Brasil merece e a casa-grande, pela força das “injunções das circunstâncias”, até hoje não permitiu.

Vivemos um momento de extrema perplexidade e, se, em meio a esta névoa de incerteza e desencanto, hesitamos e tateamos em busca do caminho, bastaria lembrar que o antídoto existe, de comprovada eficácia. Seria possível usá-lo?

Apresso-me a repisar, estou a sonhar, mesmo que o estado de autonomia sem peias do sonhador tenha ligações com a realidade. Inegáveis os resultados positivos atingidos pelos governos dos derradeiros dez anos. Os avanços sociais promovidos precipitaram necessidades e demandas desconhecidas até então, ao cabo de mais de um século de história, desde a República fundada pelos generais.

Por quantas repúblicas já passamos? A primeira termina com Getúlio Vargas e logo deságua no Estado Novo. A segunda começa com a queda de Getúlio e se encerra com o golpe de 1964. A terceira nasce com o fim da ditadura, ampara-se, contudo, em uma democracia que mantém de pé casa-grande e senzala. Há um Brasil em desconforto, que dá mostras de não se adaptar às pretensas injunções das circunstâncias e de amadurecer para a fundação da Quarta República.

Soa no devaneio a hora dos estadistas. Onde estão? Pode parecer incrível, mas nas pregas do transporte onírico parece-me ver transitar a sombra de José Bonifácio, de Mauá, de Joaquim Nabuco.

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