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Número 756, Julho 2013

Sociedade

Blogs do Stanislavski

Crise de representação

por Vitor Knijnik e Rafael Cal — publicado 09/07/2013 09h53
Se há uma crise de representação, tenho muito a contribuir. O problema é que o público agora está vaiando e ameaçando destruir o teatro. Foi essa perigosa e urgente situação que me motivou a escrever
Do Blog do Stanislavski
 Stanislavski

Constantin Stanislavski, Ator, diretor e escritor russo. Célebre por ter criado um sistema para obter atuações mais realistas

Tenho acompanhado as notícias sobre a onda de protestos que tomou as ruas do Brasil. Os manifestantes, dizem os analistas, não se sentem representados pelos políticos e partidos de nenhuma corrente. Mais que isso, boa parte das insatisfações manifestadas foi e é dirigida justamente a eles. Lê-se por toda parte que o Brasil vive uma crise grave de representação. Não há como negar que a atuação dos que foram eleitos para trabalhar pelos interesses da população seja pouco convincente, para não dizer canastrona. O problema é que o público pagante de impostos, que parecia estar dormindo em cena aberta, agora está vaiando e ameaçando destruir o teatro. Foi essa perigosa e urgente situação que motivou a escrita deste post. Se há uma crise de representação, eu tenho muito a contribuir. Tenho credenciais para tanto. Dediquei a minha vida ao estudo da formação do ator. Sistematizei um conjunto de diretrizes, exercícios e teorias conhecido como Sistema Stanislavski, que influenciou até a criação do famoso Actors Studio, do qual saíram profissionais como Marlon Brando, Dustin Hoffman, Robert De Niro e Nicholas Cage. Mas gostaria de registrar que esse último não me representa.

Apresentarei aqui sucintamente alguns dos pilares do meu sistema e já aproveitarei para fazer sugestões aos representantes.

Verdade interior
Como representar o mundo interior ou subjetivo do personagem? Para alcançar a sensação de verdade interior sugeri o emprego da partícula mágica “se”. Por meio dela é possível nos imaginar em qualquer situação. E se eu fizesse um projeto de lei que beneficiasse meus eleitores e não só o pequeno grupo que financiou minha campanha? E se eu não usasse o avião da FAB para levar minha família para ver um jogo no Maracanã?

Fé cênica
Aquele que representa deve acreditar tanto na ficção até que a própria plateia se convença de que tudo aquilo é verdade, mesmo sendo mentira. Esse é meu conceito mais útil no momento: serve para o parlamentar indiferente que quer se mostrar sensível aos movimentos sociais, para o manifestante com cartaz escrito “abaixo a corrupção” na mão e com a carteirinha de estudante falsa no bolso, e para o sociólogo em frente ao computador, que escreve uma análise longuíssima acreditando que alguém vai ler todinha antes de compartilhar no Facebook. Linearidade Para desenvolver a continuidade numa cena, o ator tem de encontrar o superobjetivo do personagem. Ele deve identificar qual a força essencial que move a figura que ele está representando. Uma vez encontrada, essa vai ser a linha de trabalho em que o ator conduzirá o seu personagem. Em outras palavras, se você quer convencer o público, não dá pra num dia apoiar a PEC 37 e no dia seguinte votar pelo engavetamento da mesma.

Ao político que empregar o meu sistema e não melhorar sua atuação sugiro renunciar ao mandato e se dedicar ao humor na TV aberta.