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Número 756, Julho 2013

Cultura

DVD

As linhas essenciais de Graciliano Ramos

por Rosane Pavam publicado 09/07/2013 09h55, última modificação 09/07/2013 13h55
Dois cineastas buscam a voz literária do escritor. Caixa de DVDs do Instituto Moreira Salles recupera obras importantes
Divulgação
Othon Bastos

Othon Bastos, densidade na medida da angústia e do desalento do protagonista de São Bernardo

São bernardo, de 1972, acumula lições de cinema irrepetidas. Somam-se ali o jeito com as palavras, o amor à fotografia e a fidelidade ao drama. Sendo um dos melhores filmes a reler a literatura do Brasil, esse nunca se desnorteia diante das linhas essenciais do
romance de 1934.

A transposição da palavra de Graciliano Ramos (reverenciado na 11ª Festa Literária Internacional de Paraty) àquilo que os olhos percorrem na tela se vê cumprida com poder imaginativo, como se Hirszman reescrevesse o livro.

Intitula-se recriar. Não somente Paulo Honório, o narrador da ficção literária, investiga sua consciência de homem vendido ao poder senhorial, como se multiplicam no filme a fala de seus subordinados, seu ir e vir, o corpo que tromba nas terras arruinadas e roça nos móveis da casa-grande. São raros os closes a que Hirszman se permite, e apenas os necessários. A visão das terras usualmente é feita a distância, como se o diretor desejasse ampliar o entendimento do conceito de propriedade a um contexto histórico. O saber literário de Leon Hirszman, que espalhava exemplares de São Bernardo no set, permitia-lhe concretizar a afamada secura de Graciliano Ramos por meio dos silêncios.

A oportunidade de rever o filme agora que o Instituto Moreira Salles o apresenta em uma caixa de DVDs com dois outros feitos de Nelson Pereira dos Santos, Vidas Secas e Memórias do Cárcere, é memorável. Porque Nelson fez outro cinema e teve outras pretensões em duas pontas cronológicas. Em 1963, a ditadura prenunciava e ele aparecia com Vidas Secas. E em 1984, no fim do período, desenhava suas Memórias do Cárcere. Nelson atua pelo choque, pela advertência, enquanto Hirszman, pela compreensão, pelo sentimento. As vidas secas de Nelson são, em verdade, rudes, antes de tudo fortes. E em Memórias do Cárcere estão os melhores atores do cinema nacional para dizer com idêntica fortaleza e surpreendente humor que o Brasil patina em suas raízes coloniais.

Graciliano Ramos. Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárcere
Nelson Pereira dos Santos e Leon Hirszman
Instituto Moreira Salles, R$ 119,90