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Número 755, Julho 2013

Saúde

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O Nobel vai para o chocolate

por Drauzio Varella publicado 28/06/2013 13h09, última modificação 01/07/2013 09h00
Ao comparar o número de laureados por país com seu consumo per capita, conclui-se que: quanto mais chocolate, mais prêmios. Mas as razões são complexas.
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chocolate

Comer chocolate pode melhorar as funções cognitivas, não apenas de indivíduos, mas de populações inteiras

Flavonoides na dieta melhoram as funções cognitivas.  Abundantes em diversos vegetais, eles reduzem o risco de demência, melhoram a performance em testes de inteligência e a cognição em pacientes idosos com dificuldade de memorização.

Uma subclasse dessas substâncias, os flavonóis, presentes em quantidades expressivas, por exemplo, no cacau, no chá-verde, no vinho tinto e também em algumas frutas, parece retardar inclusive o prejuízo das funções cognitivas associado ao envelhecimento.

Os flavonóis também melhoram a função do endotélio vascular (estrutura envolvida no mecanismo de aterosclerose) e reduzem a pressão arterial, por meio da dilatação dos vasos periféricos e cerebrais. A administração de extrato polifenólico de cacau para ratos idosos, por exemplo, provou-se capaz de reduzir déficits cognitivos.

Uma vez que consumir chocolate pode melhorar as funções cognitivas, não apenas de indivíduos, mas de populações inteiras, Franz Messerli, da Universidade Colúmbia, publicou no The New England Journal of Medicine um estudo intrigante. Partindo do princípio de que o número de prêmios Nobel per capita refletiria a proporção de habitantes com funções cognitivas superiores, o autor comparou o consumo nacional de chocolate com a proporção de cidadãos premiados.

Num total de 23 países, foi encontrada uma relação linear entre o consumo per capita e o número de laureados para cada 10 milhões de habitantes, ou seja, quanto mais chocolate mais prêmios. Quando foram excluídos os suecos, a linearidade se tornou ainda mais evidente. A Suíça apresentou os resultados mais convincentes, tanto em número de prêmios recebidos quanto no consumo de chocolate.

As curvas de regressão revelaram ser necessário comer anualmente mais 400 gramas per capita para obter um novo Nobel. A dose anual mínima para ter um premiado é de 2 quilos ao ano. No Brasil, essa quantidade equivaleria ao total nacional de 400 mil toneladas por ano.

Princípios básicos de estatística nos ensinam que a existência de uma correlação entre X e Y não significa que X cause Y ou vice-versa. Ela apenas mostra que X tem influência sobre Y, que Y influencia X ou que ambos são influenciados por outro mecanismo. A hipótese (X influencia Y) levantada pelo autor é a de que o chocolate cria um campo mais fértil para a inteligência, no qual despontariam os laureados. Os dados mostram que essa relação existe e é linear para todos os países estudados, com exceção da Suécia, que obteve 32 prêmios, quando pelo consumo deveria ter recebido apenas 14, fato talvez explicável pelo patriotismo das comissões julgadoras.

A segunda hipótese (Y influencia X) seria oposta a essa: cidadãos com melhores performances cognitivas comeriam mais chocolate, por conhecerem os benefícios dos flavonóis. A terceira (X e Y são influenciados por outro mecanismo) ficaria por conta de fatores socioeconômicos, geográficos e climáticos.

O consumo é mais baixo justamente nos países mais pobres e quentes, com sistemas de ensino precários e menor possibilidade de acesso à educação de alto nível, essencial para formar candidatos ao Nobel.