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Número 755, Julho 2013

Internacional

Itália

Berlusconi: O crocodilo está cercado

por Claudio Bernabucci publicado 28/06/2013 07h56, última modificação 03/12/2013 09h04
Condenado a 7 anos de prisão, e com proibição perpétua para a prática política, o destino trágico do ex-premiê parece selado. Por Claudio Bernabucci
AFP
Berlusconi

Para Berlusconi, os ministros que o condenam são esquerdistas ou comunistas

Desta vez, o velho crocodilo mediterrâneo, aliás Silvio Berlusconi, sofreu um golpe mais grave do que em outras batalhas: o tribunal de Milão o considerou culpado por concussão e prostituição de menor. Os juízes decretaram 7 anos de prisão, um a mais do que o Ministério Público tinha pedido.  Como penalidade acessória, estes crimes preveem a proibição perpétua de exercer cargo público. Embora a condenação seja só de primeira instância, o impacto simbólico sobre o politiqueiro italiano e sua turma foi devastador. Mais do que em outros processos em curso, neste caso a impunidade do poderoso aparece emblematicamente ferida de morte.

Segundo reconstituição da Procuradoria de Milão, na noite de 27 de maio de 2010, enquanto o Cavaliere participava de uma reunião de cúpula da OCDE em Paris, foi informado da prisão de Karima El-Mahroug, 17 anos, por causa de um roubo de 3 mil euros. O apelido da garota é Ruby Rubacuori (Rouba-coração). A primeira acusação resulta de pressões indevidas sobre funcionários da polícia em Milão – com vários telefonemas do celular de seu segurança – para liberar a menor, justificando o tratamento de exceção com a fábula de que ela seria neta do então presidente egípcio Hosni Mubarak. Ruby, no entanto, é marroquina. A segunda acusação, intimamente ligada à primeira na reconstituição do MP, refere-se a relações sexuais que ele teria tido com a menina, ainda menor de idade, em troca de muito dinheiro e outros presentes, como joias e roupas.

Vale a pena descrever os detalhes desta telenovela italiana de degeneração do poder, porque representa bem uma metáfora universal, aplicável a todos os poderosos que se acham imunes à Justiça, erram por excesso de confiança e finalmente caem.

O turning point do julgamento deu-se no ano passado, quando uma jovem policial, última na hierarquia de comando, declarou aos juízes ter soltado a menina por considerar mais oportuno entregá-la à Conselheira Regional Nicol Minetti, pessoa indicada por Berlusconi para essa tarefa, em vez de devolvê-la à comunidade de reeducação onde o Tribunal de Menores de Messina a tinha internado anteriormente.  A partir desse flagrante abuso de poder, o MP consolidou o inquérito que descobriu um articulado esquema de prostituição, organizado por vontade do velho político depravado e que o levou à grave imprudência daqueles telefonemas. Num país normal, consideraram os juízes milaneses, não cabe ao primeiro-ministro ultrapassar toda a hierarquia da polícia e decidir a quem confiar uma adolescente estrangeira sem documentação, que fugiu de casa e de um centro de recuperação. E não cabe a um político enviar à delegacia, para recolher a menina, a odontologista amiga dele, eleita como Conselheira na Lombardia, que, descobriu-se depois, era também sua maîtresse de confiança nas noites de diversão. Vestida às vezes de pornofreira nos bacanais berlusconianos, Nicol recrutava jovens ingênuas ou autênticas profissionais e não hesitou, naquela noite da primavera de 2010, em largar a inquieta Ruby na casa de uma prostituta brasileira em Milão.

Interceptações telefônicas, bem como depoimentos de jovens enganadas pelos convites ambíguos e dispostas a falar aos juízes sobre as noites de orgias remuneradas, permitiram reconstruir o sistema de prostituição e suas cumplicidades. Rios de dinheiro rolaram para hospedar em apartamentos particulares e manter, com salário fixo, dezenas de jovens dedicadas aos prazeres do sultão. À luz desta sórdida realidade, entendem-se melhor as palavras da ex-esposa de Berlusconi, Veronica Lario, que, antes de abandoná-lo, em carta aberta ao jornal La Repubblica, expressou aflição com o homem doente “que frequenta menores” e ao mesmo tempo desprezo pelas “virgens que se oferecem ao dragão”.

A apelação do julgamento por concussão e prostituição de menor está prevista para novembro, quando os problemas judiciários de Berlusconi chegarão ao ápice. De fato, o processo por fraude fiscal, apelidado de Mediaset, chegará naquele mês ao julgamento final da Corte de Cassação, terceira e última instância.  Se o Tribunal Supremo confirmar a condenação a quatro anos de prisão, com  a pena acessória da interdição dos cargos públicos, o Senado será imediatamente convidado a pronunciar-se sobre o afastamento do senador Berlusconi, evento apocalíptico para  ele, com consequências imprevisíveis. Além de tudo, nos próximos dias, a Suprema Corte deverá também pronunciar-se definitivamente sobre o julgamento chamado Lodo Mondadori: o Cavaliere conseguiu escapar da condenação por corrupção de juízes graças à prescrição, mas foi condenado a pagar 560 milhões de euros de ressarcimento à CIR, grupo do seu rival Carlo De Bendetti, dono de La Repubblica. No mesmo período, abre-se em Nápoles a audiência preliminar no julgamento pela compra de senadores na antepenúltima legislatura, destinada a derrubar o então governo Prodi. Isso tudo pode não acrescentar nada à indecência do personagem, já amplamente demonstrada em outras vicissitudes, judiciárias ou não, mas convenhamos: o momento da rendição à Justiça parece mais próximo. Os juízes italianos, como sempre, são acusados pelo crocodilo, ou seja, Il Caimano, do filme de Nanni Moretti, de serem esquerdistas ou comunistas (sinônimos, na sua concepção), mas vão em frente com louvável coerência e independência.

As repercussões políticas desses múltiplos terremotos judiciários serão inevitáveis, encurtando a vida já sofrida da inusitada aliança emergencial entre centro-esquerda e centro-direita, fruto amargo dos bizarros resultados das últimas eleições italianas. O jovem prefeito de Florença, Matteo Renzi, provável candidato contra a direita nas eleições antecipadas previstas para o começo do ano, declarou que preferiria bater Berlusconi nas urnas, politicamente. Os juízes da península, contudo, não têm a menor intenção de recuar de seus deveres para favorecer desenhos da política.

Uma coisa é certa: vamos assistir nos próximos meses a novos coups de théâtre do inventivo, mas crescentemente desesperado, Berlusconi. Descrito frequentemente como o clown no poder na Itália, seu destino parece cada vez mais ligado à tragédia.

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