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Número 755, Julho 2013

Internacional

Líbano

No fogo cruzado

por Gianni Carta publicado 29/06/2013 08h22, última modificação 30/06/2013 22h07
O conflito intensivo na Síria contagia o país, onde as divisões confessionais e étnicas já provocaram uma longa guerra civil. Por Gianni Carta
Sharif Karim / Reuters
Líbano

Divisões. A luta intestina na Síria precipita no Líbano as inestinguíveis diferenças entre xiitas e sunitas

Era questão de tempo para que as divisões étnicas e religiosas precipitadas pela guerra civil na Síria repercutissem no país vizinho, o Líbano. O quadro encrespou quando recentemente o Hezbollah, a agremiação libanesa xiita representada por deputados no Parlamento e com um braço armado, passou a abertamente lutar a favor do exército do presidente sírio Bashar al-Assad. Criou-se, assim, uma divisão relativa ao posicionamento do Hezb, como é conhecido o movimento, entre as 18 comunidades a compor o instável mosaico étnico e religioso libanês. Se os xiitas são representados por 25% da população libanesa, a maioria no país é sunita, e desta vertente islâmica faz parte um ala radical favorável a integrar ou a enviar armas para o Exército Livre da Síria, este dominado pela Frente Al-Nusra, formada por jihadistas sunitas e apoiada pela Al-Qaeda. Líderes sunitas libaneses, como o xeque radical Ahmad al-Assir, apoiam a Al-Nusra.

De fato, no domingo 23, Al-Assir e alguns de seus seguidores salafistas transportavam armas em um automóvel quando foram detidos por soldados libaneses em um checkpoint. Em seguida, consta, teriam sido espancados e, sem certeza quanto a isso, colocados em liberdade. No mesmo dia, militantes sunitas resolveram se vingar da prisão do clérigo radical a ao atacar o checkpoint da cidade portuária de Sidon, situada 40 quilômetros ao sul de Beirute, a capital. O número de baixas dos militantes sunitas é desconhecido, mas as agências noticiosas revelaram que 16 soldados libaneses foram mortos. Mais de cem ficaram feridos. Além de metralhadoras, os extremistas lançaram foguetes, sinal de que estão preparados para futuros embates.

O exército desta vez passou brilhantemente pelo teste da eficácia e da coesão”, observa Issa Goraieb, colaborador de CartaCapital e editorialista do diário libanês L’Orient-Le Jour. “E se o exército libanês sofreu perdas importantes é porque os soldados combateram como soldados, não como militantes, tomando todos os riscos para defender, dentro do possível, os cidadãos escondidos em abrigos irrisórios.” Goraieb não toma partido no quesito extremismo. Ele condena também o Hezbollah, a maior potência militar libanesa e tida por numerosos cidadãos como o salvador do Líbano, visto que em 2006 venceu uma guerra contra a maior potência militar do Oriente Médio, Israel. Segundo Goraieb, ao se unir a Assad, “o saldo de respeitabilidade que o Hezbollah havia obtido como campeão da resistência contra Israel” foi por água abaixo.

O Hezb entrou na guerra civil síria para defender a minoria alauíta, facção do xiismo da qual faz parte a elite no poder naquele país, encabeçada por Assad. Ademais, havia de tomar uma posição, visto que é financiado pelo Irã e pela Síria. Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah, diz reconhecer que a sua participação na guerra civil síria provocaria divisões no Líbano, mas sua organização, considerada terrorista pelos Estados Unidos e pela União Europeia, precisava agir. Nasrallah tomou a decisão somente há pouco tempo porque, vale exprimir, o conflito na Síria se resumia a uma manifestação contra um ditador, não a uma carnificina ao sabor do sectarismo como a atual.

Desde o início do embate na Síria, é verdade, a afluência de refugiados sírios no Líbano, na sua vasta maioria sunitas, já provocava divisões na sociedade libanesa. Por exemplo, os campos de refugiados no Vale do Bekaa, 30 quilômetros a leste de Beirute, onde o Hezbollah é bastante ativo, foram noticiados conflitos entre integrantes da organização libanesa xiita e sírios. A absorção desses recém-chegados tem sido um problema para um país atingido por tensões regionais, étnicas e sectárias.

No entanto, o cenário tornou-se ainda mais nebuloso para os libaneses quando a guerra civil síria tomou o rumo do sectarismo. A razão: o Líbano é um espelho, em termos étnicos e religiosos, da Síria. O grande temor é que o quadro se deteriore no país do cedro, onde a lealdade à religião antecede aquela à nação. As fissuras sectárias são mais transparentes do que na Síria. De fato, a guerra civil libanesa, de 1975 até 1989, foi provocada por uma linha de falha entre cristãos e muçulmanos. Desta feita, a cisão é entre xiitas e sunitas. E é mais assustadora. Em meados dos anos 1970, xiitas e sunitas, além das outras confissões, viviam em áreas definidas do país. Atualmente, diferentes confissões se encontram espalhadas Líbano afora, e houve, além disso, milhares de casamentos mistos, inclusive entre xiitas e sunitas. Uma guerra civil no Líbano seria ainda mais sangrenta do que a anterior, e quem sabe mais duradoura.

Não se sabe ao certo como agirá, nesse contexto, o novo presidente iraniano, o reformista Hassan Rouhani. Como disse a CartaCapital o cientista político Vali Nasr, reitor da Universidade Johns Hopkins e ex-conselheiro sênior no Departamento de Estado sob Barack Obama, é preciso negociar com os iranianos, e não mais vê-los somente sob o prisma das forças do bem e do mal, como fazia George Bush Jr. Nasr diz, porém, que Obama não tem uma estratégia para o Oriente Médio. Enquanto isso, John Kerry, o secretário de Estado, cogita, como os líderes da França e da Grã-Bretanha, armar os rebeldes sírios para depor Assad. Por se opor ao Hezbollah e aos iranianos, Kerry é instruído a lidar com os sauditas, que apoiam o Exército Livre da Síria, independentemente do fato de esses rebeldes serem comandados por extremistas, inclusive pela Al-Qaeda. A questão é a seguinte: e que regimes virão depois? É claro, não se deve apoiar Assad, um ditador com as mãos ensanguentadas, mas os EUA e a UE devem apoiar rebeldes extremistas?

A hipocrisia de países ocidentais que apoiavam, financiavam e eram financiados por Assad, Hosni Mubarak e Muammar Kaddafi, entre outros, não arrefeceu. Enquanto isso, o Catar, com seu fundo soberano, continua, à imagem dos sauditas, a entreter o Ocidente com seus times de futebol e, ao mesmo tempo, a financiar fundamentalistas sunitas. Diante desse quadro sombrio, o governo libanês adiou as eleições de junho.