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Número 754, Junho 2013

Internacional

Turquia

Um País dividido

por Gianni Carta publicado 21/06/2013 11h31, última modificação 21/06/2013 14h05
Liberais seculares e muçulmanos praticantes temem “islamização” da Turquia; enquanto os radicais acham que o governo faz pouco. Por Gianni Carta, de Istambul
Serkan Senturk/ Reuters
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Álcool proibido a partir das 22 horas, três filhos no mínimo para casais, banida a pílula do aborto

Terminados os violentos confrontos entre as forças policiais e manifestantes que durante três semanas pediam a demissão do premier Recep Tayyip Erdogan, reina uma atmosfera surrealista. De saída, o país está isolado. Diante da brutalidade das forças policiais contra os manifestantes, a chanceler alemã Angela Merkel encabeça o movimento para rejeitar a Turquia no seio da União Europeia (UE). Egemen Bagis, o ministro turco para a UE, rebateu: “A Turquia não precisa da UE, a UE precisa da Turquia. Se quiséssemos poderíamos dizer: some daqui, menino”.

Segundo o cientista político Tolga Demiryol, da Universidade Kemerburgaz de Istambul, a Turquia está parcialmente dividida entre muçulmanos laicos, ou moderados, e os favoráveis à islamização do país. “Os turcos seculares ainda são em sua maioria muçulmanos autoidentificados, embora haja uma crescente presença de ateus e agnósticos, para não mencionar os crentes não muçulmanos, que são seculares no dia a dia.” No entanto, “existem vários grupos de ativistas políticos formados por muçulmanos devotos e críticos em relação à política religiosa do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (o AKP de Erdogan, única legenda a governar o país), que procura promover a uniformidade em vez de diversidade na sociedade”. O AKP faz isso, acredita Demiryol, através de leis seculares adotadas desde a fundação do país, em 1923, por Mustafa Kemal Atatürk. Erdogan apela, porém, para uma retórica populista ao chamar os manifestantes de kemalistas, as velhas elites republicanas, representadas por ricos e generais, ou seja, seculares que nunca aceitaram o AKP.  Não é bem assim. Nas manifestações na Praça Taksim há desde estudantes até mulheres idosas com véus.

Os protestos começaram de forma pacífica no fim de maio. Ambientalistas opunham-se à construção de um centro comercial no Parque Gezi, uma das raras áreas verdes da cidade situada nas proximidades da Praça Taksim, no centro de Istambul. Na sexta-feira 31, as forças policiais fecharam as entradas do Parque Gezi e atacaram com truculência. “Foi por conta desse ato de brutalidade que muita gente aderiu à causa”, diz Ali, à mesa de um café. Ele e seis outros colegas, bastante afinados durante os protestos, têm entre 20 e 30 e poucos anos. Todos têm empregos bem remunerados, diplomas universitários e são articulados em inglês. “Mas as grandes demonstrações não aconteceram por conta de árvores que seriam ou serão derrubadas”, intervém Berrak, esguia professora de pilates. Simla concorda: “Sempre desconfiamos de que Erdogan tinha uma agenda islamita, mas agora está claro”.

Simla lista algumas das “reformas” realizadas por Erdogan: álcool não pode ser vendido entre as 10 da noite e as 6 da manhã, casais deveriam ter no mínimo três filhos, mas o ideal seriam cinco. Nesse contexto, a pílula do aborto foi banida. A mídia é controlada. Terminado este seu terceiro mandato, Erdogan não poderá mais ocupar o cargo, e por isso arti­cula uma reforma constitucional para transformar o regime parlamentar em presidencialista. Ele, é claro, seria o presidente, que por ora tem poderes limitados.

Todos os presentes no café concordaram, que nos primeiros mandatos, Erdogan fez um bom trabalho. Numerosos liberais laicos e muçulmanos moderados votaram no atual premier, há dez anos no poder, pelo fato de ser ele favorável ao mercado livre. A despeito da crise na Europa, a Turquia deverá crescer pouco mais de 4% neste ano. Liberais também apreciaram o fato de Erdogan querer integrar a Turquia na UE, e de ter reduzido o poder dos militares. Sim, esses eleitores sabiam que o carismático Erdogan foi preso em 1998 após ter lido um poema a incitar islâmicos radicais. Mas pensavam, na sua primeira vitória em 2002, que ele se tornara mais pragmático.

Não tem sido o caso no seu terceiro mandato. No entanto, Demiryol lembra que a Turquia nunca teve uma democracia “verdadeira”. Ela surgiu apenas em 1950, mas foi interrompida pelo menos três vezes por golpes militares. “Intervenções fardadas e seus subsequentes regimes atrofiaram o desenvolvimento da sociedade civil.” Ali, no café, concorda. “Mas tivemos liberdade anos a fio.” Berrak, a professora de pilates, indaga: “E quem é esse homem que nos trata como terroristas a fazer parte de uma conspiração internacional e que lança gás lacrimogêneo de helicópteros?” Berrak, diga-se, sofre de asma. Na noite de sábado 15 e na madrugada de domingo, apenas duas horas após o discurso de Erdogan, que parecia conciliatório, a polícia voltou a atacar na Praça Taksim e as ruas adjacentes. Turistas, crianças e manifestantes foram pegos de surpresa, inclusive em um hotel de luxo onde feridos recebiam tratamento médico. Asmática, Berrak teve um ataque de cinco minutos, mesmo com máscara. “Pensei que fosse morrer.”

Após esse evento, a polícia venceu, pois, como explica Ceni, “conseguiu dispersar o povo para as ruas nas proximidades da praça e assim os prenderam, enquanto outros fugiram”. Houve, é verdade, as greves nacionais de sindicalistas na segunda-feira 17. Um deles, cético diante do atual quadro, previu: “Acho que este vai ser o último protesto, precisamos nos reorganizar”. Simla observa: “Fizemos o que pudemos. Mas agora sabemos que temos poder. E poderemos voltar a agir”.

No distrito de Bagcilar, a apenas 10 quilômetros da Praça Taksim, estamos na chamada grande Istambul, cidade de 15 milhões de habitantes. Diante de bares, mulheres a trajar véus ou burcas sentam em cadeiras de plástico longe dos grupos de homens. Toma-se chá, cerveja não. “Acabaram os protestos, graças a Deus. Tayyip tem razão: não passam de um bando de terroristas a colaborar com a mídia internacional”, diz um comerciante. Há também intele­ctuais que pensam como o comerciante. O professor de Economia Mumin Erturk, da Universidade Arel de Istambul, opina: “Erdogan tinha de agir. Você não pode deixar essa gente quebrar tudo”. Argumento, sem convencer o interlo­cutor, que os protestos foram pacíficos. “Se Erdogan fizer algo de errado serei o primeiro a ir contra ele. Mas a economia vai de vento em popa.” O risco, digo, é um governo instável que poderia afugentar os investidores que financiam o déficit em conta corrente do país. Erturk: “Isso é tudo passageiro”. Para ele, as manifestações tiveram o apoio de estrangeiros. A razão? “A concorrência econômica com a Turquia. Estrangeiros não querem, entre outros, que tenhamos uma usina ­nuclear com os russos. Também não gostam da ideia de construirmos uma terceira ponte sobre o Bósforo, que seria fundamental para o comércio entre a Ásia e a Europa.”

Na Praça Taksim, deparo-me com um novo tipo de desafio ao governo. Seria aplaudido por Kafka. Trata-se de uma forma de resistência passiva, iniciada pelo coreógrafo Erdem Gunduz na segunda-feira 17, um dia após o ataque das forças policiais que evacuou os manifestantes da Praça Taksim. De pé, transeuntes são convidados a fixar seus olhares no Centro  Cultural Atatürk, que fica logo adiante. A encenação chama-se “homem de pé”.

Um senhor de cabelos brancos diz: “Não quero falar. Faço isso em homenagem ao homem de pé”.  Outro, este com um violão, olhar fixo na conspícua imagem de Atatürk, com um aceno aceita ser fotografado. Uma moça, a ler de pé, explica: “Estou lendo”. Um casal se dispõe a falar. Diz Menderes, diretor de uma loja, de 26 anos: “Estou aqui porque quero liberdade”. Sua companheira, Guliz, de 23 anos, trabalha em telemarketing. Ela observa: “Sou muçulmana praticante, mas Erdogan está islamizando este país”.

Indagados se eles não têm medo de ser presos por uma noite, visto que no fim do dia a polícia leva todas as “pessoas de pé” para passar uma noite na cadeia, os dois retrucam: “Não”. Guliz me pergunta: “E você não tem medo?” E acrescenta: “Sinto-me frustrada porque não estava em Istambul durante as manifestações e não pude fazer nada”. Menderes participou. Teve problemas de saúde, viu um amigo perder um olho atingido por uma bala de borracha. Istambul imita São Paulo ou vice-versa? Mendere e Guliz, como tantos outros, acreditam que têm de manifestar-se para evitar o futuro “autocrático” da Turquia.

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