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Número 754, Junho 2013

Sociedade

Opinião

Condenados à liberdade

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 24/06/2013 07h44, última modificação 24/06/2013 08h31
As multidões inconformadas querem romper as amarras de um estilo de vida – social, econômico e político
Mídia NINJA
protesto

Em que momento homens e mulheres, sob o manto da liberdade e da igualdade, vão desfrutar das liberdades, da abundância e dos confortos oferecidos pela vida moderna?

Ontem, as gentes do movimento clamavam contra as tarifas.  Eram dez gatos-pingados. Hoje, os céticos de ontem observam o descontentamento dos “perdedores” alastrar-se Brasil afora. Agora já são muitos e a mídia cuida de discernir os alvos dos manifestantes.

Os sabichões da opinião nativa arranham os cérebros congelados na mesmice. Perplexos diante das invectivas populares que os inclui no rol dos manipuladores do poder, trataram rapidamente de reinterpretar os propósitos das passeatas. Os círculos bem-pensantes não conseguem esconder o desconforto com a reaparição do monstro da liberdade.

Os propósitos estão escondidos nas entrelinhas das frases estampadas nos cartazes, a dizer muito mais do que proclamam. O caudal das multidões inconformadas se debate para romper as amarras de um estilo de vida – o modelo social, econômico e político – que consolida a violência cotidiana nos ônibus lotados, nas consequências de um processo de urbanização que transportou a miséria do campo para as cidades, na desigualdade e na insegurança.

Os que sofriam as dores seculares da exclusão e da miséria absoluta foram entronizados no mundo da economia monetária e do consumo. Agora exigem segurança, saúde e eduçação garantidas pelas políticas públicas.

No torvelinho do desencontro das palavras de ordem, da diversidade de pontos de vista, os participantes dos protestos revelam uma comunidade de princípios: as aspirações de liberdade e de autonomia dos indivíduos de carne e osso não desfalecem diante dos esforços sistêmicos que pretendem naturalizar uma sociedade que se reproduz com fortes desequilíbrios de poder e riqueza.

Aqui me ocorre lembrar Sartre na ­Crítica da Razão Dialética. Ele se recusa a conceber o homem como uma coisa. A despeito das armadilhas das estruturas socioeconômicas que tentam transformar o cidadão em um serviçal da rotina, dos costumes e do conformismo, o homem da razão dialética se caracteriza pelo impulso incontido à superação de uma situação que o transformou naquilo que ele é. Está condenado à liberdade.

Por isso, diante do que está aí, do existente, a prática humana é permanentemente uma negação. Mas enquanto negação do existente seu objeto ainda não existe. Está sendo construído no movimento. Não há nada mais vago e ao mesmo tempo mais preciso do que a frase: estamos mudando o Brasil.

O projeto do movimento está exposto nas negações, no repúdio ao estranhamento da política enquanto prática dos políticos e de seus partidos. Desvela a realidade a ser superada e recusada por sua prática política que marcha pelas ruas, mas ainda ignora os resultados de sua ação.

Entre tantas definições, a modernidade entronizada pelo capitalismo pode ser definida pela coexistência de “duas naturezas”:

1. A enorme capacidade de criar, transformar, dominar a natureza, suscitando desejos, ambições e esperanças.

2. As limitações à sua capacidade de distribuir a renda e a riqueza, de entregar o bem-estar e a autonomia individual a todos os encantados com suas promessas. Não se trata de perversidade, mas do seu modo de funcionamento.

Escrevi em outro momento que as questões suscitadas nas origens da vida moderna ainda não obtiveram resposta. Nos tempos em que prevalecem as ilusões da prosperidade, elas hibernam e ai dos que ousam despertá-las. Mas no fragor das crises elas voltam a assombrar o mundo dos vivos.

Nesses tempos, uma incômoda pergunta não quer calar: em que momento homens e mulheres, sob o manto da liberdade e da igualdade, vão desfrutar das liberdades, da abundância e dos confortos oferecidos pela vida moderna, mas não entregues aos cidadãos em seu desatinado desenvolvimento?

A resposta esperançosa à pergunta depende crucialmente da capacidade de mobilização radicalmente democrática. A democracia dos modernos, seus direitos e contradições são conquistas muito recentes.

Digo contradições porque o sufrágio universal foi conseguido com sacrifício entre o fim do século XIX e o começo do XX. Mas já em 1910, Robert Michels cuidava de denunciar a deformação da representação popular promovida ­pelo surgimento de oligarquias partidárias, fenômeno que nasce e se desenvolve no “interior” dos sistemas democráticos.