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Número 754, Junho 2013

Sociedade

Internet

Amor (e ódio) na era digital

por Nirlando Beirão publicado 07/07/2013 11h39
Como a web e as redes sociais mudaram a vida afetiva das pessoas do mundo
André Bergamin
Internet

A tecnologia das conexões instantâneas e dos contatos imediados via Twitter, Facebook e sites de encontro revoluciona as relações afetivas

A era digital torna superficiais as relações afetivas? Banaliza os sentimentos? Potencializa o circuito efêmero do “ficar”? Distancia as pessoas do “olho no olho” e do “cara a cara”, no filtro embaçado do Facebook e do Twitter? Favorece os vícios online, por exemplo, na zona obscura da pornografia?

As acusações contra os usos e abusos na web são muitas, mas o psicanalista Jorge Forbes tende a repetir quantos “nãos” forem necessários para responder às dúvidas regadas a ceticismo aí de cima.

Forbes é um otimista da modernidade. “O amor na era digital é responsável”, diz ele. “Se alguém está com alguém é porque quer livremente estar.” As relações afetivas não são mais intermediadas, como no passado, pela natureza, por algum deus ou pela razão iluminista. “O amor é o laço social por excelência desta nova era”, acredita.

Forbes participou da última edição dos Diálogos Capitais, promovida por esta revista na Livraria Saraiva do Shopping Morumbi. Com ele debateu o cronista e jornalista Xico Sá. Ressalvando que tudo o que sabe desse amor internético é o aprendizado “de tantos pés na bunda que levou”, Xico Sá preferiu ressaltar, no turbilhão emocional da rede, “o dado da paranoia”, o ciúme, a suspeita, a traição, todo mundo detetive de todo mundo, a ação em rede gerando “uma agressividade de dimensão sem fim numa velocidade que amplia essa paranoia ao infinito”.

Poucos amores hão de sobreviver, quem sabe, a tanta superexposição, a tamanho exibicionismo. Será que o Facebook é a inevitável antecâmera do adultério e da separação? A Xico Sá incomoda, isso sim, “a angústia de gerar felicidade” aos olhos dos outros, a ansiedade de criar uma boa notícia todos os dias, mesmo que seja para alimentar, nas redes sociais, no Twitter, no Instagram, a ficção de sua própria alegria. De seu divã, Forbes observa, contudo, que há uma saudável dissociação entre o que uma pessoa tende a falar e a mostrar de si mesma, na internet, e a essência dela – o que ela verdadeiramente é.

O arrependimento que vem do “send”
E-mails podem ser tóxicos, assim como mensagens tuitadas num impensado atropelo. Não é de estranhar, portanto, que a internet se converta numa estufa de choroso arrependimento. Escorregadas profissionais ou gafes sociais não podem ser, porém, nem de longe comparadas aos perigos do que você escreve quando o coração sangra – ou rejubila. “Desconfie daquele horário das corujas”, aconselha o escritor Xico Sá. Quando aquela antiga paixão é relembrada, quando um surto de coragem impõe a urgência de um e-mail irrefletido. O piscanalista Forbes admite que já acordou de manhã sobressaltado com as possíveis consequências de um SMS que, de fato, nem tinha mandado. “Devia haver lei seca para usar o computador”, brinca Xico Sá. “O pior é que, hoje, a gente tem, com o iPhone, um computador dentro do bolso.” Dois americanos, David Shipley e Will Schwalbe, chegaram a escrever uma cartilha – Send, Vintage Press – para ensinar bons modos digitais aos apressadinhos. Mas já existem aplicativos – como o Undo, do Gmail – que criam um crivo preventivo para aquilo que seria uma tremenda ressaca no dia seguinte.

E-mails de amor são também ridículos?
Todas as cartas de amor serão ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. O que Fernando Pessoa/Álvaro de Campos disse a respeito de súplicas derramadas em folhas vitorianas de papel perfumado continua valendo hoje, ainda que em novo figurino. “Escrevo imensas cartas de amor por e-mail”, confessa o cronista Xico Sá. “E, independente de eles darem certo ou não, gosto de guardá-los.” São como “panfletos líricos”, define. Admite que deve ser um “traço de nostalgia”, mas faz ostensiva campanha – na web – para que a web não persista num de seus defeitos: o de ser tão lacônica. “O discurso do amor é longo, lento, redundante”, diz o cronista. Portanto, não é escrevendo #amor no seu tweet que vc vai provar q a/o ama.

Seu parceiro está esperando na rede
O americano Bill Tancer, geniozinho em pesquisa online, apurou que o acesso a sites de contato é, no mundo todo, dez vezes maior do que o do conjunto dos sites de venda, a Amazon incluída. Quer dizer, na web as pessoas tentam adquirir mais amor (no espectro que vai do encontro ao sexo, passando pela mera fantasia) do que mercadorias.  Match.com, OkCupid, e Harmony lideram uma operação bilionária que, em certos casos mais aberta, em alguns casos mais restrita, vai hoje em dia preenchendo todos os nichos de gênero, raça, orientação sexual e até religião. Há quem seja pego em arapucas (as mais recentes queixas miram o site myZamara, de um indiano esperto sediado em Boston, EUA). As aproximações obedecem a uma linguagem de programação baseada em algoritmos, que é uma sequência definida de instruções que, se seguida, pode executar uma tarefa. A de aproximar corações solitários, por exemplo. E dá certo. Aplicativos com recursos de geolocalização trazem o cupido para perto de você. A matemática, que em geral afasta, na web aproxima.

Demitida por SMS de “um amor eterno”
Sophie Calle é a xodó da arte pop francesa. Vivia tórrida paixão com Grégoire Bouillier, autor de um romance autobiográfico – O Convidado Mistério, de 2004 – dedicado, por sinal, a ela, Sophie. Texto apaixonadíssimo. Sophie estava em Berlim quando ouviu o bip de mensagem no seu celular. Era um e-mail de Grégoire. Ele avisava que estava pulando fora da relação. Mensagem curta, que terminava com um brusco “se cuida”. “Não sabia como responder”, contou Sophie. Em vez de fazer drama, decidiu fazer arte. Compartilhou sua perplexidade com outras 107 mulheres. Propôs que elas comentassem, cantassem, dançassem, pintassem o tema “se cuida”. Resultou numa exposição com esse título. A mostra peregrinou pelo mundo. Passou pelo Brasil. Sophie veio para o lançamento, em julho de 2009, enquanto acontecia a Feira Literária de Paraty (Flip), da qual Grégoire era um dos convidados. Acabou instada a sentar com ele na mesma mesa de debate. Para quem passou pela humilhação de ter sido demitida de um amor por SMS, Sophie se comportou admiravelmente. Ela e Grégoire ficaram no mesmo hotel. Em quartos separados.

Na internet, somos anjos e demônios
“A internet é um meio de perdermos o medo juntos”, diz o sociólogo catalão Manuel Castells, estudioso dos hábitos e costumes de rede. Vale para a vida civil assim como para a vida afetiva. Nem em uma nem na outra o medo é bom parceiro. Castells, que se alterna entre Berkeley, o MIT e a Universidade Aberta da Catalunha, esteve no Brasil como convidado do Fronteiras do Pensamento. Está para lançar o livro Redes de Indignação e Esperança.

A ambiguidade do título reflete um dos papéis que Castells atribui à internet: a de aglutinar “demandas emocionais” até então desarticuladas e muitas vezes incoerentes. A era da “autocomunicação de massa”, que atropela a mídia convencional e desafia a representação política, tende a se converter em fator coletivo de mobilização, por um lado, mas acaba por radicalizar o culto umbilical de sua mera individualidade. “Somos anjos e demônios”, adverte Castells. “Viver na internet tem um perigo: nós mesmos.”

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