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Número 751, Junho 2013

Economia

Um passo contra a austeridade

Um passo contra a austeridade

por Mino Carta publicado 31/05/2013 09h57
A Itália volta à primeira divisão da UE. Com as devidas reservas, está claro. Mesmo assim...
AFP
Angela Merkel

Dama de ferro. Será que pretendem deixar irritada a senhora Merkel?

As autoridades da UE acabam de readmitir a Itália na primeira divisão das nações europeias. Motivo: o rebaixado retorna porque conseguiu reduzir de forma aceitável o déficit público que até hoje justificava a penalização. Advertem quanto a recaídas, solicitam reformas urgentes tanto políticas quanto econômicas, mas parecem inclinar-se a contestar, ao menos em parte, a linha da austeridade em voga desde a eclosão da crise financeira mundial. Talvez estejam dispostos a irritar a senhora Merkel.

Se assim for, poderia ser este o primeiro passo concreto de uma mudança significativa, em detrimento das políticas neoliberais que desencadearam a crise para favorecer as oligarquias financeiras, hoje habilitadas a impor ao mundo as suas vontades e aprofundar o desequilíbrio entre ricos e pobres. Tudo muito estranho, muito esquisito: a evidência é solar, mas os senhores da Terra fingem-se de cegos.

Às vezes me entrego ao seguinte, prepotente pensamento: as máfias são, a seu modo, mais honestas, ou menos hipócritas, do que, imaginem, os derradeiros traidores de Adam Smith, aquele pensador inglês capaz de codificar o capitalismo. Traíram ao inverter o rumo e aplicar a fórmula virtual pela qual, em lugar de ganhar dinheiro pelos caminhos usuais da produção e do comércio, fabrica-se o próprio. Florins, dracmas, sestércios, libras, coroas, o que for. A moeda corrente.

A Itália é excelente exemplo das vítimas da tragédia gerada pelo neoliberalismo, a contar com a contribuição decisiva de duas damas de ferro, a primeira inglesa, a segunda alemã. Não é que os machos não se tenham adequado prontamente ao jogo. Inclusive no Brasil, onde o cavaleiro do neoliberalismo atende pelo nome de Fernando Henrique Cardoso, aquele que, sem ser de ferro, caía prazerosamente nos braços de Bill Clinton.

A Itália padeceu algo diferente, no entanto, igualmente daninho: Silvio Berlusconi. Equidistante, ele caía nos braços de Bush e de Putin, enquanto, diretamente do palácio do governo, cuidava dos seus exclusivos interesses, facilitada a tarefa pelas brigas intestinas que anos adentro dilaceram a esquerda italiana, outrora determinante na transformação do país em democracia autêntica e potência econômica.

Desta complexa e dolorosa situação de marca berlusconiana, a Itália saiu brutalmente empobrecida, entregue à desesperança popular e à lassidão moral das chamadas lideranças políticas. Da intervenção, eu diria paternal, do presidente da República, Giorgio Napolitano, nasceu uma peculiar aliança entre esquerda e direita reacionária para formar um governo de emergência. Consequência de uma rodada eleitoral da qual surgiram três forças distintas e de poderio idêntico. Uma delas, infensa a qualquer entendimento, o Movimento 5Stelle, social-populista, comandado pelo cômico Beppe Grillo.

Três meses depois do pleito político, enquanto o governo define propósitos em meio a pendengas internas, realizam-se eleições administrativas em 563 municípios. Encolhe o comparecimento às urnas, prova válida de desânimo. Os resultados, contudo, revelam uma espécie de arrependimento em relação às escolhas de três meses antes. Grillo fracassa, a direita recua sensivelmente, a esquerda avança (leiam a coluna de Wálter Fanganiello). O premier Letta, do Partido Democrático, anuncia reformas com o aparente otimismo de prever no mínimo 18 meses de vida para seu governo, embora seja difícil o acordo entre os insólitos parceiros em torno, em primeiro lugar, de uma nova eleitoral e da reforma da Justiça. Certo é que esta Itália em grande dificuldade, em certos momentos à beira de uma convulsão social, tornou-se um laboratório político cuja atividade vale a pena observar com atenção.