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Número 750, Maio 2013

Saúde

Vício

O narcisismo tabagista

por Riad Yonues — publicado 24/05/2013 12h00, última modificação 26/05/2013 15h32
Largar o cigarro reduz o risco de doenças cardiovasculares, mesmo quando o ex-fumante engorda. Não vale a pena manter o vício para agradar o espelho
PopperFoto/ Getty Images
tabagismo

Não se iluda. A beleza de Marlene Dietrich não está entre seus dedos

Parar de fumar faz bem, não há nenhuma dúvida. Centenas de milhões de dólares foram gastos somente para provar essa óbvia realidade. Quem fuma tem mais problemas de saúde, de uma simples tosse ou bronquite crônica até o câncer fatal. Sem mencionar infarto, derrame cerebral, enfisema, obstrução de artérias, pele precocemente envelhecida. Esta última pode ser um efeito colateral indesejável em pessoas que aderiram à nova religião do século. O culto obsessivo do corpo. Muitos indivíduos recusam-se a seguir as recomendações de médicos, autoridades e amigos para abandonar o tabagismo por medo de engordar.

Realmente, muitas pessoas ganham peso quando param de fumar.  Mas os estudos científicos comprovam que o aumento de peso, quando ocorre, não ultrapassa a média de 2 a 3 quilos. O ganho de peso, por outro lado, pode ser um problema de saúde por mérito próprio. Assim como fumar, engordar aumenta o risco de doenças graves, como hipertensão, diabetes, câncer e toda variedade de alterações cardiovasculares potencialmente fatais.

Muitos pacientes me perguntam se não acho parar de fumar perigoso, principalmente quando associado a um ganho de peso substancial. Minha resposta foi sempre a mesma: o tabagismo traz tantos malefícios à saúde e prejuízos à qualidade de vida que não se compara com qualquer outro fator de risco. Incluindo a obesidade. Confesso que falava sem grande suporte científico. A intuição acima da certeza. Para esclarecer essa dúvida que atormenta os médicos, um grupo de ­cientista da Universidade Harvard, em Boston, nos Estados Unidos, acabou de publicar um estudo extenso, que avaliou o impacto de parar de fumar, levando em consideração o ganho de peso dele decorrente.

Os resultados apareceram em recente número da revista médica Jama.  A doutora C. Clair e seus colaboradores avaliaram a evolução de 3.251 voluntários de uma comunidade regional, entre 1984 e 2011. Durante esses 27 anos de estudo, eles observaram que o ganho de peso médio das pessoas que conseguiram parar de fumar, atingiu a média de 2,7 quilos para as não diabéticas, comparada com 3,6 quilos nas portadoras de diabetes. No mesmo ­período, os ­indivíduos que ­continuaram a fumar também ­ganharam em média 1 quilo de peso.

Por outro lado, os participantes que pararam de fumar tiveram suas chances de desenvolver um quadro cardiovascular grave reduzidas pela metade. Independentemente do ganho de peso durante o estudo. Estética à parte, os autores dessa pesquisa afirmam categoricamente: os benefícios de parar de fumar são significativos para prevenir infartos, derrames e obstrução arterial, mesmo que a pessoa ganhe peso.