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Número 748, Maio 2013

Economia

Gestão

O frugal Money Mustache

por Thomaz Wood — publicado 10/05/2013 11h45, última modificação 12/05/2013 10h40
Um improvável guru de finanças pessoais, aposentado aos 30 anos, combate o consumismo com bom humor
Mr. Money Mustache

Mr. Money Mustache em sua foto de perfil no Facebook

Primeiro, dois parágrafos acerca de uma crônica cinematográfica sobre o estado das coisas. Depois, a entrada triunfal de nosso novo herói. O filme em questão é The Joneses. Foi dirigido por Derrick Borte, em 2009. Não é grande coisa, mas o argumento é ótimo! Os Joneses são uma família perfeita. Eles são bonitos, inteligentes, simpáticos e, principalmente, ricos. Vivem em uma mansão em um subúrbio elegante, com móveis de design nórdico e grama imaculada. Dirigem carros alemães e usam roupas das melhores grifes. Eles têm apenas um problema: não constituem uma família de verdade. De fato, foram contratados por uma empresa de marketing para se tornar stealth marketers, trend setters e opinion makers, no espetaculoso jargão da disciplina.

Os Joneses se portam como uma perfeita família de comercial de tevê: seus bens e hábitos foram planejados para inspirar vizinhos a invejar seu estilo de vida e a tentar emulá-lo pelo consumo compulsivo. O time, formado por quatro profissionais – interpretando pai, mãe e um casal de filhos adolescentes –, tem metas ambiciosas de vendas monitoradas em tempo real. Sua ação é um sucesso... até certo ponto. Vejam o filme e comprem a camiseta!

Agora, no surpreendente mundo dos blogs, os Joneses parecem ter encontrado a sua nêmesis. O personagem responde pelo sonoro pseudônimo de Mr. Money Mustache e, ao contrário da falsa família, existe de verdade. Para fins de entrevista, atende pelo nome de Pete. Ele é casado e tem um filho. Curiosidade: Pete e sua esposa se aposentaram aos 30 anos. Isso mesmo! Como foi possível? Simples: o casal fez tudo que os Joneses não indicariam. Eles não compraram carros de luxo ou roupas de marca; nunca adquiriram bens acima de suas possibilidades ou fizeram dívidas. Em suma, cultivaram, desde cedo, um estilo de vida simples e frugal.

Em entrevista dada ao jornal The Washington Post, Pete declarou singelamente: “Eu, provavelmente, nasci com um desejo por eficiência, o desejo de tirar o máximo de diversão de todas as situações, sem desperdiçar recursos”.

Dito e feito: na prática, o casal inverteu a equação do consumo em benefício da qualidade de vida. Reformaram sozinhos sua própria casa, conservaram seus carros velhos, enquanto seus amigos exibiam carros novos, substituíram o auto pela bicicleta sempre que possível, e cozinharam em casa em lugar de frequentar restaurantes.

Então, aos 30 anos, haviam acumulado dinheiro suficiente para a precoce aposentadoria. Hoje, o casal mora em casa própria totalmente paga. O aluguel de um segundo imóvel lhes cobre as despesas. Reservas aplicadas em fundos de investimento lhes garantem segurança para o futuro. A aposentadoria lhes dá o controle total do próprio tempo. Pete, que estudou engenharia, eventualmente ganha algum dinheiro fazendo pequenos serviços de carpintaria para parentes e amigos. Sua esposa, ex- corretora de imóveis, vez por outra ajuda conhecidos a encontrar novas moradas.

O blog de finanças pessoais Mr. Money Mustache surgiu, segundo Pete, da irritação causada pela enxurrada de perguntas recebidas de conhecidos, que, mesmo com salários elevados, estavam atolados em dívidas e escravizados pelo trabalho. Eram vítimas dos Joneses, gastando enorme energia para extrair prazeres duvidosos. E não conseguiam entender como alguém com formação superior e um bom emprego se aposentara tão cedo.

Pete elegeu com facilidade seus alvos: carros caros e beberrões, tevê a cabo e o que chama de indústria da ioga. A vida da classe média, segundo ele, é um “vulcão explodindo de desperdício”. Há maneiras melhores para atender às nossas necessidades, porém, as manadas parecem obcecadas pelos caminhos mais difíceis e caros, tornando a própria vida mais difícil.

O ciclo vicioso é poderoso. A vida adulta vem com um pacote pronto, incluídos ideais de posses e hábitos de consumo. Os primeiros salários já vêm casados com os primeiros gastos: carro novo, bugigangas eletrônicas, restaurantes e viagens. O hábito faz o escravo. O cérebro segue em piloto automático. As pessoas tornam-se complacentes com contas absurdas de telefone, prestações infindáveis de roupas, juros inacreditáveis de cartão de crédito e muito mais. Viver, para muitos, é pagar dívidas.

A receita de Mustache é inverter a equação: morar perto do trabalho; preparar a própria comida; cuidar da própria casa e do próprio corpo; não tomar dinheiro empresado; cancelar a assinatura da tevê a cabo e, principalmente, usar a bicicleta. Lazer? Sim, é fundamental. A dica é explorar a natureza. Frequentemente é de graça e recompensador.