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Número 747, Maio 2013

Cultura

Memória

Quando eu for, vou sem pena

por Ana Ferraz publicado 03/05/2013 10h00, última modificação 03/05/2013 15h02
A despedida de Paulo Vanzolini, notável cientista e decantado poeta do samba, que morreu em São Paulo aos 89 anos. Por Ana Ferraz
Paulo Vanzolini

Disciplina e boemia. Em casa, no adorado bairro do Cambuci, ponto de encontro de bambas. Foto: Gustavo Lourenção

No último samba, Quando Eu For, Eu Vou sem Pena (1977), lindamente gravado por Chico Buarque na coletânea Acerto de Contas (2003), caixa de quatro CDs que o zoólogo de veia poética e humor corrosivo considerou o fecho de ouro de sua carreira musical, Paulo Vanzolini foi premonitório. Quando eu for, eu vou sem pena/ Pena vai ter quem ficar, anuncia a letra. No domingo 28, Vanzolini sucumbiu a uma pneumonia. Tinha 89 anos bem vividos e um coração que mesmo com 30% da capacidade ainda batia entusiasmado pelo samba. Cientista respeitado dentro e fora do País, autor de 155 artigos acadêmicos e vencedor de prêmios importantes, como o outorgado em 2012 pela Fundação Konrado Wessel, fez da música um hobby que rendeu clássicos como Ronda, Volta por Cima, Praça Clóvis e outras belas e menos conhecidas canções, como Valsa das Três da Manhã e Cravo Branco. Modesto, achava graça do título de embaixador do samba tantas vezes a ele conferido. “Não tenho por que ter essa vaidade”, disse em entrevista a CartaCapital em janeiro de 2012.

Autodeclarado duro de ouvido e incapaz de escrever ou ler partituras, Vanzolini compôs cerca de 70 músicas. “Meu professor foi o rádio.” Deleitava-se com os sambas de Noel Rosa (“meu mestre de tudo”), Dorival Caymmi, Cartola, Nelson Cavaquinho, Geraldo Filme, Paulo Nogueira, Dona Ivone Lara, Adoniran Barbosa e com as vozes de Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Silvio Caldas. “Ouço esses compositores até hoje, são essenciais.” Com Nelson Cavaquinho a relação ultrapassava a admiração. “Éramos muito amigos. Tomávamos muita cerveja aqui em casa.” Com Adoniran, companheiro assíduo de cachaça e conversa fiada, jamais houve parceria musical. “Nossa conversa era cotidiana. Não rendeu música. Eu nunca compus com ninguém, compuseram comigo”, dizia, riso satisfeito de quem não perde a piada.

A casa do compositor no Cambuci, estrategicamente próxima da adorada Escola de Samba Lavapés e na região “dos melhores bares da cidade”, frequentados até recentemente para o sagrado ritual da cervejinha, foi ponto de encontro da nata do samba: Roberto Silva, Paulinho da Viola, Eduardo Gudin, Paulinho Nogueira, Martinho da Vila. Reuniam-se para cantar, tocar e compartilhar causos, esporte em que Vanzolini era versado. Inconfidências costumavam ser bem-vindas. Como a história do ciúme de Cacilda Becker em relação a Mariinha, Tônia Carrero, por causa de Adolfo Celi. Na época, Vanzolini namorava Cleide Yáconis, irmã de Cacilda. Nessas reviravoltas que a vida dá, Tônia acabou por levar a melhor e se casou com Celi. A cena em que Cacilda vai ao teatro tomar satisfações de Tônia é antológica, mas, a pedido do entrevistado, fica como apimentada indiscrição cometida no calor da entrevista e restrita a quem ali estava.

Filho de um professor de estatística e economia da Escola Politécnica, o paulistano Vanzolini nasceu “com um livro na mão”. Recitava poemas, lia de João Guimarães Rosa a Homero. A medicina foi uma escada para o que realmente lhe interessava, a zoologia. Tornou-se o mais notável especialista em répteis do País, embrenhou-se Amazônia adentro em busca de exemplares, percorreu a América do Sul, vasculhou a Patagônia. Relembrou com emoção o momento em que localizou na selva amazônica o macaco descoberto por um aluno. “Pegamos o barco e fomos atrás. Achamos um igarapé onde uma mulher lavava roupa. Perguntou o que estávamos vendendo. ‘Estamos nesse negócio do mico-de-cheiro. Tem aqui?’ ‘Depende, se vocês querem o de cabeça preta é deste lado, o de cabeça vermelha é do outro’. Quase desmaiei. O bicho foi batizado como Saimiri vanzolini.”

Surpreendia na personalidade do cientista e poeta a capacidade de conciliar disciplina e boemia. O pesquisador que trabalhou 47 anos no Museu de Zoologia, 31 dos quais como diretor, era o mesmo que saía pelas madrugadas de uma São Paulo poeticamente prateada pela garoa. O faro de caçador de bichos provou-se afiado para talentos. Revelou artistas como Os Macambiras, Virgínia Rosa, Martinho da Vila. Foi numa andança pelo Centro, ainda com patrulha do Exército, que observou a cena inspiradora de Ronda. “Via as mulheres da vida entrar, olhar no bar e ir embora. Fiquei pensando o que tinha por trás disso.”

Vanzolini não nutria por Ronda o mesmo apreço do público que a abraçou como um dos hinos da cidade. Achava que ninguém tinha entendido a ironia. “É uma piada. A mulher está atrás do cara para desperdiçar um pente de revólver.” Entre suas favoritas estava Longe de Casa Eu Choro (parceria com Eduardo Gudin), feita durante o doutorado em Cambridge, nos EUA: (...sinto falta de São Paulo/ De escutar na madrugada/ Uns bordões de violões/ E uma flauta a chorar prata/ Dor de amor não me magoa/ A saudade da garoa é que me mata”). E, bem ao seu estilo, gostava da deliciosamente irreverente Juízo Final. Absolvido dos pecados (“no geral bem pesados”), o poeta elevado aos céus observa satisfeito o panorama no andar inferior: “Agora só toco harpa/ De camisola e sandália./ Espio pra ver lá embaixo/ A quadrilha da fornalha./ Aquela ingrata hoje está/ Trabalhando de salsicha,/ Espetadinha no garfo/ Satanás fritando a bicha./ Ô demônio, capricha!”