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Número 746, Abril 2013

Política

Editorial

O gigante Napolitano

por Mino Carta publicado 26/04/2013 09h00, última modificação 26/04/2013 15h47
Bom no leme, o presidente da República italiana tenta encontrar a rota para salvar seu país à deriva. Por Mino Carta
Giorgio Napolitano

Giorgio Napolitano, primeiro presidente comunista na história da República italiana Foto: Luca Bruno/AP

Escreveu o Financial Times: “Um gigante entre os anões de Roma”. Gulliver em visita a Liliput. Nem todos são liliputianos, a bem da verdade factual. Quanto ao gigante, o jornal refere-se a Giorgio Napolitano, reeleito presidente da República para definir a rota salvadora de uma Itália à deriva.

Conheci Napolitano, que admirava de longa data, quando visitou o Brasil em 1988, e tive a honra de apresentá-lo à plateia do Instituto de Estudos Avançados da USP, onde pronunciou uma conferência. Colhi também a oportunidade de entrevistá-lo para a revista Senhor, que então eu dirigia. Verteu, antes de mais nada, sobre o extraordinário papel desempenhado pelo Partido Comunista Italiano para transformar a península em uma democracia exemplar e em um dos países mais ricos do mundo.

Aquela visita ao Brasil foi organizada e coordenada por Claudio Bernabucci, meu amigo fraterno (irmão tardio), à época responsável pelas relações do PCI com os países da América Latina, e hoje colunista de CartaCapital, bem como autor da reportagem sobre os desenvolvimentos da crise italiana publicada nesta edição a partir da página 52. Casado com brasileira, Bernabucci mora no Rio há três anos, o que facilitou a sua colaboração. Decerto, poucos iguais a ele para falar de Napolitano, comunista histórico, político combativo e sutil, intelectual refinado, grande amigo de Eric Hobsbawm, o pensador egípcio de língua inglesa.

A reeleição do presidente, a representar a própria encarnação do Estado, é fato inédito na história da República italiana, mas não contradiz uma das Constituiçõesmais democráticas e avançadas do planeta, elaborada por uma Assem bleia Constituinte exclusiva (como não se deu no Brasil pós-ditadura) e capaz de afirmar no seu primeiro artigo ser baseado “no trabalho” aquele regime de governo. Haja coragem e clareza. Não sei de outra que chegue a tanto.

Como presidente, Napolitano cogitava de uma nova visita ao Brasil. Desistiu por causa do chamado Caso Battisti, quando o País deu asilo ao terrorista assassino em nome de razões tão inviáveis quanto patéticas. O episódio, nascido de uma rata monumental do ex-ministro da Justiça Tarso Genro, só serviu para exibir, além da arrogante leviandade da polícia francesa, a ignorância abissal de políticos, magistrados, professores universitários e intelectuais brasileiros. Os nossos liliputianos.

Serei claro, espero pela última vez, com a premissa de que é impossível hierarquizar as provas da ignorância. Começo ao acaso pela seguinte: acreditar que um ladrãozinho do arrabalde romano disposto a inventar um engajamento pretensamente político, a matar dois inocentes e aleijar outro, a participar de mais dois assassínios, a tentar outro sem sucesso, a atirar nas pernas de alguns (gambizzare, dizia-se), equipara-se a quem, no Brasil, pegou em armas contra a ditadura. Não sabem os ignorantes de plantão, e direi abundantes a favor da rima, que o terrorismo à italiana foi largamente infiltrado pela CIA com o objetivo de evitar o esboçado entendimento entre comunistas e democrata-cristãos, a dividirem o eleitorado italiano no fim da década de 70. Aludo ao chamado compromesso storico. Aldo Moro, que negociava com Enrico Berlinguer, pagou por isso com a morte, para alegria do império do Ocidente.

A tigrada pretendia acabar com o mesmo Estado de Direito que, na presidência de Giorgio Napolitano, foi tido pelos cérebros nativos como incapaz de garantir a segurança dos seus presos. O Ministério da Justiça do Brasil sustentava que, devolvido à Itália, conforme um tratado de extradição assinado havia tempo, Battisti correria risco de vida. Foi afronta grave, que Napolitano à época não perdoou. A voz do Estado italiano fez-se ouvir pela indignação do presidente. E não faltava quem, impavidamente, sustentasse, por escrito e de viva voz, que a pátria de Dante nos anos 70 estivera entregue a um regime de extrema-direita, exatamente naquele período em que brasileiros perseguidos pela ditadura procuravam refúgio por lá. E não faltou quem confundisse Estado com governo, Napolitano com Berlusconi, mesmo entre quem se apresenta como jurista, mas não percebe a diferença entre presidencialismo e parlamentarismo. Napolitano é o presidente de uma República parlamentar, embora, neste preciso instante, funcione como o avô empenhado na tarefa generosa de devolver o juízo aos netos que traíram seus pais.

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