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Número 354,

Política

Valerioduto

A conexão Lisboa

por Sergio Lirio publicado 10/08/2005 00h00, última modificação 21/06/2016 17h11
As mal explicadas visitas de Valério a Portugal são outro indício da relação do Opportunity com a crise do mensalão

No es­pe­ra­do due­lo ver­bal com o ex-mi­nis­tro José Dir­ceu, o de­pu­ta­do Ro­ber­to Jef­fer­son, mais uma vez, sa­cou pri­mei­ro. Ao abrir o in­ter­ro­ga­tó­rio a Dir­ceu, du­ran­te ses­são da Co­mis­são de Éti­ca da Câ­ma­ra, na ter­ça-fei­ra 2, Jef­fer­son lan­çou o que se­ria uma nova de­nún­cia do su­pos­to es­que­ma de cor­rup­ção mon­ta­do pela cú­pu­la do Par­ti­do dos Tra­ba­lha­do­res.

Se­gun­do o par­la­men­tar, em 2004, o en­tão che­fe da Casa Ci­vil au­to­ri­zou di­ri­gen­tes do PT e do PTB a ne­go­ciar contribuições aos partidos com exe­cu­ti­vos da Por­tu­gal Te­le­com, que figura entre os maiores investidores estrangeiros do País (foram cerca de US$ 7 bilhões nos últimos seis anos).

O acha­que, afir­mou, foi au­to­ri­za­do após Dir­ceu in­ter­me­diar uma apro­­xi­ma­ção en­tre di­re­to­res da em­pre­sa por­tu­gue­sa e o pre­si­den­te Lula. En­tre 24 e 26 de ja­nei­ro deste ano, acu­sou o par­la­men­tar, emis­sá­rios das duas le­gen­das fo­ram a Por­tu­gal con­ver­sar com re­pre­sen­tan­tes da com­pa­nhia telefôni­ca.

Em de­poi­men­to à CPI do Men­sa­lão, dois dias de­pois, Jef­fer­son acres­cen­tou o que se­riam no­vos de­ta­lhes. Dis­se que o te­sou­rei­ro li­cen­cia­do do PT, De­lú­bio Soa­res, te­ria acom­pa­nha­do o pu­bli­ci­tá­rio Mar­cos Va­lé­rio em di­ver­sas via­gens a Lis­boa.

Va­lé­rio e De­lú­bio te­riam ido tra­tar de as­sun­tos di­ver­sos, des­de a ope­ra­ção de sal­va­men­to da Va­rig, que in­clui­ria um apor­te fi­nan­cei­ro da por­tu­gue­sa TAP, ao re­pas­se para o Ban­co Es­pí­ri­to San­to de par­te das apli­ca­ções do Ins­ti­tu­to de Res­se­gu­ros do Bra­sil (IRB) man­ti­das no ex­te­rior.

Marcos Valério
Em nome de quem Valério falava? (Foto:Rafael Neddermeyer/AE)
Como sem­pre, as de­nún­cias de Jef­fer­son são cos­tu­ra­das a par­tir de fa­tos reais e fa­cil­men­te che­cá­veis. Em 2004, Lula re­ce­beu no Pa­lá­cio do Pla­nal­to, em duas oca­siões, exe­cu­ti­vos da Por­tu­gal Te­le­com. Se­gun­do a as­ses­so­ria da Pre­si­dên­cia, as au­diên­cias fo­ram so­li­ci­ta­das pela em­pre­sa para in­for­mar Lula dos no­vos in­ves­ti­men­tos no País.

O Ban­co Es­pí­ri­to San­to é um dos prin­ci­pais acio­nis­tas da com­pa­nhia te­le­fô­ni­ca e ti­nha ou­tros in­te­res­ses no Bra­sil. Em 22 de abril de 2005, a ins­ti­tui­ção fi­nan­cei­ra fez uma pro­pos­ta ao IRB. Que­ria cui­dar de US$ 100 mi­lhões das re­ser­vas que o ins­ti­tu­to man­ti­nha no ex­te­rior. Em nota, a di­re­to­ria do IRB afir­mou que a pro­pos­ta foi re­cu­sa­da em 2 de maio por não se en­qua­drar “nos pa­râ­me­tros da po­lí­ti­ca de in­ves­ti­men­tos es­ta­be­le­ci­da pelo Con­se­lho de Ad­mi­nis­tra­ção”.

Na ter­ça 2 de agos­to, após de­por na sede da Pro­cu­ra­do­ria-Ge­ral da Re­pú­bli­ca, em Bra­sí­lia, Va­lé­rio con­fir­mou ter pro­cu­ra­do, em ja­nei­ro, o pre­si­den­te da Por­tu­gal Te­le­com, Mi­guel Hor­ta e Cos­ta. Dis­se ter via­ja­do a Por­tu­gal em com­pa­nhia do te­sou­rei­ro do PTB, Emer­son Pal­mie­ri.

No dia 11 da­que­le mês, 13 dias an­tes do em­bar­que de Va­lé­rio, Dir­ceu re­ce­beu na Casa Ci­vil Ri­car­do Es­pí­ri­to San­to, acio­nis­ta da ins­ti­tui­ção fi­nan­cei­ra. O ban­quei­ro es­ta­va acom­pa­nha­do do pu­bli­ci­tá­rio mi­nei­ro. Em co­mu­ni­ca­do, a Por­tu­gal Te­le­com “nega de for­ma ca­te­gó­ri­ca e vee­men­te que te­nha man­ti­do reu­niões ou qual­quer tipo de con­ta­to com os se­nho­res Mar­cos Va­lé­rio e Emer­son Pal­mie­ri” en­tre os dias 24 e 26 de ja­nei­ro.

A con­fir­ma­ção de boa par­te das de­nún­cias an­te­rio­res e a ve­ros­si­mi­lhan­ça com que cons­trói as his­tó­rias dão peso às de­cla­ra­ções de Jef­fer­son, logo trans­for­ma­das em man­che­tes de jor­nais e lon­gas re­por­ta­gens nas re­des de tevê. Mas, des­ta vez, o tiro que pa­re­cia cal­cu­la­do para acer­tar em cheio o pei­to de José Dir­ceu pode to­mar rumo de bala per­di­da e atin­gir ou­tros al­vos an­tes de se alo­jar nas co­ro­ná­rias do ex-mi­nis­tro.

O res­sur­gi­men­to dos con­ta­tos de Mar­cos Va­lé­rio com a Por­tu­gal Te­le­com, ob­je­to de de­nún­cia do pró­prio Jef­fer­son ao se­ma­ná­rio por­tu­guês Ex­pres­so em ju­nho úl­ti­mo, au­men­ta a sen­sa­ção en­tre in­te­gran­tes da CPI dos Cor­reios de que a par­ti­ci­pa­ção do ban­quei­ro Da­niel Dan­tas, do Op­por­tu­nity, na gê­ne­se da atual cri­se é mui­to maior do que se ima­gi­na­va.

En­tre ju­nho e de­zem­bro de 2004, à re­ve­lia dos fun­dos de pen­são e do Ci­ti­bank, prin­ci­pais acio­nis­tas, Dan­tas ofe­re­ceu a Te­le­mig Ce­lu­lar à Por­tu­gal Te­le­com e ao me­xi­ca­no Car­los Slim, dono da ope­ra­do­ra Cla­ro e da Em­bra­tel. O ob­je­ti­vo do ban­quei­ro era ob­ter cer­ca de R$ 5 bi­lhões com a ven­da, fa­zer cai­xa e com­prar a par­te do Citi no con­tro­le da Bra­sil Te­le­com.

O Op­por­tu­nity e a Por­tu­gal Te­le­com che­ga­ram a as­si­nar uma car­ta de in­ten­ção, após me­ses de exaus­ti­va ne­go­cia­ção. A ven­da não te­ria sido con­cluí­da por dois mo­ti­vos. O pri­mei­ro e mais gra­ve: Dan­tas pe­diu US$ 300 mi­lhões por fora, se­gun­do exe­cu­ti­vos que par­ti­ci­pa­ram das ne­go­cia­ções. A quan­tia se­ria de­po­si­ta­da em um fun­do no ex­te­rior, sem o co­nhe­ci­men­to dos de­mais acio­nis­tas da Te­le­mig Ce­lu­lar. Os por­tu­gue­ses con­si­de­ra­ram a pro­pos­ta in­de­co­ro­sa.

Emerson Palmieri
Palmieri, tesoureiro do PTB, teria acompanhado Valério por amizade ou a mando de Jefferson? (Foto: Folha de Londrina/AE)

O ou­tro mo­ti­vo foi a re­sis­tên­cia do Ci­ti­bank em acei­tar uma ope­ra­ção com o ob­je­ti­vo de iso­lar a po­si­ção dos fun­dos de pen­são. Quan­do as con­ver­sas com a Por­tu­gal Te­le­com evo­luí­ram, Dan­tas pro­cu­rou o ban­co ame­ri­ca­no e pro­pôs uma en­ge­nha­ria fi­nan­cei­ra para que ape­nas o Op­por­tu­nity e o Citi se be­ne­fi­cias­sem da ven­da da Te­le­mig.

Uma nova com­pa­nhia se­ria cria­da na ca­deia de con­tro­le da em­pre­sa mi­nei­ra e os úni­cos acio­nis­tas se­riam DD e o Citi. Am­bos em­bol­sa­riam os R$ 5 bi­lhões e dei­xa­riam as fun­da­ções em uma po­si­ção mi­no­ri­tá­ria no blo­co de con­tro­le da ope­ra­do­ra de te­le­fo­nia. Na me­lhor das hi­pó­te­ses, os fun­dos se­riam obri­ga­dos a ven­der suas par­tes ao pró­prio Dan­tas pelo va­lor que o ban­quei­ro de­fi­nis­se.

De­pois da di­vul­ga­ção dos gram­pos ile­gais fei­tos pela Kroll a man­do de Dan­tas e da apo­sen­ta­do­ria da exe­cu­ti­va Mary Lynn Put­ney, prin­ci­pal alia­da do ban­quei­ro den­tro da ins­ti­tui­ção ame­ri­ca­na, as re­la­ções en­tre o Citi e o Op­por­tu­nity es­tre­me­ce­ram.

Es­cri­tó­rios de ad­vo­ca­cia e de au­di­to­ria fo­ram con­tra­ta­dos para in­ves­ti­gar os con­tra­tos fir­ma­dos por DD. Des­co­briu-se que, em vá­rios ca­sos, o bra­si­lei­ro fir­mou acor­dos que o be­ne­fi­cia­vam, em de­tri­men­to dos in­te­res­ses do só­cio e maior alia­do até en­tão.

O Citi, que ten­ta­va um acor­do com os fun­dos de pen­são, não acei­tou a pro­pos­ta de Dan­tas. As re­la­ções pio­ra­ram e os ame­ri­ca­nos co­me­ça­ram a for­çar o afas­ta­men­to de DD da ges­tão das em­pre­sas no Bra­sil. Em fe­ve­rei­ro deste ano, à re­ve­lia do só­cio es­tran­gei­ro e num cla­ro ato de de­ses­pe­ro, o Op­por­tu­nity co­lo­cou a Te­le­mig Ce­lu­lar e a Ama­zô­nia Ce­lu­lar à ven­da.

A ini­cia­ti­va apres­sou a de­ci­são do Citi de afas­tá-lo das com­pa­nhias e de pro­ces­sá-lo na Cor­te Fe­de­ral de Nova York por que­bra de de­ver fi­du­ciá­rio. O juiz Le­wis Ka­plan aca­tou a ação do ban­co ame­ri­ca­no e re­ti­rou Dan­tas da ges­tão do CVC Equity Part­ners, acio­nis­ta das com­pa­nhias no Bra­sil, não sem an­tes afir­mar que as ma­no­bras do Op­por­tu­nity para se man­ter no con­tro­le chei­ra­vam “a rou­bo”.

Va­lé­rio afir­mou ter ido a Lis­boa, na com­pa­nhia do pe­te­bis­ta Emer­son Pal­mie­ri, em ja­nei­ro úl­ti­mo. De acor­do com ele, para tra­tar de as­sun­tos re­la­cio­na­dos à ven­da da Te­le­mig Ce­lu­lar. A in­for­ma­ção le­van­ta al­gu­mas per­gun­tas:

1) Como Va­lé­rio, um sim­ples pu­bli­ci­tá­rio que mal par­ti­ci­pa­va do dia-a-dia das em­pre­sas, sa­bia da ne­go­cia­ção da Te­le­mig Ce­lu­lar, con­du­zi­da em si­gi­lo por exe­cu­ti­vos de São Pau­lo?

2) Por que ele foi tra­tar de uma tran­sa­ção que ha­via sido en­cer­ra­da, sem su­ces­so, pelo me­nos um mês an­tes?

3) Des­de quan­do in­ves­ti­men­tos pu­bli­ci­tá­rios mi­lio­ná­rios de uma gran­de em­pre­sa eu­ro­péia, com ações nas bol­sas de va­lo­res, são de­fi­ni­dos em con­ver­sas de pé-de-ou­vi­do?

Miguel Horta
Horta, da Portugal Telecom, recebeu ou não os brasileiros? (Foto: Paulo Amorim/AE)

Sabe-se que Va­lé­rio in­ter­me­diou con­ta­tos de in­te­gran­tes da cú­pu­la do PT com exe­cu­ti­vos do Op­por­tu­nity. Há re­gis­tros de en­con­tros de De­lú­bio com Car­los Ro­den­burg, só­cio de Dan­tas, in­ter­me­dia­do pelo pu­bli­ci­tá­rio. O ex-te­sou­rei­ro pe­tis­ta, ape­sar de di­zer que se en­con­trou pou­cas ve­zes com Ro­den­burg, re­fe­re-se a ele com in­ti­mi­da­de. Cha­ma-o de Car­li­nhos. 

À Co­mis­são de Éti­ca da Câ­ma­ra, Dir­ceu con­fir­mou ter re­ce­bi­do re­pre­sen­tan­tes do ban­quei­ro no ano pas­sa­do. No fim de 2004, quan­do a po­si­ção de Dan­tas no con­tro­le das em­pre­sas tor­na­va-se mais frá­gil, fun­cio­ná­rios da Casa Ci­vil agi­ram nos bas­ti­do­res para der­ru­bar Sér­gio Rosa da pre­si­dên­cia da Pre­vi, o fun­do de pen­são dos fun­cio­ná­rios do Ban­co do Bra­sil. Rosa é con­si­de­ra­do o prin­ci­pal ad­ver­sá­rio de DD na dis­pu­ta pelo con­tro­le das em­pre­sas de te­le­fo­nia. As ten­ta­ti­vas de afas­tá-lo da Pre­vi não pros­pe­ra­ram.

Em ja­nei­ro, o Op­por­tu­nity ain­da não ha­via de­sis­ti­do de ven­der a Te­le­mig Ce­lu­lar. As di­ver­gên­cias com o Citi au­men­ta­vam. É nes­se am­bien­te que Va­lé­rio via­ja a Lis­boa.

O real motivo da visita do publici­tário a Portugal está envolto em mistério. Os supostos participantes dos encontros contam versões distintas.

Valério diz não ter sido re­ce­bi­do pelo pre­si­den­te da Por­tu­gal Te­le­com, “por pro­ble­ma de agen­da”. Mas, por indicação deste, te­ria se encontrado com o ex-ministro de Obras e Telecomunicações Antó­nio Mexia.

No co­mu­ni­ca­do dis­tri­buí­do à im­pren­sa, os por­tu­gue­ses ne­ga­ram en­con­tros no iní­cio do ano, mas con­fir­mam ter sido pro­cu­ra­dos pelo ho­mem que fi­gu­ra no cen­tro das de­nún­cias do men­sa­lão.

“A Por­tu­gal Te­le­com man­te­ve con­ta­tos com o sr. Mar­cos Va­lé­rio de Sou­za, que nos pro­cu­rou no con­tex­to da Por­tu­gal Te­le­com es­tar po­ten­cial­men­te in­te­res­sa­da na aqui­si­ção da Te­le­mig”, diz o co­mu­ni­ca­do. A com­pa­nhia não de­ta­lha quan­do ocor­re­ram os en­con­tros nem quais as­sun­tos fo­ram tra­ta­dos nas reu­niões.

Tam­bém por meio de nota, o Op­por­tu­nity ne­gou que Va­lé­rio te­nha ido a Por­tu­gal em nome da Te­le­mig. Se­gun­do a nota, a ne­go­cia­ção foi fei­ta com a ope­ra­do­ra Vivo, en­vol­veu a Te­le­fó­ni­ca de Es­pa­ña, só­cia dos por­tu­gue­ses, e ter­mi­nou, sem su­ces­so, em se­tem­bro.

O se­ma­ná­rio Ex­pres­so, à épo­ca da pu­bli­ca­ção da en­tre­vis­ta com Ro­ber­to Jef­fer­son, em ju­nho, ou­viu o ex-mi­nis­tro de Obras Pú­bli­cas e Te­le­co­mu­ni­ca­ções An­tó­nio Me­xia. Ao jor­nal, Me­xia dis­se ter re­ce­bi­do o pu­bli­ci­tá­rio a pe­di­do de Hor­ta e na con­di­ção de “con­sul­tor da Pre­si­dên­cia da Re­pú­bli­ca do Bra­sil”.

Diante da repercussão das “denúncias” de Jefferson, Mexia procurou o embaixador do Brasil em Lisboa, Paes de Andrade, e deu outra explicação. Teria sido apresentado a Valério pelo presidente da Portugal Telecom, presente na reunião de janeiro deste ano. O ex-ministro nega que o publicitário te­nha se apresentado como “consultor da Pre­si­dên­cia da República”.

A in­for­ma­ção de que Valério ha­via se apresentado como consultor de Lula havia ou­ri­çado o âni­mo da opo­si­ção, que viu a chan­ce de li­gar o presidente ao “Va­le­rio­du­to”. O Pla­nal­to, em ou­tro co­mu­ni­ca­do pú­bli­co, ne­gou vee­men­te­men­te a in­for­ma­ção.

Ricardo Espirito Santo
Ricardo Espírito Santo, banqueiro português, teve audiência na Casa Civil (Foto: Luciana Cavalcanti/Folha Imagem)

Não há ne­nhum mo­ti­vo con­cre­to para acre­di­tar que Lula te­nha au­to­ri­za­do Va­lé­rio a fa­lar em seu nome, mas é pre­ci­so in­ves­ti­gar se o pu­bli­ci­tá­rio se sen­tia à von­ta­de para ci­tar in­te­gran­tes do go­ver­no nas vi­si­tas a em­pre­sá­rios e po­lí­ti­cos es­tran­gei­ros.

A CPI dos Cor­reios pre­ci­sa avan­çar, por exem­plo, no en­ten­di­men­to das re­la­ções en­tre Va­lé­rio e Dir­ceu. Mes­mo não sen­do mas­sa­cra­do pe­los par­la­men­ta­res da Co­mis­são de Éti­ca, o ex-mi­nis­tro terá de pro­du­zir ex­pli­ca­ções mais con­vin­cen­tes para os en­con­tros com o pu­bli­ci­tá­rio e com di­re­to­res do Ban­co Es­pí­ri­to San­to.

Pro­cu­ra­do por Car­ta­Ca­pi­tal, o ago­ra de­pu­ta­do res­pon­deu, por meio de sua as­ses­so­ria, que teve mais de 7 mil com­pro­mis­sos nos 30 me­ses em que exer­ceu a fun­ção de mi­nis­tro-che­fe da Casa Ci­vil e que é im­pos­sí­vel lem­brar de to­dos os en­con­tros.

Afir­mou tam­bém que o fato de a pre­sen­ça do pu­bli­ci­tá­rio es­tar re­gis­tra­da na agen­da “não sig­ni­fi­ca, ne­ces­sa­ria­men­te, que Mar­cos Va­lé­rio te­nha par­ti­ci­pa­do” da reu­nião com o acio­nis­ta do ban­co por­tu­guês.

Fir­me e ar­ti­cu­la­do, Dir­ceu não se dei­xou aba­lar du­ran­te o de­poi­men­to na Co­mis­são de Éti­ca. Nem mes­mo dian­te das iro­nias de Jef­fer­son. Fa­lou de im­pro­vi­so, ne­gou a in­ten­ção de chan­ta­gear o go­ver­no, de­fen­deu-se das de­nún­cias de ope­rar o men­sa­lão e não re­cor­reu em ne­nhum mo­men­to ao ad­vo­ga­do que o acom­pa­nha­va.

A pre­sen­ça de José Luís Oli­vei­ra Lima ao lado do de­pu­ta­do só ser­viu de ale­go­ria para ilus­trar um fato: como in­te­res­ses di­ver­sos, às ve­zes ori­gi­nal­men­te dis­tin­tos, sem­pre aca­bam por se en­con­trar em Bra­sí­lia ou em al­gu­ma es­qui­na do eixo Rio-São Pau­lo.

Lima tra­ba­lha no es­cri­tó­rio de An­tô­nio Car­los de Al­mei­da Cas­tro, o Ka­kay. Além de dono do res­tau­ran­te Pian­tel­la, um dos mais tra­di­cio­nais da Ca­pi­tal Fe­de­ral, e ami­go de Dir­ceu, Ka­kay, com o au­xí­lio de Lima, de­fen­de Dan­tas das acu­sa­ções de for­ma­ção de qua­dri­lha e gram­po ile­gal.

Os prin­ci­pais clien­tes pri­va­dos da DNA e da SMPB, agên­cias de Mar­cos Va­lé­rio de onde par­tiu o di­nhei­ro para di­ver­sos par­la­men­ta­res, são a Te­le­mig Ce­lu­lar e a Ama­zô­nia Ce­lu­lar, em­pre­sas que Dan­tas, ape­sar da bri­ga com os ou­tros só­cios, ain­da con­tro­la.

A SMPB, se­gun­do apon­ta­ram par­la­men­ta­res da CPI dos Cor­reios, fun­cio­na em um pré­dio de pro­prie­da­de de Ri­car­do Sér­gio de Oli­vei­ra.

Ri­car­do Sér­gio com­prou o pré­dio da Pe­tros, o fun­do de pen­são dos fun­cio­ná­rios da Pe­tro­brás, na épo­ca em que era o todo-po­de­ro­so di­re­tor da Área In­ter­na­cio­nal do Ban­co do Bra­sil, no go­ver­no Fer­nan­do Hen­ri­que Car­do­so.

Foi ele quem con­ven­ceu os fun­dos de pen­são, Pre­vi à fren­te, a se as­so­cia­rem ao Op­por­tu­nity na pri­va­ti­za­ção do Sis­te­ma Te­le­brás. As fun­da­ções en­tra­ram com um ca­mi­nhão de di­nhei­ro e en­tre­ga­ram o con­tro­le das em­pre­sas de mão bei­ja­da a Dan­tas. Está aí a base da maior dis­pu­ta so­cie­tá­ria do ca­pi­ta­lis­mo à bra­si­lei­ra.