Política

CPI das Armas debate

Viva Rio reitera: armas do tráfico vêm de dentro do País

por Redação Carta Capital — publicado 04/04/2011 16h30, última modificação 05/04/2011 14h28
O sociólogo Antonio Rangel Bandeira rebate as críticas dos Colecionadores, Atiradores e Caçadores com dados de pesquisa publicada pelo Ministério da Justiça

Continuamos o debate sobre o armamento legal e ilegal brasileiro, principalmente sobre a origem do segundo, iniciado graças à abertura da CPI das Armas na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Publicamos aqui a tréplica do sociólogo Antonio Rangel Bandeira, o primeiro a depor na CPI fluminense e autor de uma pesquisa nacional sobre o tráfico e o comércio de armas, que contesta as feitas pelo diretor do CAC (Colecionadores, Atiradores e Caçadores), Fabrício Rebelo, a concedida por Rangel à CartaCapital. (Leia também a entrevista com a diretora da ONG Sou da Paz, Melina Risso, ).

Abaixo, Rangel reafirma, com números, a sua defesa de que a maioria das armas dos narcotraficantes cariocas é de produção nacional e que membros do CAC já foram flagrados como traficantes de armas.

Gostaria de responder aos comentários feitos pelo Sr. Fabrício Rebelo à minha entrevista, publicada por CartaCapital sob o título “Maioria das Armas dos Traficantes Não vem de dentro do País”. As minhas afirmações se baseiam em pesquisas realizadas pela equipe do Viva Rio, a pedido do Ministério da Justiça, analisando mais de 300 mil informações sobre armas apreendidas pela polícia em todo o país nos últimos anos. Um estudo abrangente e seríssimo, nunca feito antes, e que está merecendo aplausos dos organismos internacionais e, muito mais importante, que está sendo de enorme importância para orientar, em bases científicas, a ação dos nossos policiais no combate ao tráfico ilícito de armas. Nosso estudo contou com a colaboração da Polícia Federal, do Exército (DFPC), dos fabricantes brasileiros de armas e até da ATF, órgão de combate ao tráfico de armas do governo dos Estados Unidos. E foi lançado pelo próprio Ministro da Justiça, que quis assim demonstrar a importância do estudo para uma política de efetivo controle das armas ilegais no país.

Para se contestar uma pesquisa, elaborada por uma equipe de economistas, estatísticos, sociólogos e policiais, baseada em dados oficiais das próprias autoridades de segurança, supõem-se que se oponha outros dados, baseado em pesquisa, e não apenas  palavras vazias e pura ideologia armamentista, sem metodologia científica de análise, como é a resposta do Sr. Fabrício. Este Sr., cuja opinião eu respeito, não cita uma prova, uma estatística, um estudo, uma fonte, para fundamentar sua tese de que as armas do crime vêm do exterior. É o "achismo" subdesenvolvido, de um Brasil arcaico, em que as políticas públicas se baseavam no que se "acha", e não em estudo sério da realidade. O que o Viva Rio tem feito, e nesse aspecto é pioneiro na América Latina, é desenvolver o estudo científico do universo das armas, universo secreto e oculto por fortes interesses na venda de armas e munições para quem quer que seja, mesmo para bandidos. Nosso objetivo tem sido o de colaborar com as autoridades de segurança, para dar mais eficácia à nossa polícia no combate ao tráfico ilegal, polícia que antes baseava sua ação apenas em mitos e conjecturas, e que pode começar agora a agir com conhecimento da realidade, com informação científica sobre o submundo do comércio clandestino de armamento. Um dos mitos que nossa pesquisa derruba é o de que a maioria das armas dos delinquentes no Brasil vem de fora, quando encontramos que apenas a média de 7% das armas apreendidas na ilegalidade no Brasil são de fabricação estrangeira (no Rio chegam a 14%, pela capacidade de compra do narcotráfico, e pela divisão das facções do tráfico, sempre em luta).

Outro ponto importante a que se chega, ao se pesquisar o armamento apreendido na ilegalidade, é que, se mais de 90% das armas ilegais são produzidas e desviadas para o crime aqui dentro, grande parte do problema é doméstico, e exige portanto medidas internas, fáceis e baratas de serem tomadas, com melhor fiscalização por parte das autoridades responsáveis. Também acho que nossas fronteiras devem ser mais bem controladas, mas 93% do problema está aqui dentro. Ainda bem, porque controlar uma fronteira imensa, com florestas e rios, será caríssimo e muito difícil. E aí as informações das fábricas, do DFPC e da Polícia Federal, rastreando 20 mil armas apreendidas no Rio, nos levam aos pontos de desvio mais frequentes: lojas, empresas de segurança privada, corrupção policial, portos, aeroportos, transporte da fábrica para os compradores, e traficantes que se cadastram como colecionadores e atiradores para terem facilidade de comprar armas e munições (o abundante noticiário acerca da prisão de traficantes que usavam sua condição de atirador esportivo ou colecionador, além de investigação do próprio Exército, através da Operação Planeta, comprova o que fica demonstrado em nossa pesquisa). O controle interno desses pontos dificultará que esses produtos armem o braço do crime organizado no Brasil. E se o governo brasileiro pressiona os países vizinhos a fazerem o mesmo, dificultará que os 7% de armas estrangeiras (poucas, mas de grosso calibre), ultrapassem nossas fronteiras.

O Sr. Fabrício procura manipular minha entrevista, dizendo que eu estou acusando os atiradores esportivos e colecionadores de armas de serem traficantes. Ora, essa é uma manobra rasteira e pouco inteligente, querendo me incompatibilizar com essas categorias, onde conto com vários amigos, pois eu próprio já fui atirador. O que afirmei, bastando consultar minha entrevista, e que foi comprovado pela CPI do Tráfico de Armas do Congresso Nacional, é que traficantes se cadastravam como colecionadores e atiradores esportivos para poderem comprar armamento com mais facilidade, e cito até a expressão do Coronel do Exército, Diógenes Dantas, que comandou a Operação Planeta no Rio, ao concluir que "os traficantes usam essas atividades como biombo para comprar armas e munições".

O Sr. Fabrício se apresenta como diretor Nacional para CAC, isto é, Caçadores, Atiradores e Colecionadores. Ora, se ele se propõe a defender essas categorias, deveria ser o primeiro a ajudar-nos a separar os traficantes e brokers (corretores) de armamento dos verdadeiros CAC, para que sua imagem pública não seja enlameada por falsos CAC, que constantemente frequentam as páginas policiais dos jornais quando são detidos fazendo contrabando ou vendendo armamento para o narcotráfico. Em 1996, na Escócia, na cidade de Dunblane, um atirador esportivo invadiu uma escola infantil e fuzilou 16 crianças. O massacre jogou a opinião pública contra os atiradores esportivos, e esse esporte foi proibido em toda a Grã-Bretanha. Os atiradores britânicos têm agora que praticar tiro em outros países. Portanto, dizer que os clubes de tiro, que a concessão de licenças para os CAC, e que as residências dos colecionadores são controlados com rigor, desmentindo a CPI das Armas que ouviu colecionadores e atiradores detidos por venderem armas e munições ao crime organizado, é impedir a depuração dessas categorias dos traficantes infiltrados, é impedir que as autoridades responsáveis sejam pressionadas a cumprirem com rigor os regulamentos.

Agradeço à CartaCapital a publicação dessa tréplica, a bem do esclarecimento de seus leitores e para reflexão do Sr. Fabrício.

Antonio Rangel Bandeira

Coordenador do Projeto de Controle de Armas

Coordinator of SALW Control Project

VIVA RIO

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