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Vitória do continuísmo

por Leandro Fortes — publicado 08/10/2010 10h53, última modificação 08/10/2010 17h18
Beneficiados pelos bons ventos da economia, os governadores, inclusive os da oposição, conseguem emplacar sucessores ou reeleger-se
Vitória do continuismo

Beneficiados pelos bons ventos da economia, os governadores, inclusive os da oposição, conseguem emplacar sucessores ou reeleger-se. Nas fotos Anastasia (MG), Campos (PE) e Alckmin (SP). Montagem sobre fotos de Alex Silva/AE, Renato Cobucci/AE e Roberto Pereira

Beneficiados pelos bons ventos da economia, os governadores, inclusive os da oposição, conseguem emplacar sucessores ou reeleger-se

[Matéria publicada na edição 616 que foi às bancas dia 4 de outubro]

A maioria dos estados não terá segundo turno. Até o fechamento desta edição, 16 unidades da Federação haviam elegido o governador no primeiro turno. Em outros quatro, a realização ou não de um segundo turno ainda estava em aberto. Nos demais, incluindo o Distrito Federal, a disputa só termina em 31 de outubro. É o maior índice de disputas definidas em uma única votação nas últimas quatro eleições.
Aliados de Lula obtiveram vitórias consagradoras. É o caso de Sérgio Cabral (PMDB) no Rio de Janeiro, Jaques Wagner (PT) na Bahia, Tarso Genro (PT) no Rio Grande do Sul, Cid Gomes (PSB) no Ceará, e Eduardo Campos (PSB) em Pernambuco. Genro teve pouco mais de 54%. Wagner, Cabral, Gomes e Campos passaram dos 60%. O pernambucano, candidato à reeleição, recebeu mais de 80% dos votos.

Nos dois maiores colégios eleitorais do País, o continuísmo foi o da oposição. Em São Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB, ganhou no primeiro turno com 50,6% dos votos válidos. Em Minas Gerais, o tucano Antonio Anastasia também venceu, com 62,7% dos votos.

“Aconteceu como era previsto”, analisa o cientista político Murillo de Aragão, presidente da consultoria Arko Advice. “De uma forma ou de outra, os governadores, inclusive os de oposição, se beneficiaram com o momento de crescimento econômico pelo qual passa o País.” Segundo Aragão, todos os candidatos aos governos estaduais se beneficiaram do aumento de receita e da possibilidade de distribuir renda entre os mais pobres. “O eleitor aprendeu a montar opções eleitorais diferenciadas nos níveis federal e estaduais.”

No Rio de Janeiro, Cabral colheu os frutos da adesão incondicional a Lula e levou as eleições fluminenses no primeiro turno. Reeleito com 66% dos votos válidos, Cabral deu uma surra no candidato do PV, o deputado federal Fernando Gabeira, protagonista de uma derrota emblemática. Ex-guerrilheiro que lutou contra a ditadura, Gabeira deu uma guinada para a direita e, no afã de apoiar o candidato tucano José Serra e destilar fel contra o PT, partido pelo qual se elegeu para a Câmara dos Deputados, chegou a se aliar ao ex-prefeito Cesar Maia, do DEM, a quem costumava desprezar e deplorar em tempos nem tão distantes. Maia -também saiu. No Rio, os senadores eleitos foram Lindberg Farias, do PT, e Marcelo Crivella, do PRB.

Nada se compara à vitória acachapante, em Pernambuco, de Campos sobre Jarbas Vasconcelos, representante quase solitário de certa ala oposicionista do PMDB. Campos obteve 82% dos votos válidos, enquanto Vasconcelos, aliado de primeira hora de Serra, amargou uma contabilidade eleitoral miúda, 14% dos votos válidos. O eleitor pernambucano não reelegeu o senador Marco Maciel (DEM) nem colocou Raul Jungmann (PPS) no Senado. O ex-ministro da Saúde Humberto Costa, do PT, foi eleito senador, ao lado de Armando Monteiro Neto, do PTB.

No Espírito Santo, a força da aliança do PT com o PMDB serviu de correia de transmissão para uma das maiores barbadas eleitorais de 2010. Com o apoio do governador Paulo Hartung, artífice de uma intrincada aliança estadual de 13 partidos, o senador Renato Casagrande, do PSB, acabou eleito com 82,3% dos votos válidos, ainda no primeiro turno. O segundo colocado, Luiz Paulo Vellozo Lucas, do PSDB, ficou com pouco mais de 15%. O senador Magno Malta, do PR, foi -reeleito, mas a candidatura da deputada Rita Camata, do PSDB, ao Senado fracassou. O outro eleito foi Ricardo Ferraço, do PMDB.

Na Bahia, venceu o capital eleitoral administrado pelo PT no estado após a morte do senador Antonio Carlos Magalhães, quando Jaques Wagner chegou ao poder, em 2006, depois de surpreender e vencer o carlista Paulo Souto, do DEM – aliás, outra vez derrotado no mesmo embate. Wagner foi re-eleito com 63,8% dos votos válidos. Souto, um dos últimos herdeiros de ACM, acabou com 16% e o ex-ministro da Integração Regional, Geddel Vieira Lima, do PMDB, que sonhava ocupar o espaço político do velho coronel, acabou em terceiro, com 15,5%. A Bahia também elegeu senadores de esquerda: venceram Walter Pinheiro, do PT, e Lídice da Matta, do PSB.

O petista Tarso Genro destruiu, no Rio Grande do Sul, todas as expectativas em relação à força eleitoral do prefeito de Porto Alegre, José Fogaça, do PMDB. Genro foi eleito com 54,3% dos votos válidos, enquanto Fogaça colheu pouco mais de 24%. A principal derrotada foi, porém, a governadora Yeda Crusius, do PSDB, acossada por uma gestão caótica mergulhada num oceano de denúncias de corrupção e inépcia administrativa. Yeda, azarão que chegou ao poder em 2006, para surpresa até dos tucanos, ficou em terceiro lugar nas eleições gaúchas, com 18,4% dos votos válidos. Na corrida para o Senado, a jornalista Ana Amélia Lemos, do PP, ficou com uma das vagas. A outra é do petista Paulo Paim.

Também em Sergipe, o governador Marcelo Déda, do PT, consolidou-se como a mais importante liderança política do estado, ao vencer o rival João Alves Filho, do DEM, no primeiro turno das eleições. Déda chegou à vitória graças ao apoio do tucano Albano Franco, notório adesista que, mesmo sem sair do PSDB, alinhou-se ao governo Lula e, por extensão, estendeu a mão cheia de eleitores para o aliado petista. Marcelo Déda teve 52% dos votos válidos, contra 45,2% de João Alves, aliado de Serra no plano nacional. Tanta dedicação de Albano Franco, no entanto, não deu em nada. O tucano acabou derrotado na intenção de se eleger senador.

Em Minas Gerais, o candidato do PMDB, o ex-ministro das Comunicações Hélio Costa, saiu na frente, mas em pique de perdedor. Foi atropelado pelo tucano Antonio Anastasia, candidato turbinado pelo ex-governador Aécio Neves. Anastasia foi de 4% da preferência do eleitorado mineiro, em abril, a 62,7% dos votos válidos no domingo 3.-- Hélio Costa acabou com 34,1%. O ex-presidente Itamar Franco (PPS) ficou com a segunda vaga do Senado ao bater Fernando Pimentel, do PT.

Em São Paulo, depois de uma apuração final emocionante, o tucano Geraldo Alckmin venceu no primeiro turno com 50,6% dos votos válidos. O candidato do PT ao governo, o senador Aloisio Mercadante, chegou a ameaçar com possibilidade de ir ao segundo turno, mas acabou derrotado ao somar pouco mais de 35%. Para o Senado, contra todas as pesquisas, quem levou a primeira vaga foi Aloysio Ferreira Nunes, do PSDB. Em segundo, a petista Marta Suplicy.

No Pará, a disputa entre a governadora Ana Júlia Carepa, do PT, e o ex-governador Simão Jatene, do PSDB, foi para o segundo turno por muito pouco. O tucano teve 49% dos votos válidos, contra 36% da petista. Nas pesquisas,- -Ana Júlia esteve atrás de Jatene todo o tempo. No Piauí, o governador Wilson Martins, do PSB, teve 46% dos votos válidos e vai disputar o segundo turno com o tucano Silvio Mendes (30% dos votos), ex-prefeito de Teresina. Em compensação, o ex-governador Wellington Dias, do PT, foi o mais votado para o Senado, à frente de Ciro Nogueira, do PP. Heráclito Fortes (DEM), líder da bancada de Daniel Dantas no Congresso, e Mão Santa (PMDB), não conseguiram se reeleger.

No Ceará, o governador Cid Gomes (PSB) foi reeleito com 61,2% dos votos, contra 19,5% do tucano Marcos Cals. A maior surpresa cearense foi a derrota do senador Tasso Jereissati, do PSDB, até então considerado imbatível na política local. Jereissati, uma das estrelas tucanas, ficou atrás de Eunício Oliveira, do PMDB, e José Pimentel, do PT.

No Paraná, o suspense se manteve até o fim, mas o ex-prefeito de Curitiba Beto Richa, do PSDB, ganhou no primeiro turno com 52,4% dos votos válidos. Richa havia conseguido barrar a divulgação de seis pesquisas eleitorais, mas nem isso ajudou a candidatura do senador Osmar Dias, do PDT, que patinou nos 45,6%. Dias havia decidido se tornar candidato depois de esgotadas as possibilidades de seu irmão, o também senador Álvaro (PSDB), ser candidato a vice de Serra.

Em Tocantins, a vitória do ex-governador Siqueira Campos (PSDB) foi apertadíssima. Ganhou no primeiro turno com pouco mais de 1% de diferença sobre o atual governador, Carlos Gaguim (PMDB), na eleição mais disputada do País até agora. Em Alagoas, quem também morreu na praia foi o ex-presidente Fernando Collor de Mello (PTB), que ficou em terceiro lugar. O segundo turno será disputado pelo governador Teotônio Vilela, do PSDB, e o ex-governador Ronaldo Lessa, do PDT. Heloísa Helena, do PSOL, não conseguiu se eleger para o Senado.

No Distrito Federal, o candidato petista Agnello Queiroz assumiu a dianteira no rastro da disputa judicial que levou o ex-governador Joaquim Roriz (PSC) a renunciar à sua candidatura e indicar para a vaga a sua mulher Weslian. Ainda assim não foi suficiente para o petista levar no primeiro turno. Queiroz ficou com 48,41% dos votos apurados contra 31,5% de Weslian Roriz. O fiel da balança no DF será o eleitorado de Toninho do PSOL, que saiu da eleição com 14,25% dos votos válidos. Logo após o resultado, Toninho chegou a pregar o voto nulo no segundo turno, mas o mais provável é que os votos dele migrem, quase todos, para a candidatura petista.

O DEM, partido em processo de inanição, conseguiu uma sobrevida: elegeu dois governadores, Raimundo Colombo, em Santa Catarina, e Rosalba Ciarlini, do Rio Grande do Norte. Em 2006, o único candidato eleito do DEM havia sido José Roberto Arruda, no Distrito Federal. Também em terras potiguares, o senador José Agripino Maia, do DEM, manteve-se vivo no Senado e virou herói da resistência da oposição.

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