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Política

Ditadura

A violência política no Brasil começou com o golpe, diz Serra

por Marsílea Gombata publicado 01/04/2014 17h47, última modificação 01/04/2014 17h50
Em depoimento à Comissão da Verdade Vladimir Herzog, o ex-governador disse que a ditadura afugentou gerações da política brasileira
Luiz França/Câmara Municipal de São Paulo
José Serra

O ex-governador José Serra durante depoimento à Comissão da Verdade da Câmara Municipal

Em depoimento à Comissão da Verdade Vladimir Herzog, da Câmara Municipal de São Paulo, o ex-governador José Serra (PSDB) afirmou que a direita deu início à violência política no Brasil. Serra relembrou o período anterior ao golpe de 1964, ocorrido há exatos 50 anos, quando era presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes).

“A violência no Brasil começou a partir da violência do golpe. Pode-se discutir se as ações armadas posteriores foram corretas ou não, mas quem praticou a violência, que fechou os caminhos da democracia, e gerou a violência posterior foram as forças golpistas. Isso é preciso ficar bastante claro, porque é algo que se mistura”, disse o ex-governador nesta terça-feira 1º.

“Quem praticava a violência no Brasil era a direita. Havia tropas de paramilitares, mas do lado da esquerda, insisto, não havia nada.”

Para o ex-candidato à Presidência pelo PSDB em 2010, a ditadura foi responsável por afugentar gerações da política brasileira. “O golpe foi o sufoco de nossa e de outras gerações do Brasil. Uma perda imensurável”, analisou. “O fechamento da política brasileira trouxe um prejuízo enorme. Seus melhores quadros foram presos ou perseguidos.”

Corrupção. Sobre as acusações de fraudes nas licitação de equipamentos para os trens de São Paulo, envolvendo a alemã Siemens e a francesa Alstom durante o governo tucano, Serra afirmou que, comparado ao que existe hoje, a era pré-64 era de “inocência”. “Não que não houvesse problema de corrupção ou de patrimonialismo, que significa usar o governo e as coisas públicas em benefício próprio. Havia. Mas, perto do que é hoje, era uma época de inocência. Isso ocorreu em toda época da República, com vais e vens. Na época do Fernando Henrique isso se contraiu, mas depois acelerou-se novamente.”

Na sessão, que teve um tratamento diferenciado – uma vez que Serra não foi interrogado como costumam ser os depoentes e teve a liberdade de falar por mais de 50 minutos – foi ouvido ainda um áudio com duas entrevistas à Rádio Nacional, no ano de 1964, antes do golpe contra Jango. Em uma delas Serra lê um manifesto no qual decreta greve estudantil e mobilização dos centros acadêmicos contra “o golpe da direita fascista no Brasil”.

Antes de Serra depôs o jornalista Duarte Pereira, vice-presidente da UNE em 1964, que comparou o argumento dos militares para o golpe à versão dada pelo governo norte-americano para invadir o Iraque, em 2003.

“Há uma desculpa de que o golpe foi dado para evitar uma revolução que estava em curso no País. Dado o golpe, porém, não foi encontrado nenhum arsenal de armas, nenhum plano de combate, nem as forças golpistas encontraram nenhuma resistência que justificasse essa versão. Isso guarda semelhança com a versão propalada pelo governo dos Estados Unidos para justificar a invasão ao Iraque em nome da existência de armas químicas e biológicas de extermínio em massa que também nunca foram localizadas.”

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