Você está aqui: Página Inicial / Política / Vandalismos

Política

Opinião

Vandalismos

por Pedro Estevam Serrano publicado 06/08/2013 11h03, última modificação 06/08/2013 12h31
Pode-se não concordar com nenhuma das formas de vandalismo, mas não se pode confundir compreensão com aceitação. Por Pedro Serrano
Fernando Frazão/ABr
Protesto

Polícia Militar do Rio de Janeiro observa manifestante em protesto durante o mês de julho

Um dos mais relevantes aspectos das jornadas de junho ocorridas no Brasil foi a denúncia, por parcela do movimento, da lógica binária que tem corroído a capacidade de análise do debate público na democracia brasileira.

Por conta da disputa de poder de quase duas décadas entre dois blocos partidários consolidados, tudo na realidade passa a ser categorizado nos quadrantes dessa disputa ou em códigos de linguagem no mais das vezes maniqueístas e paranóides.

As jornadas reivindicatórias são avaliadas pela esquerda tradicional com nítida antipatia, quase paranóica. Muitos avaliam o movimento como direitista, capturado pelas elites midiáticas, reduzindo sua complexidade a uma minoria fascista que protagonizou atos de violências contra pessoas e símbolos políticos de esquerda.

Os setores conservadores também se mostram desconfortáveis com fenômenos que surgiram para o grande publico a partir do movimento, como o Midia Ninja, forma nova e solidária, não capitalista em essência, de jornalismo que impôs por sua eficiência informativa imagens suas ao próprio Jornal Nacional. Ou com formas mais radicais de protesto como o Black Bloc.

A mídia tenta reduzir o movimento à narrativa binária de nossa disputa tradicional de poder, na qual esta mídia tem posição, embora camuflada em alguns veículos por um verniz de neutralidade que se sabe inexistente no âmbito das opiniões e mesmo nas narrativas de noticias por eles veiculadas (o que é quadrilha no escândalo de um governo é cartel no do outro).

Em verdade, o movimento conteve tudo isso, da juventude do PT à base do PSDB, da direita fascista à esquerda anárquica, uma fauna plural e descontrolada, inadequadamente entendida como sem liderança.

A ausência de centralização hierárquica não necessariamente significa ausência de lideranças mas pode implicar em lideranças em rede, ou seja, a pluralidade de lideranças anônimas. Pessoas ocasionalmente lideres em vez do lugar da liderança.

A diferença é fundamental, um movimento sem lideranças é capturável pelas formas políticas tradicionais. Liderado em rede o movimento se dilui e por essa diluição fracionada de discursos é impossível de ser controlado ou capturado.

Me parece, francamente, haver um acordo inconsciente mas real entre a mídia comercial e partidos tradicionais de esquerda. Ambos desejam capturar a narrativa do movimento pela lógica binária da disputa partidária. Procuram trazer essas novas formas políticas para o interior de suas crises de representação e discursiva.

Um dos diversos aspectos que evidenciam essa tentativa de captura empobrecedora do debate é o tocante ao tema do chamado “vandalismo”.

Procura-se discernir o tema no quadrante maniqueísta do vandalismo violento como categoria única contra o pacifismo bom moço de classe média. Nada mais falso em termos de análise e redutor de complexidades no fenômeno social e politico.

Várias foram as formas de “vandalismo” e vários seus sentidos éticos e políticos.

Pode-se não concordar com nenhum deles, como eu mesmo não concordo, mas não se pode confundir compreensão com aceitação. Há que se compreender o que ocorre como condição para medir as formas e extensões de sua não aceitação.

Entre os “vandalismos” ocorrentes existem distinções não apenas de grau e natureza de violência, mas também de qualidade política e ética.

Em princípio há que se admitir que nossa democracia ocidental contemporânea, com suas características de voto universal, direitos de liberdade e sociais garantidos, tolerante e multicultural foi construída historicamente mais por rupturas da ordem do que por seu cumprimento.

Assim, atos ilegais nem sempre significam algo ética ou moralmente condenável. Tudo depende do momento, da circunstância, das consequências e das intenções políticas.

A democracia para existir demanda por um lado cumprimento rigoroso da ordem democrática e, contraditoriamente, rupturas desta mesma ordem que representem ampliação da proteção, reconhecimento e realização de direitos individuais e coletivos.

O critério de juízo, neste caso, é mais de legitimidade do que de legalidade.

Sem entrar no mérito de sua legitimidade há que se reconhecer que várias foram as categorias de violência e “vandalismos” ocorrentes nas jornadas de junho.

O mais recriminável do ponto de vista jurídico e ético foram os vandalismos fardados e fascistas. Essa forma de violência estatal e não estatal de direita, praticada pela policia e pela infiltração da ultra direita no movimento, voltou-se a vitimar pessoas no legítimo exercício de seus direitos fundamentais de manifestação e reunião.

Essa forma nefasta ocorreu tanto nas ações criminosas da polícia violenta que se voltou contra todos os manifestantes como na ação de grupos de manifestantes de extrema direita que agrediram outros manifestantes pelo fato de portarem bandeiras de partidos e símbolos de esquerda.

Tem por característica principal o fato de serem atos de violência voltados contra pessoas. Seres humanos são agredidos e vilipendiados em seus direitos.

Esse sim o verdadeiro “vandalismo” no sentido negativo que a expressão tem.

Também foi observado “vandalismo” praticado na forma de saque a estabelecimentos comerciais. Embora tenha consequências politicas a intenção do saque não é política no sentido estrito, trata-se de mera locupletação indevida de marginais que se aproveitam da natural confusão sempre existente em movimentos coletivos de manifestação.

Eticamente reprovável e juridicamente ilícita a conduta do saque, embora de menor gravidade que a violência praticada contra pessoas.

Por fim observou-se também a violência de estilo Black Bloc ou assemelhada.

Esta última tem, a nosso ver, natureza distinta no plano político e ético das demais.

Trata-se de ação politica direta e violenta que atinge bens materiais que representam simbolicamente o capitalismo e suas narrativas cotidianas. Janelas de bancos são quebradas, carros de luxo são pichados etc

Não vejo eficiência política neste tipo de manifestação, atrai mais antipatia pública do que convence ou divulga ideias libertárias. Atitude a meu ver de inconsequência juvenil, mas inegavelmente política.

Trata-se da prática de violência de baixa agressividade, voltada contra bens e não contra pessoas e que não tem por função locupletação pessoal mas sim divulgar ideias anticapitalistas.

Pode e deve ser punida e criticada, mas há que se ter uma avaliação ética e política diferenciada desta categoria de violência. Não tem fins individualistas nem fins políticos nihilistas ou autoritários, ao contrário pregam forma de liberdade que namora com a anarquia.

Não vejo nesta forma de violência ilegal nada de bom em termos de avanço democrático ou de possibilidade de conquista real de ampliação de direitos, aliás creio que destinada à ineficácia como resultado de um excessivo esquerdismo anarquista.

Mas reconheço que merece uma outra forma de juízo ético e não deve ser posta no mesmo cesto que os “vandalismos” que visam o saque ou pior, que visam agredir pessoas e restringir direitos legais e legítimos.