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Política

Rosa dos Ventos

Uma pedra no caminho

por Mauricio Dias publicado 27/08/2011 10h08, última modificação 27/08/2011 10h08
Os preparativos para as eleições municipais de 2012 põem PT e PMDB em rota de colisão

A pedra no caminho de Dilma é a eleição municipal de 2012. E é uma pedra irremovível porque reflete o confronto entre os anseios políticos expansionistas do PT e do PMDB, partidos que formam a viga mestra da ampla aliança político-eleitoral vitoriosa, com ela, em 2010.

Na prática, a tradução dessa imagem é o que se vê escancarado diariamente no noticiário: a luta por cargos estratégicos no segundo escalão da administração federal e, também, a pressão pela liberação das verbas de emendas parlamentares, no Orçamento da União, em geral destinadas às prefeituras. Um dinheiro que, curiosamente, põe em rota de colisão o modesto interesse municipal com a ambiciosa necessidade nacional de conter impactos da crise internacional na economia.

Embora o conflito possa ser contido, ele é, mais do que a demissão de ministros e funcionários de partidos da base, a tormenta na rota de navegação da nau dos aliados governistas.

“Ela (Dilma) está absolutamente condicionada a decisões que o PT e o PMDB tomem”, observou o governador cearense Cid Gomes, com uma precisão que traduz, também, a natural ponta de ciúme de um partido numericamente menor da base de apoio a Dilma no Congresso.

Não por acaso, PT e PMDB afiam as garras nas próximas semanas.

O PT se antecipa. No congresso que fará entre os dias 2 e 4 de setembro, o partido pretende ordenar as coordenadas que conduzirão a campanha petista, especialmente nas 117 cidades do País com mais de 150 mil eleitores. A meta do partido é fugir do confinamento no interior, os chamados grotões. Uma possibilidade projetada pelo desempenho da legenda a partir da eleição municipal de 2004 e após a vitória de Lula para a Presidência, em 2002 (tabela 1).

O PT, que já era forte nas regiões mais urbanizadas, tomou conta das pequenas cidades com até 10 mil habitantes e entre 10 mil e 20 mil, e desloca gradualmente o muy amigo PMDB e o adversário DEM, tradicionais “donos” desses votos.

Nesse universo eleitoral, o PT foi vitorioso em 2008. Assim como ganhou, também, em 28 das maiores cidades brasileiras, secundado pelo PMDB com 17. Os petistas são fortes no topo e na base da pirâmide eleitoral (tabela 2).

Em 15 de setembro, o PMDB realiza, em Brasília, o fórum O PMDB e os Municípios – Cidadão, Cidade e Cidadania, Uma Vivência Democrática, nome tão longo quanto a pretensão eleitoral do partido. Tudo sob o comando do vice-presidente Michel Temer e com a presença de governadores, parlamentares, vereadores e prefeitos de todo o País. Um contingente numericamente imponente.

O PMDB ainda é o partido que mais conquista prefeituras, considerando o desempenho em toda a década passada. Esse é o ponto forte da legenda que, em 2008, elegeu 1.195 prefeitos. Uma recuperação em relação às eleições de 2004, quando elegeu 1.054. Abaixo, porém, dos 1.257 prefeitos de 2000.

A marcha do PT nas eleições municipais com a conquista de quase 600 prefeituras em 2008 e após fazer, em 2010, a maioria na Câmara, superando o PMDB, dá um colorido especial a esse confronto eleitoral, que, no fim, é ruim para Dilma.

Andante Mosso: Notas sobre os principais acontecimentos da semana

De olho no tabuleiro I

O Senado aprovou a indicação do general Jorge Fraxe para o Dnit.

Ele chefiava a Diretoria de Obras e Cooperação do Exército, diretamente subordinada ao Departamento de Engenharia e Construções, então dirigido
pelo general Enzo Peri. Peri, agora Comandante do Exército, foi responsabilizado pelo Tribunal de Contas da União por irregularidades e, por isso, pode ser indiciado pelo procurador-geral da República.

Simultaneamente, foi nomeado para a Secretaria Executiva do Dnit Tarcisio Freitas, um capitão-engenheiro do Exército hoje funcionário concursado
da Controladoria-Geral da União, de onde fiscaliza o Dnit. Uma mexida calculada da presidenta Dilma.

De olho no tabuleiro II

Está engarrafada a lista de decisões de exclusiva competência do procurador-geral, Roberto Gurgel.

Fadado a decidir se indicia ou não o ministro do Exército Enzo Peri, em razão de irregularidades na gestão dele no Departamento de Engenharia e Construção, Gurgel tem de tomar posição sobre o foro privilegiado dos generais contestado pelo promotor Soel Arpini, do Ministério Público Militar, desde 2007.

Gurgel não tem prazo legal para definir.

Sofre, porém, a pressão do prazo moral e o incômodo provocado por certos processos sobre os quais se aboleta, que espetam como ponta de baioneta.

Dinheiro e voto

Embora inspirada pela cínica cruzada moralista, a OAB anunciou que irá ao Supremo Tribunal Federal arguir a constitucionalidade da doação de dinheiro de empresas privadas para campanhas eleitorais.

A proposta, ousada, merece atenção. As contribuições privadas subverteram o processo eleitoral e, ao longo do tempo, transformaram a eleição, um fato político, em um processo econômico.

O candidato corre primeiro atrás do dinheiro e só depois, comprometido com o financiador, vai atrás dos votos.

Sob pressão

Embora esteja em estado de coma, a ideia de criar um marco legal para o setor de radiodifusão parece que ainda respira.

“Não dá para ficar com uma lei de 1962, mas precisamos encontrar um caminho que respeite a radiodifusão”, diz André Barbosa, assessor da Casa Civil.

Ele acrescentou ao site Teletime: “Tenho certeza que o projeto não descartará o trabalho conduzido pelo ex-ministro Franklin Martins”.

A primeira declaração dele, somada à segunda, mostra a pressão contra a proposta do novo marco.

O novo PT

Um clima cinzento paira sobre o congresso do PT marcado para o início de setembro.

A única novidade é o lançamento de uma nova tendência nascida da costela da facção Articulação de Esquerda.

Não há mais teses a ser discutidas. Foram sufocadas pelo pragmatismo.

Embora muitas vezes maçantes, elas refletiam a efervescência na vida interna do partido, que parece ter chegado ao fim.

Gente fina

Dados do Banco Central na rubrica Capitais Brasileiros no Exterior mostram que, de 2001 a 2010, o número de declarantes com dinheiro no exterior aumentou mais de 70%.

Os números expressam as declarações no fim de cada ano-base das pessoas físicas ou jurídicas com depósito igual ou superior a 100 mil dólares.

O volume de ativos de pessoas jurídicas, no fim de 2010, era de 228,9 bilhões de dólares (quase 85% do total) ante 45,6 bilhões de dólares de pessoas físicas.

Essa é a robusta “poupança externa” dos brasileiros.

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