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Política

Israel e Hamas

Uma paz encenada

por Wálter Maierovitch publicado 24/10/2011 17h16, última modificação 24/10/2011 17h16
A libertação do soldado israelense Gilad Shalit em troca de 1027 palestinos não é um passo para a paz, mas um engodo

Certa vez, Antonio Luiz M. C. Costa, editor de CartaCapital, mencionou a falta de isenção e a agressividade de certos leitores ao comentar os conflitos entre israelenses e palestinos. Como exemplo, fui mencionado. Num só artigo fui tachado de “judeu filho da puta” e de “antissionista filho da puta”. O artigo em questão apontava para os excessos, por parte de Israel, de situações originariamente de legítima defesa, mas descaracterizadas, pela imoderação, e a resultar em massacres enquadráveis no direito internacional como crimes contra a humanidade. Enquadráveis, pois Israel não subscreveu a Convenção de Roma e, a exemplo de outros seis Estados, não aceita a jurisdição do Tribunal Penal Internacional.

A mesma adjetivação voltou com o judeu cedendo lugar ao “carcamano”. Isto se deu no Caso Cesare Battisti. Internautas, para me desqualificar, chamavam a atenção para os meus dois sobrenomes. No particular, não tiveram a cautela de verificar que não sou nem judeu, pois filho de mãe cristã, nem italiano, por ter nascido em 1947 no Brasil, mas apenas de linhagem materna italiana e patronímico molisano meridional.

Agora, certamente, vou voltar a desagradar. É que não me alinho entre os que consideram um primeiro e histórico passo na direção da paz o acordo celebrado entre Israel e o Hamas de troca de prisioneiros. Trata-se de engodo. E o fato de 80% dos israelenses terem apoiado o inédito acordo apenas significa que desejam a paz, apesar do premier e do seu sustentador, um fanático trapalhão que ocupa a cadeira de ministro das Relações Exteriores. A propósito do resultado da pesquisa, a ultradireita israelense, cujos integrantes chamam o acordo com o Hamas de “pacto com o diabo”, tirou dos guardados outra sondagem: 60% dos terroristas voltam a praticar atos eversivos depois de liberados.

Esse acordo consistiu na troca de 1.027 prisioneiros palestinos pelo israelense Gilad Shalit, de 25 anos e custódia derivada de captura, em 25 de junho de 2006, em um lugar vizinho à Faixa de Gaza, local conhecido como Kerem Shalom. Dentre os palestinos estão 27 mulheres e líderes do porte de Ahmed Saadat (comandou uma intifada como chefe da Frente Popular) e outros veteranos do terror, como Saadat, agora octogenário, que matou 36 pessoas em Jerusalém, defronte ao lotado Moment Café.

Shalit, promovido de cabo a sargento especial, quando sob custódia do Hamas e sem que o Mossad conseguisse descobrir onde estava detido foi, por mediadores do governo do Egito, devolvido na terça-feira 18. No mesmo dia restaram livres um primeiro grupo de 470 palestinos. Desses, 40 -permaneceram no Cairo e foram recebidos por Khaled Meshaal, que vive na Síria e é o principal articulador do Hamas no Irã.

Na verdade, o badalado acordo decorreu de uma tentativa de melhorar as destruídas imagens do premier israelense Benjamin Netanyahu e dos líderes do Hamas. Houve interesse coincidente em embaçar o brilho conquistado pelo presidente Mahmoud Abbas na recente Assembleia das Nações Unidas.

Da tribuna, Abbas desmoralizou o presidente norte-americano, Barack Obama, que prometera um Estado Palestino e procurou prolongar o prazo vencido da promessa. O sucessor de Yasser Arafat acabou por garantir aos palestinos uma cadeira de observador privilegiado na ONU, à semelhança da posição do Vaticano. Mais ainda: Abbas apresentou, sem impor prazo fatal ao Conselho de Segurança, requerimento para reconhecimento e inclusão do Estado Palestino. A reação de Israel, logo após a Assembleia, foi desastrada: Netanyahu autorizou novos assentamentos de colonos na Cisjordânia para além das linhas pós-Guerra dos Seis Dias, de 1967. Nunca serão iniciadas tratativas de paz com áreas invadidas e apossadas por Israel.

O desgaste do Hamas decorre da tentativa de transformar a Faixa de Gaza em território de proibições religiosas, como na teocracia iraniana. Entendem os desgastados líderes que o acordo de troca de prisioneiros, na base de 1 por 1.027, servirá, impulsionado por festas, para reduzir as insatisfações: o radicalismo religioso atingiu o paroxismo com a ordem de fechamento de salões de beleza para mulheres. Até células ligadas à Al-Qaeda, de matriz sunita wahabita, pressionam o Hamas e contestam o vínculo com o Irã xiita. Muitos em Gaza discordam da postura bélica do Hamas e sabem que seus principais líderes vivem na Síria e, no momento, tramam pelo fim da influência alauíta e a queda do presidente Bashar al-Assad, cuja derrubada não interessa a Israel.

Netanyahu e o Hamas precisavam de um fato novo e usaram a troca de prisioneiros. Passados os festejos, Abbas já cuida de pronunciamento para alertar sobre uma velha tática de Israel, ou seja, a aposta na divisão entre palestinos. Como até o Muro das Lamentações sabe, para dividir e enfraquecer o antigo líder Yasser Arafat, Israel apoiou até o Hamas.

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