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Política

Crônica

Uma nação de Caco Antibes

por Matheus Pichonelli publicado 07/11/2011 15h02, última modificação 07/11/2011 19h39
Antes das redes sociais, a sensação era que a sala de jantar em família era o único palanque para aquele primo metido a cover de Caco Antibes. O Facebook mostrou que estamos em uma nação de Caco Antibes

A vida em rede é viciante. Nela, você consegue ter por perto boa parte dos amigos e até da família com uma simples rolagem na barra de contatos. As manifestações de apreço têm temperaturas adequadas para cada situação, diferentemente de sorrisos indecisos dos que sabem misturar, na vida real, afetos com dissimulação. Na internet, o compartilhamento de uma dica, um link, uma foto, um pensamento sobre a vida é, de longe, o maior sinal de prestígio dos tempos atuais – se não for pra tanto, basta apertar o botão de “curtir”, espécie de manifestação britânica de apreço ou camaradagem.

Uma frustração da vida moderna, porém, é não poder transferir os hábitos em rede para a vida concreta, que nem sempre cabe numa caixa de 140 caracteres. Porque seria bom, muito bom, poder denunciar conteúdo, bloquear, ignorar, trollar ou simplesmente eliminar da vida real os lastros de nazismo revigorado que povoam, sempre povoaram, e sempre povoarão as ruas, mesas de bares, jantares para convidados, happy hours, sermões e tudo o mais que, em nome da estupidez, reunir dois ou mais idiotas numa mesma conversa.

Faz pouco mais de uma semana que o Brasil soube que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está doente, submetido a um tratamento contra um câncer na laringe. Foi tempo suficiente para me levar a criar uma espécie de barreira sanitária nas minhas relações virtuais: por recomendação de uma amiga, limei da minha lista todos os amigos (sim, alguns eram chamados de “amigos” antes mesmo de Mark Elliot Zuckerberg ganhar seu primeiro “Pense Bem”) que usaram a rede para fazer chacota em cima da doença do ex-presidente.

Vendo os assuntos mais comentados nas mídias eletrônicas, e também nas bancas de jornais, posso supor que não fui o único a desconfiar (e a me livrar) dos colegas ativistas que sugeriam a Lula que se tratasse pelo SUS.

Em meio à enxurrada de análises que pipocaram na última semana, alguém chegou a sugerir: não dá para ignorar o que quer e o que pensa uma parcela significativa da sociedade que usa as redes sociais para se manifestar. Ou seja: as pessoas têm direito de pedir ou sugerir o que quiserem, inclusive que políticos se beneficiem das estruturas públicas que eles mesmo administram. O que não se pode, segundo o raciocínio, é desperdiçar a chance de se identificar tendências em razão de uma “barreira de indignação”.

Faz sentido. Quem acompanha as nuances da internet já se deparou, em algum momento, com uma espécie de ativismo justiceiro, de quem aparentemente não distingue alhos de bugalhos, limpa a consciência com frases-feitas de indignação (como comparar salário de deputado com o de qualquer profissional) e faz, em nome da revolução, nada mais do que arremessar aviões de papel em direção a prédios de concreto.

Nos países árabes, o ativismo provocou estragos, dirão alguns. Mas no Brasil a mobilização mais emblemática, até o momento, aconteceu em Natal, onde protestos na rede transbordaram para o concreto das ruas e geraram uma grande manifestação popular contra a prefeita Micarla de Souza (PV). Fora isso, o que se viu, na maioria das vezes, foram boas intenções misturadas com um lacerdismo revisitado, como os indignados que saíram às ruas em São Paulo supostametre contra a corrupção (). Uma espécie de indignação que só é acionada quando a suspeita recai sobre o partido a ser combatido. E que leva as centenas de pessoas, entre as milhares que confirmam virtualmente a presença em atos reais, a manifestarem um número imenso de impropérios contra o governo federal e o Congresso, mas nenhuma linha sobre CPIs engavetadas e problemas urbanos bem embaixo do nariz nas grandes cidades.

Foi essa mesma indignação seletiva que fez com que, de repente, pessoas que jamais se preocuparam com política ou com o sistema público de saúde manifestassem, por meio de correntes virtuais, uma repentina revolta com o estado das coisas. A fórmula reúne a mais baixa das escalas de desonestidade intelectual: parte de dois pressupostos verdadeiros (o sistema de saúde é problemático + a elite não se trata em hospitais públicos) para se chegar a uma conclusão falsa (“Lula, oportunista, não prova do próprio veneno”), gerando uma sensação de descalabro.

O sofisma sobre o SUS me levou à eliminação da primeira dezena de amigos numa rede social, com viés de alta. Vou viver melhor sem eles, ao menos no mundo virtual. Mas não é a primeira nem será a última manifestação de nazismo 2.0 que teremos o desprazer de testemunhar. Por falta de referências, intelectuais ou mesmo de experiência de vida, a direita raivosa (assumida ou não assumida) acabou identificando nas páginas eletrônicas um terreno fértil para o seu obscurantismo, sua ignorância e o seu preconceito. E, diferentemente do que se crê, ela não está protegida pelo anonimato; as manifestações surgem com nome, identidade e endereço (eletrônico). Basta clicar no botão “compartilhar” ou “retweet” e passar para frente toda e qualquer forma de campanha cívica em nome da moral e dos bons costumes.

A bola da vez é o “Quero ver o Lula no SUS”, mas pouco antes correntes tão ou mais ofensivas à inteligência humana já haviam temperado o clima. Uma delas: “Por que cuido de animais com tanta gente passando fome?”. Tratava-se de um banner, compartilhado por milhares de pessoas, em que algum pensador contemporâneo expunha uma tese segundo a qual os animais, diferentemente dos pobres humanos, não contavam com SUS, Bolsa Família, leis de proteção social, etc. Na mesma semana, fotos de suspeitos mortos numa ação policial começaram a pipocar nas minhas páginas de atualizações, sempre com o lema: “bem feito”. Uma outra ainda incitava, em meio a uma campanha de prevenção do câncer do mama, as amiguinhas a tirarem fotos mostrando os peitos. A ideia virou corrente. Pouco antes pipocavam campanhas contra a “roubalheira” (cujo símbolo era uma mão aberta com quatro dedos); fotos de chacota sobre uma mulher que seria o “cruzamento” entre Mussum e Zacarias (negra, portanto); campanhas contra nordestinos em plena campanha eleitoral, etc. Racismo, bairrismo e medievalismo nunca estiveram tão à vontade numa rede mundial.

Pode ser só bobagem, brincadeira, rebeldia sem causa, sintoma de esvaziamento político da discussão – que, por ser vazio, tem como maior risco chegar a lugar nenhum. Mas na campanha de 2010 foi justamente esse o caminho encontrado por marqueteiros para espalhar, de modo rápido e barato, boatos sobre abortos e privatizações no rastilho da internet. Os presidenciáveis passaram mais tempo rebatendo absurdos do que discutindo propostas.

Antes das redes sociais, a sensação que havia era que a sala de jantar em família era o único palanque para aquele primo metido a besta que gostava de posar de Caco Antibes, o personagem de Miguel Falabella que cuspia impropérios públicos em ambiente privado no dominical “Sai de Baixo”. Agora o Facebook, o Orkut e o Twitter mostraram que estamos no meio de uma multidão, uma nação de Caco Antibes sem papas na língua. Devido à ausência de princípios, ainda que presas fáceis para líderes que já entenderam a nova linguagem da internet, as manifestações podem até ser infrutíferas – vide o revide imediato em defesa da dignidade de um tratamento de doença, que ao fim venceu a queda de braço. Mas o termômetro está aí, indicando a cada dia que os idiotas são, de fato, a grande maioria dos que não calam. E de uma nação de idiotas não há o que se esperar, a não ser o pior.