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Um novo ciclo se inicia

por Coluna do Leitor — publicado 03/11/2010 16h10, última modificação 04/11/2010 08h56
Passada a eleição presidencial de 2010, iniciamos, na prática, um novo ciclo histórico no Brasil, com muitas influências no restante do continente e mesmo no mundo. É no que acredita o leitor Jefferson Tramontini

Por Jefferson Tramontini*

Passada a eleição presidencial de 2010, iniciamos, na prática, um novo ciclo histórico no Brasil, com muitas influências no restante do continente e mesmo do mundo.

O estudo da história é dividido em períodos. E um ciclo histórico sempre deriva de elementos do anterior. No Brasil, por exemplo, o ciclo iniciado na reabertura política sucedeu o de resistência, armada ou não, e os atores envolvidos na resistência encabeçaram o período seguinte.

É nesse período que surge a maior liderança brasileira na atualidade, o presidente Lula. Oriundo das lutas operárias que ajudaram a derrubar a ditadura dos generais, Lula aglutinou, ao longo do tempo, em torno de si as forças progressistas e de esquerda, alcançando em 2002 o ápice dessa batalha, com sua eleição à presidência, consolidada com a reeleição em 2006.

O ciclo da reabertura democrática foi tortuoso. As batalhas da constituinte, a eleição de 1989, a resistência ao neoliberalismo, as lutas por direitos democráticos aos menos favorecidos, aos que vivem de seu próprio trabalho. Com a eleição de Lula, o sinal dessas batalhas se inverte. Da resistência passa-se à conquista, representando o auge das lutas que se iniciaram com a derrubada dos generais.

Esse ciclo, de forma didática, se encerra em 1º de janeiro de 2011, com a passagem da faixa presidencial de Lula a sua sucessora, Dilma. Elementos do novo ciclo já se apresentaram.

Podemos destacar alguns. Como em todas as grandes viradas, os momentos agudos da história, forças surgem dos subterrâneos. Durante a campanha presidencial de 2010, alguns defuntos foram desenterrados. Todo tipo de preconceitos, de calúnias, de mentiras foram destilados contra a candidata governista. Na trincheira do candidato elitista se perfilou o que há de mais atrasado na política brasileira, representado pelo obscurantismo religioso, pela TFP, pelo Clube Militar e, obviamente, pela chamada grande imprensa.

Os conservadores e reacionários também perceberam os sinais das mudanças profundas em curso no Brasil e em seu povo e cerraram seus punhos para defender seus velhos privilégios. Mas eles também possuem diferenças entre si.

Alguns ressucitaram a jurássica prática udenista, da mentira, da calúnia, do golpismo. Aí se encontram setores tucanos, militares e parte dos correligionários do chamado Partido da Imprensa Golpista (PIG). Outros optaram por um caminho um pouco diferente. Provavelmente antevendo o novo período que se abre e tentando se manter à testa de uma oposição conservadora à continuidade de um governo mudancista.

Exemplo dessas diferenças é a postura adotada por dois dos principais jornalões brasileiros. Enquanto a Folha de São Paulo optou por reafirmar sua falsa imparcialidade; o O Estado de São Paulo declarou, em editorial, seu apoio à candidatura conservadora. A declaração de apoio do Estadão representa um paradigma quebrado na grande imprensa, que passou os últimos oito anos em franca oposição ao governo Lula, mas sempre se auto-proclamando neutra.

O ciclo iniciado na reabertura se encerra. Um novo ciclo histórico se abrirá à partir da posse da primeira mulher presidente do Brasil, outro paradigma quebrado, de forte simbolismo. Depois de um trabalhador, uma mulher, originada no enfrentamento à ditadura militar, Dilma Rousseff.

Como todo período que se inicia, muitas são as incertezas. Qual será a prática política adotada pela oposição conservadora e quais e quantas serão suas cisões? O obscurantismo, religioso ou não, desenterrado nesse processo eleitoral, continuará como um zumbi atormentando os brasileiros? Novas forças, à esquerda ou à direita, surgirão? A maioria governista manterá sua unidade? Qual será o papel do presidente Lula de agora em diante? A grande imprensa continuará agindo em uníssono ou suas disputas, inclusive comerciais, dividirá sua ação? Conseguirá Dilma fazer, mais que continuar, avançar o processo mudancista iniciado no governo Lula?

Muitas são as perguntas e a maior parte das respostas, por hora, são mera especulação. No entanto, já há sinais apontados.

É certo que as forças progressistas e de esquerda, aglutinadas em torno da presidente Dilma, estão mais fortes, mais maduras, mais organizadas, mais enraigadas no povo, e o caminho do aprofundamento das mudanças em favor do povo está pavimentado. O povo brasileiro também amadureceu e já não é mais enganado como antes pelas elites, pelos coronéis. Mas a luta será dura, pois as forças conservadoras, divididas ou não, travarão um combate sem trégua à continuidade das mudanças, ao fim dos privilégios.

Em 1º de janeiro começará a se delinear o novo campo de batalha, porém, dessa vez, como nunca antes na história desse país, o exército democrático-popular já está a postos.

*J. Tramontini é membro da Coordenação Nacional dos Bancários Classistas, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil

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