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Política

Entrevista

Tucanos sem ziriguidum

por Cynara Menezes — publicado 13/11/2011 16h06, última modificação 16/11/2011 10h02
O senador Aloysio Nunes Ferreira lamenta a ausência de um “samba-enredo” ao PSDB
Aloysio Nunes Ferreira

O senador Aloysio Nunes Ferreira lamenta a ausência de um “samba-enredo” ao PSDB. Foto:Sergio Amaral

O tucano Aloysio Nunes Ferreira é da oposição, mas é um político tão cordial que os petistas nem o trollam (provocam) no twitter, a rede social onde volta e meia o senador é quem trolla... seu próprio partido. Nos últimos meses, Aloysio tem utilizado a internet para se queixar da falta de empenho do PSDB em se  reorganizar. "Cada um vive isolado no seu mundo", critica o senador paulista, que recebeu CartaCapital em seu gabinete em Brasília.

CartaCapital - Outro dia o sr. causou gargalhadas ao falar que o PSDB estava unido numa votação. Tem muita desunião dentro de seu partido?

Aloysio Nunes - Não, existe falta de união (risos). Falta um samba-enredo, uma narrativa da nossa história e da história dos nossos adversários que seja compartilhada por todos e pelo eleitorado. Que a nossa visão dos problema seja reconhecida, que empolgue as pessoas e que possamos repetir, cantar exaustivamente. Um pouco como o PT fez quando estava na oposição. Isso nos falta.

CC - Houve um encontro do PSDB esta semana no Rio e o sr. não compareceu. Por quê?

AN - Esta reunião estava marcada para a última semana de outubro. Foi adiada em função da agenda do Fernando Henrique e eu já tinha outro compromisso. Vou nas próximas.

CC - É engraçado que o ex-presidente FHC lançou um documento dizendo que o PSDB precisava se aproximar do povo e nesse encontro criou o slogan "Yes we Care" para o partido. O povo vai entender?

AN - Acho que não... Mas as pessoas que estavam lá entenderam. Agora, considere isso uma boutade do Fernando Henrique. Estas reuniões são eventos culturais, importantes para discutir idéias, ouvir pessoas de fora. Mas não é esse tipo de encontro que vai formular a linha do partido.

CC - Quando o sr. se queixa no twitter significa que está desprestigiado?

AN - Não, pelo contrário. Estou feliz como nunca na minha condição de senador. O que sinto falta é um ambiente de maior discussão política. Quando reclamei da ausência de reuniões da comissão executiva me referi a isso.

CC - As decisões estão sendo tomadas individualmente, é isso?

AN - Exatamente. Cada um vive isolado no seu mundo, no seu segmento. Eu aqui na minha bancada, os deputados federais na bancada deles. Falta uma dinâmica unitária mais forte no partido. Não é uma crítica pessoal ao presidente do partido, Sérgio Guerra. Mas faltam mecanismos coletivos de tomada de decisão, uma rede de comunicação mais sólida com os militantes, não temos usado com eficiência as redes sociais. É cada um cuidando do seu twitter, do seu blog, do seu facebook, do seu site. Falta unir isso.

CC - O sr. cogitaria ir para o PSD?

AN - Não, estou bem no PSDB. Não vou sair de jeito nenhum.

CC - O sr. é a favor que o PSDB seja vice do PSD de Gilberto Kassab na próxima eleição para prefeito?

AN - Temos um eleitorado comum e temos realizações comuns. O candidato do Kassab provavelmente será o vice-governador do Geraldo Alckmin (Afif Domingos). Não vejo muito sentido em se fazer campanha contra o vice do Alckmin. O eleitorado não vai entender, assim como quando Alckmin se lançou a prefeito (em 2000). Ele não foi para o segundo turno porque o eleitorado não entendeu. Temos que ficar juntos. Quem vai estar na cabeça ou não tem que ver mais adiante.

CC - Recentemente o sr. fez troça do PSD, comparando-o a um confeiteiro machadiano que queria agradar a todos, monarquistas e republicanos, oposicionistas e governistas. Falta uma cara ao PSD?

AN - Ah, falta. O PSD cresceu nos interstícios da política regional. É muito mais um partido do governismo regional do que federal. A estratégia do Kassab, que foi inteligente, foi somar com os governadores. A tal ponto que o vice-governador do Jaques Wagner (PT) hoje é do PSD... Acho que o objetivo do Kassab é, com base nessa aliança com governadores, ter uma bancada numerosa e, a partir daí, se firmar no primeiro plano da política nacional. O Fernando Henrique falou que o PMDB era um partido-ônibus. O PSD é um partido-van, que vai para tudo quanto é lugar, é menor, mais ágil. Pode dar certo.

CC - Desde o governo Lula se fala que quem faz oposição no Brasil é a imprensa. Os partidos de oposição sempre estarão a reboque da imprensa?

AN - A imprensa tem mecanismos de investigação próprios da imprensa. Eu não criaria um departamento de espionagem e contra-espionagem no PSDB para fuçar a vida dos outros, esquadrinhar. O que temos de fazer é repercutir e bater o bumbo. Muito. Quando você bate, junta no antagonismo as motivações mais diversas.

CC - Isso o sr. acha que a oposição está fazendo bem.

AN - Sim. Acontece que o palco em que isso se dá, nosso terreno de luta, é basicamente o Congresso Nacional. E o Congresso não está exatamente em odor de santidade perante a opinião pública. É um mau momento, mas não se pode arrefecer.

CC - O sr, como ex-guerrilheiro, não ficou frustrado com a Comissão da Verdade tal como foi aprovada e da qual foi relator no Senado?

AN - Não. A Comissão está na medida certa para o que tem de fazer. Ela não vai rever a anistia. A anistia está incorporada ao sistema político brasileiro, já produziu seus efeitos. Não fosse ela eu não estaria aqui. Foi resultado da peculiaridade do processo de transição da ditadura no Brasil, que foi negociado. Uma boa parte do inconformismo vem de que as pessoas acham que precisa rever a lei da anistia. Não é minha posição. Agora, a comissão vai se legitimar pelos resultados que puder obter e pelo apoio que tiver do governo. E não tenho dúvidas de que a presidente dará todo apoio. Mas ela tem que ter foco, deve se concentrar no estado de exceção, da vigência do AI-5 (1968-1978).

CC - Poderão ocorrer punições?

AN - A comissão chegará à definição da autoria. Quem fez? Não poderá prender quem matou Rubens Paiva, mas poderá e deverá identificar quem o matou, em que circunstância, onde está seu corpo. Se o poder judiciário poderá ser acionado apesar da anistia? No meu entender, sim. O sistema internacional de defesa dos direitos humanos, especialmente a corte interamericana, numa decisão recente considerou imprescritíveis determinados crimes. Essa questão poderá ser levantada perante o judiciário.

CC - E do lado de quem atuou na luta armada, poderá haver punições?

AN - Tudo aquilo que ocorreu por parte das pessoas que participaram da luta armada já foi apurado, inclusive com uso de tortura. Houve casos atrozes, sim. Bomba contra o quartel do Segundo Exército que matou o pobre do recruta que estava ali policiando, o membro da PM que foi morto no vale do Ribeira após ter sido feito prisioneiro pela guerrilha da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Isso é uma barbaridade, a própria lei da guerra condena a execução de prisioneiros. São fatos trágicos que desmerecem o movimento, mas que não podem ser comparados com os crimes da ditadura, resultantes de uma política de Estado, uma ordem para exterminar os adversários. Foram martirizados pela ditadura não apenas quem recorreu às armas, mas os que pregavam a via pacífica também.

CC - Se fosse hoje, o sr. teria invadido a reitoria da USP como fizeram os estudantes?

AN - Não, de jeito nenhum.

CC - O sr. não acha que a PM exagerou na desocupação? Lembrou a ditadura militar, colocando arma na cara de estudante...

AN - Ninguém colocou arma. Um grupelho de estudantes radicais e sem representatividade resolveu ocupar a reitoria, depredar, levar coquetel molotov. Foram tirados de lá por uma decisão judicial. Não tem nada a ver com a ditadura, é respeito à lei. Esses estudantes acharam que a USP é um território livre onde podem fazer o que quiserem, e não é.

CC - Na sua época, já tinha gente que fumava maconha no campus?

AN - É possível, é possível... Não, fumava, claro que fumava. Não no campus, pelo menos que eu tivesse conhecimento. Mas em festas, nos apartamentos dos estudantes. Agora, quem sai para fazer o patrulhamento é uma unidade da PM comandada por um jovem tenente que vai cumprir a lei. Não dá para chegar para ele e dizer "se alguém na USP fumar maconha você deixa e na Paulista você prende". Enquanto for contra a lei, não pode, seja na USP ou na praça Vilaboim.

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