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Trollagem do bem

por Cynara Menezes — publicado 15/04/2011 09h24, última modificação 15/04/2011 10h50
Contra o preconceito, a liberdade de expressão das redes sociais. Geralmente, personalidades estrilam quando algo que publicam incomoda muita gente e recebe de volta tuitadas críticas. Por Cynara Menezes

A entrevista do deputado federal Jair Bolsonaro ao programa CQC, da rede Bandeirantes, em que ataca a cantora Preta Gil com insultos racistas, colocou a internet em polvorosa. Bolsonaro, assumidamente homofóbico, diz agora, na defesa da representação movida contra ele, ter confundido a palavra "negro" com "gay" na pergunta feita por Preta: "Se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?" Um subterfúgio do parlamentar, que não tem a menor vergonha de discriminar o próximo – desde que não seja crime e não corra o risco de ser preso.

A discussão sobre o preconceito magnetiza as redes sociais. Na campanha eleitoral, os ataques aos nordestinos teve um eficiente contra-ataque no twitter e foi parar nos jornais. Em seguida, a agressão a rapazes gays na avenida Paulista detonou na rede a campanha contra a homofobia. Com Bolsonaro, vieram o racismo e o preconceito contra os gays ao mesmo tempo, catalisando as opiniões e transformando o twitter numa passeata online de ativismo e "trollagem" – mensagens discordantes, irônicas, gozadoras e até agressivas, que o cidadão comum envia a figuras públicas que utilizam o microblog.

Se você está no twitter, é para se trollar. Não tem jeito. Geralmente, personalidades estrilam quando algo que publicam incomoda muita gente e recebe de volta tuitadas críticas. Um caso conhecido foi o da cantora Gal Costa, que sofreu trollagem quando, ao reclamar do técnico de ar-condicionado, atribuiu o caso à célebre "preguiça baiana". Acabou deixando o twitter. Jornalistas, políticos, apresentadores de TV, todo mundo já foi alvo dos trolls. Faz parte do jogo.

É verdade que há trolls e trolls. Gal, por exemplo, queixou-se de grosserias. Certamente ocorreu pior com Bolsonaro e seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro e o deputado estadual Flávio Bolsonaro (sim, ele já tem herdeiros na política). Mas se não existissem as redes sociais, que tribuna teriam as pessoas para manifestar seu desacordo e indignação com opiniões de gente pública que consideram insultantes? O deputado tem o seu palco em Brasília, em pleno Congresso Nacional, e nos jornais mais importantes. É um ignorante privilegiado em direitos, regalias e, mais importante, no uso da palavra.

Na velha mídia, houve quem saísse em defesa de Bolsonaro, de sua "liberdade de expressão". Ora, trollar também é exercitar a liberdade de expressão, no sentido do debate, do contraditório. Sem a internet e sem os poucos espaços em papel que se dedicaram a apontar no deputado federal um desvio ético, a última palavra seria dele. Continuaria a ofender orientações sexuais que não a sua, a fazer a defesa exaltada das ditaduras militares e a bradar contra os direitos humanos e as cotas raciais. Antes da internet, exceto seus eleitores, ninguém podia dar resposta alguma a um político reacionário.

Agora todo mundo pode. Ainda que não esteja no twitter ou no Facebook, a pessoa pública pode se tornar notícia a partir das redes sociais, para o bem ou para o mal. Pode ser elogiado e celebrado, mas também pode ser criticado e espinafrado. Não se pode apear um político do cargo por ser intolerante, pelo menos por enquanto. Não se pode levar à cadeia um corrupto –nem um homofóbico, antes de a lei ser aprovada. Mas pode-se mobilizar pessoas, recolher assinaturas, pressionar por iniciativas no Congresso e nos governos. E, sobretudo, é permitido trollar.

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