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Política

Análise/Rui Daher

Três patetas na Petrobras

por Rui Daher publicado 09/01/2015 11h30, última modificação 17/06/2015 17h33
Na Petrobras, nunca obtivemos aprovação a preços justos para os nossos estudos, a ponto de os cortes não cobrirem os custos. Conosco, era na base da pechincha
Agência Petrobras
Petrobras

Estaleiro no Rio Grande e plataforma petrolífera P-55 construída para a Bacia de Campos

Começo pelo final, em 2008.

Moça bonita, vestida em discreto conjunto rosa, ao sair da sede da maior empresa nacional, criada pelo Estado em 1953, após anos de luta contra o acordo secular de elites para desenvolver a indústria petrolífera no Brasil, tropeça e rola pelos degraus da entrada do imponente prédio no Triângulo das Bermudas carioca.

Acudiram-na bombeiros, porteiros, gentis passantes, prontos a levá-la ao ambulatório para primeiros socorros. Eu e outro sócio olhávamos a cena estupefatos. Bolsa, óculos e documentos se espalharam quase até a Avenida República do Chile. Recolhidos, ela bradava: “Não preciso de nada! Obrigada! Quero um táxi!”

Foi feita a sua vontade. Nenhum dano físico, apenas o olhar furioso com que as mulheres culpam inocentes.

Naquele dia, havíamos feito a apresentação final, para dezenas de técnicos da Petrobras, de um estudo de viabilidade econômica e de localização, com horizonte de 25 anos, para instalar uma nova planta de fertilizantes nitrogenados.

Em 2004, fomos indicados para o trabalho por uma associação de empresas do setor. Mais de 30 anos de experiência contaram a nosso favor.

Seguiram-se reuniões, em São Paulo e Rio de Janeiro. Sumários e propostas apresentados, e um vai-e-vem de tópicos, premissas, condições e pechinchas.

Até então, tínhamos realizado poucos trabalhos de consultoria. Como fazer proposta para estudo com tais dimensões, responsabilidade, e para a maior empresa do Brasil?

“Fertilizantes: Mercado e Logística – Volumes I e II”, foi entregue em julho de 2004. Entre texto, tabelas e gráficos, em mais de 800 páginas, projetava economia, agricultura e setor, a partir dos movimentos de oferta e demanda nos planos nacional e internacional.

Baseado em matriz de fretes origem-destino, com cerca de 50 polos e todos os modais de transportes disponíveis no País e seus custos, determinava as melhores localizações para implantação da fábrica.

O Conselho adiou o investimento, e outros estudos, com atualizações e introdução de novos itens para avaliação mais acurada, foram-nos encomendados.

“Estudo de Fertilizantes Nitrogenados – Fase II”, com cerca de 450 páginas, foi entregue em maio daquele ano. O investimento novamente adiado, culpou Evo Morales e a crise brava na agricultura (2005/2006, haviam esquecido?).

Nesse último, o prazo estipulado foi tão curto, que nos fez trabalhar 15 horas diárias, sete dias da semana. Cumprimos o prazo, e poucos dias depois fui internado no Instituto do Coração para construção das três pontes que, hoje, me permitem ler os comentários sobre a coluna nesta CartaCapital.

Um terceiro estudo foi pedido. Adições: tendências da matriz energética do país com a “febre” dos biocombustíveis; novos planos para a infraestrutura de transportes; restrições ambientais do nitrogênio.

Tudo, sempre, muito pechinchado.

Meticulosamente analisadas, 400 páginas foram entregues em dezembro de 2006. Decisão de investir? Adiada.

Mais um: informada pela área de Fertilizantes, o Planejamento Estratégico da Petrobras contratou-nos o estudo: “O Futuro dos Fertilizantes no Brasil e o Papel da Petrobras”.

Foi entregue com 220 páginas, no início de 2007, e ficou tão bom que pensei transformá-lo em livro.

Finalmente, em 2008, mais uma atualização. Aquela que resultou na queda de nossa querida sócia.

Tudo refeito, mais opções de polos de origem, mostrou o mesmo resultado dos estudos anteriores: caíam de podres tanto a necessidade de uma nova planta de amônia e ureia como a melhor localização ser em Três Lagoas (MS).

Em 2009, soubemos que a Petrobras decidiu tocar o investimento. A terraplanagem, no local por nós indicado, foi iniciada em 2011.

A planta, com capacidade para 761 mil toneladas de amônia e 1,2 milhão de toneladas de ureia, que duplicaria a produção nacional, previa investimento de US$ 2,5 bilhões e início de operação em setembro de 2014.

No final do ano passado, o jornal O Estado de São Paulo noticiou a paralisação das obras e demissão de 3,5 mil operários.

O consórcio escolhido, formado pelas Galvão Engenharia, Sinopec Petroleum do Brasil (capital chinês) e GDK, declarou-se insolvente.

Discute-se, no momento, o reinício das obras. Em 2014, o Brasil importou 85% de sua necessidade de ureia.

Leio em folhas e telas cotidianas sobre a atual situação da Petrobras, e lembro que nunca obtivemos aprovação a preços justos propostos para os nossos estudos. Éramos espremidos, e chegávamos a diminuir em 40% nosso orçamento, a ponto de algumas vezes não cobrir nossos custos.

Deslocamentos, contratações de profissionais para atender adições não programadas, tudo por nossa conta. Contratos meticulosamente analisados, assim como o cadastro e a situação tributária da empresa, e pagamentos somente após cada etapa cumprida e “medida” (termo deles).

Nunca nos queixamos. Era um orgulho fazer trabalho daquela dimensão para a Petrobras.

Detalhe: até a entrega do último estudo, a área de fertilizantes da Petrobras esteve subordinada à Diretoria de Abastecimento, cujo diretor era Paulo Roberto Costa.

“Três Patetas na Petrobras”? Existe prêmio para delação às avessas? E para autoflagelo?

Kátia Ananias

Poder-se-ia esperar que hoje eu comentasse sobre entrevistas e discursos de posse dos dois novos ministros. O Doutor Dito deles e o que virá foi aqui antecipado em três colunas. Está tudo lá. Agora, resta dar tempo e criticar do alto e com a lupa.

A jornalista Mariana S. Ribeiro, da BBC Brasil, escreveu de forma didática sobre o tema.