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Política

Carajás e Tapajós

Tom emotivo marca campanha pró e contra a divisão do Pará

por Matheus Pichonelli publicado 10/12/2011 11h18, última modificação 10/12/2011 11h53
Temas como família, integração, identidade e solidariedade ganharam a cena em debate que teve acusação de xenofobia e escalação de Ganso e Fafá de Belém
familia

Slogan da campanha contra a divisão do Pará

Juntos, pai, filho, mãe e filha dão as mãos. “Essa família não se divide”, diz o slogan, logo abaixo do desenho. Cada membro da família tem uma letra estampada na camiseta, que, unidas, formam a palavra “Pará”. Ao fundo,uma música agitada, feita para dançar, dá o tom do debate. “Só de pensar em separar o meu Pará, nem pensar, isso lá é bom? Quem ama fica junto, quem ama não separa”.

Do outro lado, cenas de pessoas carentes aparecem na tela. A música ao fundo, em som de rock, funciona como um apelo. “Belém, não feche os olhos pra esse povo, não. Se é bom pra todo mundo não me diga não. Se é bom pra todo mundo se lembre de mim, e me diga sim”.

Em tom emocional, as campanhas das frentes pró e contra a criação de dois novos estados dentro do território do atual Pará tentaram convencer os eleitores do que consideram melhor para a região.

Temas como família, integração, identidade, solidariedade ganharam a cena num debate povoado por argumentos técnicos dos dois lados. O “alvo” eram os moradores de Belém, a capital do estado e um dos mais populosos municípios do País. Nas mãos deste eleitorado está a criação dos estados do Tapajós e Carajás.

 

De acordo com a última pesquisa Datafolha antes do plebiscito, que acontece no domingo 11, 65% da população se diz contra o desmembramento do Pará para a criação do estado de Carajás, e 64%, contrários à divisão para a criação de Tapajós.

Apesar da maioria, o discurso segue acirrado e provocou um verdadeiro racha no estado – sobretudo nas regiões a serem desmembradas. Semanas de campanha intensa levaram à televisão nomes como Fafá de Belém e Paulo Henrique Ganso, nascidos no estado. Eles foram algumas das principais vozes do movimento que rejeita a divisão do Pará – uma frente que tinha, do outro lado do campo, o publicitário Duda Mendonça.

Quando assumiu a missão, Duda avisou que a campanha não seria política, mas uma “campanha de povo”. Os exemplos eram os estados do Nordeste, nove ao todo, que conseguiram prosperar economicamente em pequenas regiões administrativa. O argumento era que as experiências em Goiás, que deu origem ao Tocantins, e Mato Grosso, dividido com Mato Grosso do Sul, tinha sido benéficas para a população.

“Não tem por que aqui ser diferente”, defendeu ele. “A fronteira é simbólica.”

O publicitário teve como missão convencer a população de Belém de que não haveria divisão, mas soma. A ideia era mostrar que todos ganhariam com a divisão. “Belém ganha tanto quanto Carajás, tanto quando Tapajós. Do outro lado, é campanha vazia, não tem argumento. Só fala quanto custa (a criação dos novos estados”, afirmou à época.

Os argumentos em favor dos novos estados tinham como base a ideia de que o Pará é um estado ainda pobre, com 1,5 milhão de pessoas na miséria, onde metade das casas não tem acesso a água ou esgoto e onde o poder público não consegue atender as regiões afastadas. O estado é o segundo maior território do País. Perde apenas para o Amazonas, que possui população menor. “A cada ano, a situação econômica do PA se agrava mais, comprometendo todo o seu crescimento e nada muda. O governo não tem condição de fazer nada, e mudar nada. Se não for feita alguma coisa, a situação só vai piorar”, dizia uma voz em off na propaganda da tevê.

A favor da divisão foi escalado o economista e consultor político Célio Costa, que estudou o processo de divisão de Goiás e Tocantins. “O Pará está no vermelho, gasta mais do que arrecada, não faz os investimentos que precisa fazer, e não arrecada o suficiente”, argumentou.

Entre os argumentos da frente Pró-Carajás, por exemplo, estava o fato de o governo paraense não ter dinheiro para dar aumento de 66 reais para os professores da rede pública e que no estado um policial militar ganha apenas 1.345 reais, menos que a metade do que se paga no Tocantins – exemplo,segundo a campanha, de virtude após a emancipação.

Nas contas da campanha, o Pará recebe hoje 2,9 bilhões do Fundo de Participação dos Estados, administrado pela União. Com os dois novos estados, a região passaria a ter direito a 5,9 bilhões por ano.

“Quando se divide a população, dividem-se os problemas, a receita aumenta”, argumentam as frentes pró-divisão.

O contra-ataque veio no tom emocional usado pela ideia de família incutida na frente contra a divisão. “Quando eu canto o hino nacional é o Pará que canta. Quando canto para o papa, é o Pará que canta”, disse, lágrima nos olhos, a cantora Fafá de Belém na propaganda da tevê.

Na reta final, os patrocinadores da divisão foram chamados nos debates de “forasteiros” que tentavam se apropriar de uma região onde não nasceram. Foi o suficiente para que os anti-divisão fossem chamados de xenófobos.

Outro argumento contra a divisão, conforme mostrou reportagem de CartaCapital, é que os novos estados, além de criarem despesas extras de custeio (com duas novas Assembleias Legislativas e tribunais, por exemplo) atenderia somente o interesse de políticos locais sem expressão no estado, que passariam a controlar os votos daquela localidade. Alguns são, inclusive, réus do .

Ana Júlia Carepa, ex-governadora do Pará e colunista do site de CartaCapital, a campanha exagerou ao despertar sentimento de xenofobia entre a população.

“Pra mim eles não são forasteiros. Fizeram opção de vida de morar no Pará, de ter filhos no Pará, de ter e gerar riqueza no estado”, diz ela.

Contrária à divisão, assim como o atual governador, Simão Jatene (PSDB), Ana Júlia acredita que a campanha pró e contra a divisão do estado desvia a discussão sobre as reais necessidades do Pará, que é o modelo de desenvolvimento. “O Tapajós pode até ter mais recursos do FPE, mas não vai adiantar nada se a bauxita continuar saindo de forma bruta para virar alumínio no Maranhão, sem gerar emprego para o Pará”, argumenta.

“Entendo que, nesse momento, o melhor é trabalhar, juntar esforços, pra alterar essa realidade de sermos só exportadores de matéria prima”.

Segundo ela, o estado poderia “gastar” energia discutindo, por exemplo, de que maneira a energia de Belo Monte pode potencializar a produtividade local, já que o Pará todo terá direito a 10% da eletricidade gerada na hidrelétrica. Outro debate, segundo ela, é pela integração do estado por meio de hidrovia para escoar a produção.

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