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Política

Eleições 2010

Tiririca, uma disfunção

por Sergio Lirio publicado 13/09/2010 17h54, última modificação 13/09/2010 18h01
Aos que acham que o “palhaço” deveria ser proibido de disputar a eleição

Aos que acham que o “palhaço” deveria ser proibido de disputar a eleição

As mulheres só puderam votar no Brasil a partir de 1932. Os negros, de 1934. Os analfabetos, após a Constituição de 1988, que consagrou um princípio básico de qualquer democracia: o direito de votar e ser votado. Lembro dessas datas por causa das reações à candidatura de Tiririca a deputado federal. Segundo pesquisas do Ibope citadas por José Roberto de Toledo em seu blog no Estadão.com, o “palhaço” pode se tornar o deputado federal mais votado por São Paulo em 3 de outubro. Showman acostumado aos holofotes, ele se sai melhor do que a maioria dos zumbis que aparecem no horário eleitoral gratuito. Talvez isso explique seu sucesso.

É possível discutir o “voto Tiririca” sobre vários aspectos. Há quem lembre, não sem razão: por conta do sistema proporcional, uma votação maciça no humorista representará eleger outros tantos de seu partido. Candidatos que a maioria dos eleitores ignora e que chegará à Câmara dos Deputados sem compromisso com nenhum grupo representativo da sociedade. Livres, sem bases sociais que o cobrem, ficam livres para transformar o mandato em um balção de negócios em proveito próprio. Em 2006, ao receber quase 500 mil votos, Clodovil elegeu outro representante do PTC e tirou do Congresso concorrentes mais qualificados de outros partidos.

Mas a constatação desse fenômeno não pode estimular a tese, comum principalmente entre um classe média “instruída”, de que se deveria proibir a candidatura dos “tiriricas da vida”. O “palhaço” é só uma disfunção do sistema eleitoral. Acontece em todas as eleições no Brasil e, em geral, em todas os países com eleições livres.

O que faz uma democracia viva e madura é justamente a liberdade irrestrita de escolha do eleitor. Ela se aperfeiçoa por erros e acertos e pelo costume de ir às urnas. O excessivo foco no caso Tiririca leva os indignados a minimizar um fato: com suas distorções e lacunas, os 21 anos de eleições consecutivas no Brasil consolidaram um quadro eleitoral razoavelmente racional. Ainda que a próxima disputa represente uma reordenação das forças políticas, estão cada vez mais nítidos os pólos ideológicos de disputa poder. Uma porção gravita no entorno do PT. A outra vai se aglutinar sobre os escombros da oposição PSDB-DEM. Com possibilidades sempre abertas a uma terceira via capaz de ser competitiva. Não é assim na Europa e nos Estados Unidos, em menor grau? Desde a eleição de Fernando Collor em 1989, caiu expressivamente o número de aventureiros.

Quem defende o veto à candidatura Tiririca esquece-se de outros dois fatores. O primeiro: candidatos arrumadinhos, de terno e gravata e capazes de conjugar os verbos com correção não são garantia de eficiência ou de superioridade ética. Imagine um Congresso dominado por tecnocratas. O segundo: os que se ofendem com as aparições do humorista não teve não costuma expressar a mesma repulsa às candidaturas de Paulo Maluf, José Sarney, Orestes Quércia, Jáder Barbalho. Dá para dizer que Tiririca é pior para o Brasil?

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