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Política

Entrevista

Tarso Genro: “a pauta da nação brasileira é feita pela Globo”

por Piero Locatelli — publicado 27/08/2014 09h15, última modificação 27/08/2014 18h01
Para governador, a RBS quer “ocupar o estado diretamente, e não mais por terceiros” com candidaturas de Ana Amélia e Lasier Martins
Claudio Fachel/Palácio Piratini
Tarso Genro

"O PT hoje não tem unidades sobre questões fundamentais"

De Porto Alegre

O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), chega ao fim do seu mandato de governador em uma disputa apertada pela reeleição. Empatado tecnicamente com a senadora Ana Amélia (PP-RS), ele diz que espera melhorar nas pesquisas com o início do horário eleitoral.

Em entrevista a CartaCapital, Genro fez críticas ao grupo RBS, emissora gaúcha afiliada da Rede Globo. “Há uma marcada sensação política de que eles querem ocupar o estado diretamente, e não mais por terceiros”, diz o governador, referindo-se a Ana Amélia e Lasier Martins, que é líder na disputa ao Senado. Ambos são ex-jornalistas da emissora. Tarso ainda cobrou uma postura unitária do PT em temas como a reforma política, a taxação de grandes fortunas e a votação de um marco regulatório da mídia.

A entrevista faz parte de uma série com os candidatos do estado. Na terça-feira 26, foi publicada a entrevista com Ana Amélia. Ainda serão publicadas as entrevistas com os dois candidatos mais bem colocados na disputa ao Senado Federal, Olívio Dutra (quinta 27) e Lasier Martins (sexta 28).

Leia, a seguir, trechos da conversa com o candidato:

CartaCapital: Como o senhor avalia os quatro anos em que esteve à frente do Palácio Piratini? E o que pretende fazer caso seja reeleito?

Tarso Genro: Para responder a isso, tenho de dizer o seguinte: o debate aqui no estado é sobre dois modelos de gestão e desenvolvimento completamente diferentes. Minha adversária (Ana Amélia Lemos) defende o enxugamento da máquina pública, redução de gastos públicos e uma visão de organização financeira do Estado muito próxima do Estado mínimo, de um desenvolvimento econômico espontâneo originário nas relações do mercado.

Nós defendemos algo diferente, que o Estado abata parte da dívida e utilize esse novo espaço fiscal para obter novos aportes para investir em infraestrutura, além de guardar os recursos próprios para cuidar da questão salarial e investir em áreas fundamentais como saúde e segurança.

No nosso próximo período, queremos aumentar os gastos em infraestrutura e colocar mais ênfase nos programas sociais. E alavancar a base produtiva local, na agricultura familiar e em pequenas e médias empresas.

O estado estava na UTI, e agora ele está em recuperação. Agora pretendemos aprofundar todos os projetos que estão em andamento.


CC: O Rio Grande do Sul tem, relativamente, a maior dívida do País, que supera 50 bilhões de reais. O governo federal finalmente propôs votar a renegociação da dívida dos estados com a União em novembro deste ano. Esta já era uma questão da eleição passada, um pleito do senhor quando foi eleito. Por que a renegociação demorou tanto?

TG: Eu liderei com outros governadores essa movimentação, e nós tivemos a proposta desse projeto que a presidenta Dilma enviou ao Congresso Nacional. Articulamos a aprovação na Câmara e depois nas comissões do Senado.

Quando o projeto chegou ao plenário do Senado, os efeitos da crise econômica já haviam chegado aqui. E aí a equipe econômica do governo achou que a votação desse projeto poderia rebaixar a nota do Brasil nas agências de risco, e não queriam votá-lo.

Nós organizamos uma pressão para que viesse do governo uma proposta para votar o projeto integralmente em novembro. Aceitei esse acordo, porque eu acredito na palavra da presidenta Dilma.

As consequências desse projeto são extraordinárias. Para você ter uma ideia desse efeito, ele abate 16 bilhões da nossa dívida, nos autoriza a ter um espaço fiscal de 6 bilhões ou 7 bilhões para fazer financiamentos e investimentos em infraestrutura. É uma coisa que há mais de 20 anos tentávamos realizar e não conseguíamos.


CC: O senhor aparece empatado tecnicamente com a candidata Ana Amélia, numericamente atrás dela, na pesquisa Ibope. Na pesquisa do Instituto Methodus, aparece atrás dela. A que o senhor atribui esse resultado nas pesquisas?

TG: Pelo que sabemos, o Instituto Methodus é ligado ao PP aqui no RS. E a metodologia que eles usam é muito prejudicial, semelhante à da Datafolha.

Há pesos diferentes para regiões do estado, que têm maior ou menor volume de voto. E o Ibope considera que a região metropolitana no estado tem 42% dos votos, e isso reporta tradicionalmente todas as pesquisas que deram certo no estado. Os outros institutos, não. Por isso eu acho que temos empate técnico.

Nós tratamos com muita prudência todas essas pesquisas, mas o que nos posiciona positivamente são duas coisas: primeiro, o alto grau de aprovação do governo que nós vamos ter uma grande possibilidade de vitória. E o fato de nós termos um terço da população dizendo que nosso governo é bom e ótimo.

De outra parte, nós sempre fomos muito prejudicados pelo sistema de mídia daqui, que tem um predomínio de centro-direita. Ela cobre exclusivamente os problemas, ela não cobre as soluções. Procuramos reverter isso com o horário eleitoral.

 

CC: O senhor acha que esse tratamento da imprensa acontece independentemente de quem está no governo?

TG: Independente de quem for o governo, mas é muito agravado no nosso, que eles não têm nenhuma simpatia por razões explicáveis.

Isso nos deu uma desvantagem muito grande, porque para mostrarmos o que estávamos fazendo, tínhamos de pagar. E aqui nós não fazemos campanhas tão grandes como se faz em outros estados, porque não é uma tradição (do Rio Grande do Sul).


CC: Além de Ana Amélia, o candidato Lasier Martins, que lidera a disputa ao Senado, também era apresentador da Rede Globo. Qual a particularidade que faz o Rio Grande ter eles dois como líderes nas pesquisas? O senhor vê alguma diferença para outros estados?

TG: O que é diferente é o governo, que os leva a exacerbar determinadas posições. A nossa democracia está em implementação. Os partidos são pouco valorizados e o sistema político é deformado por relações regionais e oligárquicas. Não há um sistema político que dê coesão aos partidos por identidade ideológica e programática. A pauta da nação brasileira é feita pela Globo. E os partidos políticos não desafiam isso, nem o meu consegue.

 

CC: O PT desistiu do marco regulatório da mídia mais uma vez e o retirou do programa de governo de Dilma à reeleição.

TG: Esse é um exemplo. Não existe uma força partidária interna que compreende esse fenômeno novo: o de que os grandes partidos políticos do conservadorismo hoje não são os partidos tradicionais, são os grupos de mídia.

Ali se condensa um grupo de relações políticas, de pautas, de interesses econômicos, de visão da globalização e de distribuição dos interesses do capital financeiro que fazem a pauta da nação.

Isso se reflete aqui no estado. O grupo midiático mesmo diz "nós defendemos um projeto para o Estado". E o programa deles para o estado está muito mais caracterizado pelo que foi o governo Britto (1995-1998) e o governo Yeda Crusius (2007-2010), que foi um governo falido pelas suas contradições internas, e não pela sua relação com a mídia.

Isso nunca gerou um antagonismo pessoal. Mas há uma marcada sensação política no estado de que agora, com esses dois candidatos, eles querem ocupar o estado diretamente, e não mais por terceiros.


CC: Nos últimos dez anos, o PT não fez as reformas necessárias para mexer nos interesses que o senhor critica. Além do marco regulatório, há diversos exemplos como o projeto que o senhor enviou, no Ministério da Justiça, de reforma política. Após quase 12 anos do partido na Presidência, ainda é possível esperar que o PT faça essas reformas?

TG: O PT não pode ser visto em abstrato fora da crise programática da esquerda mundial. Eu acompanhei tudo isso, tenho 67 anos. Aconteceu uma destruição dos valores mais fortes originários da Revolução Bolchevique, que é um marco extraordinário, e uma desagregação do projeto social democrata. Essa dupla desagregação democrática e social da via socialista impactou todos os partidos de esquerda. E não deixou de impactar o PT.

O PT hoje não tem unidade sobre questões fundamentais, nem sequer relacionadas com a questão social-democrata. Mas eu chamo atenção de que o PT, apesar dessa crise, foi o partido que melhor se saiu. Na Presidência, desenvolveu políticas neossocial-democratas, políticas que mudaram o País nesses dez anos.

Essa mudança importante modificou a estrutura de classes, aquilo que se chama erroneamente de nova classe média e que exige um partido de novo tipo. O PT está tentando acompanhar isso, mas não consegue de maneira integral fazê-lo.

Você pode ver que há pessoas muito distintas no PT. Você tem o Paulo Teixeira e você tem o Cândido Vaccarezza (deputados federais). São pessoas que têm posições distintas sobre a questão de economia no Brasil, rumos do desenvolvimento e formas de relacionamento com as grandes empresas. Isso determina que o PT seja um partido que ainda não superou essa crise de valores da social-democracia e do bolchevismo.

Vai superar ou não? Isso é indeterminado. Esses temas, que são uma coisa de princípio hoje, como a regulamentação das concessões da mídia e a questão do imposto sobre as grandes fortunas, são questões que o partido deveria enfrentar de maneira unitária. Mas não enfrenta em razão das suas limitações.

Então, eu te digo o seguinte: apesar de o PT ser o partido que melhor está transitando nessa crise, esse trânsito ainda não terminou.


CC: Uma das pessoas que não acreditam que o PT poderia fazer essas mudanças é a sua filha, Luciana Genro, hoje candidata à Presidência pelo PSOL. Ela chegou a falar que não votaria no senhor, já que está em outro projeto. Imagino que o senhor não vai votar nela...

TG: Claro que não (risos). Todo mundo sabe que nós temos uma relação de pai e filha, uma relação amorosa. Convivemos todas as semanas, e inclusive ironizamos um com outro a respeito das questões políticas.

A minha filha é uma pessoa muito coerente, eu tenho admiração por ela. Ela entende que o PSOL pode reconstruir um projeto nacional, um projeto de desenvolvimento socialista. Mas eu acho que isso é um profundo equívoco.

Esse não é um equívoco pessoal dela, mas do PSOL. Que todo mundo sabe que é originário de correntes trotkistas, e tem uma avaliação que é economicista e corporativista da luta de classes.

A dificuldade que partidos como o PSOL têm para crescer é entender os momentos de crise como criadores da base de massas para uma transformação social. Isso é um engano, as tensões passam e as massas refluem. Só tem condições de gerar um processo de mudanças, seja qual for, um partido que tem um programa e um convívio com a sua base de massas, que se integre na vida cotidiana e na produção. Esse partido não tem essa projeção.

Por isso, eles apostam em ser centelhas quando existem movimentos sociais. É uma experiência válida, mas isso não deu certo historicamente porque tem um equívoco de fundo. E é por isso que esse partido não cresce. Não é porque eles são radicais, como dizem alguns críticos da direita. Radical é pegar as coisas pela raiz, e acho que isso é precisamente o que eles não fazem. A história está mostrando o que eles estão enganados.


CC: Voltando à questão da imprensa, seu assessor Guilherme Gomes enviou uma mensagem ao diretor de jornalismo da Bandeirantes, depois publicada pela emissora. Pelo WhatsApp, ele dizia que a divulgação da pesquisa Methodus acarretaria “uma nova relação” entre o governo estadual e a emissora. O senhor autorizou aquela atitude?

TG: A mensagem do Guilherme é fruto de uma relação pessoal dele com os dirigentes da Band. Isso é uma coisa normal entre pessoas. O que foi surpreendente, para mim, foi ver que a Band fez uma matéria sobre isso. Você pode ver que ele também publicou uma mensagem da Band fazendo um diálogo a respeito de financiamento. (Nela, o diretor da Band o questionava sobre anúncios na rede).

Da minha lavra não saiu nenhuma orientação para o Guilherme fazer qualquer menção a respeito disso. E nem uma ameaça. Se fosse, seria uma contra-ameaça. Considero isso um incidente menor e não vai mudar minha relação com a Band.


CC: O que o senhor falou com o assessor?

TG: Quando olhei aquela pesquisa, eu falei: essa é uma pesquisa completamente manipulada. Ela está fora da margem de erro de todas as pesquisas. Diz lá para a Band que nós não acreditamos nessa pesquisa. O resto foram incidentes entre duas pessoas que tinham uma relação de confiabilidade e eu espero que possam recuperar.

 

CC: Beto Albuquerque (PSB), antigo aliado do PT no estado, desistiu da  candidatura ao Senado para ser vice de Marina Silva (PSB). Qual a avaliação que o senhor faz dessa chapa na disputa à Presidência?

TG: Eu me recusei a falar sobre isso por causa da postura necrófila que alguns jornais vinham fazendo a respeito da morte do Eduardo Campos, uma pessoa que eu presava e tinha relações de companheirismo político. Agora, esse assunto já foi transformado em questão política.

Primeiro, Marina é uma pessoa que eu admiro e respeito. Mas, do ponto de vista eleitoral, eu não vejo possibilidade de ela crescer a ponto de ameaçar a candidatura da presidenta Dilma.

Eu acho que ela pode ameaçar o Aécio, porque o Aécio é um candidato da espontaneidade. E reproduz aquela visão que é muito rejeitada pelo povo brasileiro, elitista e neoliberal.

Marina aparece já nesse choque emocional como a novidade, e essa novidade sempre tem um impacto positivo. Mas eu acho que isso aí vai para os caminhos normais. Por exemplo, Marina tem uma resistência muito grande em diversos setores do nosso empresariado desenvolvimentista.


CC: Mas Beto Albuquerque, que é ligado ao agronegócio, não ajudaria a minar essa resistência?

TG: Acho que não. Porque Beto é vice, e os grupos sociais, as classes sociais se reportam ao presidente.


CC: José Alencar não fez isso para Lula em 2002?

TG: Alencar foi uma confiabilidade para os empresários em abstrato. Mas tanto Lula quanto ele eram desenvolvimentistas. Marina e Beto têm visões diferentes, até contraditórias.

E a comoção causada pela morte de Eduardo sempre gera unanimidade em torno da pessoa. É natural que gere, porque a morte é um acontecimento tão absoluto, tão dramático, que repara todas as divergências. Então agora parece que ele era unanimidade, mas ele não era. Por isso, o impacto causado na morte dele também vai ser dissolvido ao longo do processo político.

Em segundo lugar, a entrada de Beto para a chapa da Marina resolve um problema do Beto, e não de estado. Ele estava em terceiro lugar, numa situação desconfortável e certamente não se elegeria.

Agora, como quadro político, ele valoriza a chapa da Marina? Me parece que sim. Mas do ponto de vista eleitoral, me parece que não.