Política

Rio Grande do Sul

Tarso assume com os ventos a favor

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 20/12/2010 14h38, última modificação 20/12/2010 15h11
Na montagem de seu governo, Tarso parece haver se inspirado em Afonso Pena, que governou o país de 1906 a 1909. Ao montar seu governo, o sexto presidente do Brasil escolheu para ministros quadros políticos jovens. Por Paulo Cezar da Rosa

A sorte parece estar conspirando para Tarso Genro (PT), governador que assume a condução do Rio Grande do Sul dia 01 de janeiro. No sábado 18, o jornal Correio do Povo destacou: “Tarso receberá governo com R$ 3,6 bi em caixa”.  A governadora Yeda Crusius fez questão de dizer que esse é o maior volume de recursos deixados para o governo seguinte, desde a criação de um “caixa único” no Estado. No domingo, a boa notícia foi para o índice de desemprego na região metropolitana de Porto Alegre. O Zero Hora deu a manchete: “Pleno emprego muda relações de trabalho”. A taxa de desemprego de 6,1% apurada em outubro é a mais baixa desde 1992 e a menor entre as seis principais regiões metropolitanas.

As duas notícias tem um fator em comum. A economia gaúcha (antes tarde do que nunca) começa a dar sinais de revigoramento. Isso, depois de passar longos anos em declínio, amargando taxas muito menores que a média nacional.

Um dos motivos para essa recuperação é o conjunto de investimentos do governo federal no Rio Grande do Sul. Tarso possivelmente será o maior beneficiário destes investimentos. Outro, é que os empresários gaúchos, depois de resistirem muito ao lulismo, passaram a perseguir as lógicas desenvolvidas nacionalmente.

Um governo tranquilo

O novo governador gaúcho Tarso Genro (PT) escalou uma equipe para ter um mandato tranquilo. Tarso não chamou nomes de peso de seu próprio partido, como o deputado federal Henrique Fontana e os deputados estaduais Raul Pont e Adão Villaverde para compor seu primeiro escalão. Tarso colocou em postos chaves militantes mais jovens, não alinhados com as antigas lógicas que marcaram a política gaúcha nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, privilegiou aliados e, como havia prometido na campanha, contemplou o PDT e o PTB.

O PDT, inclusive, disputou diretamente com Tarso, compondo a chapa de José Fogaça com o candidato a vice-governador. Isso não impediu, entretanto, que o governador eleito lhes desse a pasta da Saúde, uma das mais importantes e de grande visibilidade. Já o PTB recebeu a pasta do Trabalho, que todos esperavam ficar com alguém vinculado à CUT.

Política, faço eu!

Tarso Genro, na montagem de seu governo, parece haver se inspirado em Afonso Pena, que governou o país de 1906 a 1909. Ao montar seu governo,  o sexto presidente do Brasil escolheu para ministros quadros políticos jovens. O objetivo de Afonso Pena, então, era diminuir a influência das oligarquias regionais nos rumos de seu governo.

Mal comparando, Tarso vem fazendo o mesmo. Em cada secretaria, tem procurado escolher a alternativa que mais governabilidade lhe garante e menos lhe trará problemas. Gestor experiente, Tarso sabe que um governo é como um time. E, neste momento, o seu papel é parecido com o de um técnico. Quando o técnico escolhe mal a equipe, ou faz concessões demais aos cartolas, a derrota é certa.

Afonso Pena, em seu discurso de posse, para responder as críticas ao seu ministério, disse: Política, faço eu! Tarso, com certeza, não repetirá o adágio, mas a sinalização que deu ao seu partido e aos partidos aliados tem esse conteúdo.

A composição do governo

O próximo governador gaúcho tem inúmeras vantagens com relação a todos seus antecessores. Todos os que o antecederam governaram na contramão do governo federal. Ou foram eleitos em segundo turno, obrigados a realizar concessões muito antes de assumir o governo. Além disso, sofreram uma dura oposição desde o primeiro dia de seus mandatos.

As condições nas quais Tarso assume são muito diferentes. Eleito no primeiro turno, conta com uma base de apoio sólida no parlamento e margem para trabalhar. O Rio Grande do Sul, depois de duas décadas de crise em sua economia, está aos poucos recuperando protagonismo. O conjunto de investimentos do governo federal realizados nos últimos anos, aliados à base histórica do Estado, pode permitir um salto em sua economia.

Do ponto de vista político, a sociedade gaúcha se mostra cansada do enfrentamento sistemático, do clima de grenal no jogo político, onde todos saem perdendo.  Também isso é um dado novo que pode garantir a Tarso um ambiente muito diferente, por exemplo, do que teve Olívio Dutra no final dos anos 90 e começo do 2000. Olívio, desde o primeiro dia, sofreu uma oposição frontal da mídia e de amplos setores políticos e econômicos do Estado. Governou com minoria na Assembleia. Enfrentou inclusive uma CPI.

Hoje, as condições são muito distintas. Ao assumir o cargo dia 01 de janeiro, Tarso  vai dispor das melhores condições que um governante gaúcho já teve depois da Ditadura Militar. Se souber aproveitar, o Rio Grande do Sul pode dar um salto para o futuro.

Verdade que há sinais contraditórios frente a isso. Um deles é a diminuição do peso dos gaúchos no primeiro escalão do governo federal. O Rio Grande do Sul, no primeiro governo Lula, teve quatro ministros. Até este domingo, apenas a deputada Maria do Rosário havia sido chamada para compor o governo, na pasta dos Direitos Humanos. Há oito anos, os gaúchos tinham o Ministério das Cidades, com Olívio Dutra, o Ministério do Desenvolvimento Agrário, com Miguel Rossetto, o Conselhão, com Tarso Genro, e o Ministério das Minas e Energia, com Dilma Roussef.

Sei! Eu também trocaria de olhos fechados quatro ministros por uma presidente. Mas minha impressão é que não é bem isso que está acontecendo.

Vamos ver.

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