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Sobre Sementes e Esperança

por Paulo Roberto Pedrozo Rocha* — publicado 21/10/2014 17h28
Ser cristão é solidarizar-se com a causa dos excluídos – das minorias, dos homossexuais, dos sem-teto, sem-terra, sem-voz -, exatamente como fez e faria novamente Jesus
Ichiro Guerra

A história é conhecida por muitos. Cristãos de toda sorte, católicos romanos ou ortodoxos, protestantes e evangélicos. Não cristãos, literatura, humanidades. Falo da Parábola do Semeador, que de tão clássica até mereceu uma prédica, em feitio de elegia, do padre Vieira, precursor do nosso português brasileiro.

A parábola, contada nos três Evangelhos Sinóticos (que têm a mesma ótica), a saber, Mateus, Marcos e Lucas, narra a saga de um trabalhador rural, homem do campo, quiçá um sem-terra a semear em campos alheios, que numa manhã saiu a semear. Jogou sementes alhures, meio à esmo, guiadas apenas pela esperança de encontrar solo fértil.

Quase todas foram desperdiçadas. Jogadas sem critério – um verdadeiro crime para o agronegócio dos dias de hoje. Mas as coisas movidas pela esperança são assim, imprevisíveis, sonhadoras, perdidas aos olhos humanos. Afinal, perder-se é o desejo de quem sonha.

Sementes à beira do caminho, comidas pelas aves. Sementes em solo rochoso, onde a terra era pouca e a raiz não vingou. Espinhos, dificuldades do presente, também foram responsáveis por sufocar parte das sementes. Uma última parte, contudo, vingou. Caiu em terra boa, sinal de que mesmo em meio às adversidades, é preciso tentar.

Esta parábola nós brasileiros vimos virar realidade em experiências como o Programa Fome Zero, posteriormente transformado em Bolsa Família. Só quem viu a fome de perto e a destruição que ela é capaz de causar, pode dimensionar seus agravos.

Às vezes ouvimos pessoas criticando os programas de distribuição de renda. As alegações são mais ou menos as seguintes: há pessoas que não precisam e se servem dos programas; há aqueles que preferem não trabalhar e ter mais filhos só para receber o benefício. Seria ingenuidade se não beirasse a má fé. A pensar assim, o semeador sonhador da história de Jesus deixaria de jogar as sementes por conta das que não vingariam.

Se ao menos um fosse atendido já valeria a pena. Não consigo deixar de pensar nos milhares que espantam a fome diariamente pela solidariedade de nossos recursos distribuídos. Difícil imaginar que Jesus faria diferente.

Sensibilidade não é coisa planejada, é coisa do coração. O apelo dos evangelhos é o apelo do coração. Ainda que haja diferenças que precisem ser ajustadas, cristãos (dentre outros grupos religiosos ou não, mas sensíveis ao humano) precisam afirmar sua posição. Ter tudo em comum, como indicava o relato de Atos dos Apóstolos. Partilhar, socializar, optar enfim pela continuidade da solidariedade que virou programa de governo há 12 anos.

No universo cristão é perigoso “ficar em cima do muro”. É tornar-se morno, é correr o risco de ser “vomitado da boca do Senhor” como adverte o Apocalipse.

Ser cristão é não se conformar com a discriminação feita em relação aos nossos irmãos nordestinos, negros, mulheres, idosos e crianças. Não por acaso, contingente majoritário entre os beneficiários dos programas sociais. Ser cristão é militar na causa da justiça.

Ser cristão é solidarizar-se com a causa dos excluídos – das minorias, dos homossexuais, dos sem-teto, sem-terra, sem-voz -, exatamente como fez e faria novamente Jesus.

O momento urge. O ódio raivoso de uma direita ultrapassada quer a todo custo voltar. Por isso, neste momento o semeador deve novamente sair a semear a esperança, a solidariedade, o amor. É preciso claramente dizer. Votamos Dilma, 13.

Eis que o semeador saiu a semear.

 

* Paulo Roberto Pedrozo Rocha, 48, é doutor em Filosofia pela USP e professor universitário. É também pastor protestante (IPU-Igreja Presbiteriana Unida do Brasil)