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Política

Rosa dos Ventos

Só Dilma resgata Dilma

por Mauricio Dias publicado 12/10/2010 15h37, última modificação 22/10/2010 11h35
Por que o sucesso da candidata no segundo turno está ligado ao rompimento com os grilhões do marketing
Só Dilma resgata Dilma

Por que o sucesso da candidata no segundo turno está ligado ao rompimento com os grilhões do marketing. Por Mauricio Dias. Foto: Vanderlei Almeida/ AFP

Por que o sucesso da candidata no segundo turno está ligado
ao rompimento com os grilhões do marketing

Dilma terá uma tarefa difícil no segundo turno. Além da política, há dificuldades derivadas de questões individuais, da personalidade dela, que só ela pode resolver. Sentada durante mais de cinco anos à direita de Lula, na Casa Civil, a segunda cadeira de maior poder e visibilidade do governo, Dilma manteve o máximo possível a sobriedade, só rompida pela luz dos holofotes em ocasiões inevitáveis.

Por isso, é de se supor nos debates, quando ficou visivelmente amarrada pelo script e não mostrou naturalidade. Falava aos arranques, sem continuidade, como reflexo de quem tenta repetir um texto escrito. Paga o preço da inexperiência por encarar para valer, pela primeira vez, o “olho” cego, frio, de um monitor de tevê.
Dilma terá de buscar mais nitidez, sair da sombra do criador e demonstrar que tem as qualidades inerentes ao exercício da Presidência da República, como mostrou publicamente em pelo menos duas ocasiões. Nesses momentos, a personalidade dela rompeu as amarras do marketing.

Durante debate na RedeTV!, se viu diante de uma pergunta mais agressiva de Marina. O que Dilma faria, caso eleita, em casos como o de Erenice Guerra? Dilma descolou os olhos do papel e respondeu com firmeza, mais ou menos assim: “Quando você foi ministra do Meio Ambiente, enfrentou denúncias de corrupção no Ibama e afastou os suspeitos. É assim que se faz”. Já então, a “suspeita” tinha deixado a Casa Civil.

Uma segunda vez ocorreu no Senado. Ao negar a existência de dossiê sobre o governo de FHC foi provocada pelo líder do DEM, José Agripino, que, deselegantemente, botou a resposta dela sob suspeita ao lembrar uma entrevista na qual Dilma disse que mentia nos depoimentos quando esteve presa.

“Não há qualquer comparação entre a ditadura e a democracia. Fui barbaramente torturada (...) me orgulho de mentir na tortura (...) na ditadura, não há espaço para a verdade.” Aplausos. Existe emoção no mundo político. Há registros de que foi aplaudida mesmo por senadores da oposição.

Dilma foi empurrada para a arena pelo próprio presidente da República. Lula, por sua vez, construiu uma história encantada para explicar a opção que fez, como relata a biografia provisória de Dilma na Wikipédia:
“Já próximo de 2002, aparece por lá uma companheira com um computadorzinho na mão (...) tinha um diferencial dos demais porque vinha com a praticidade do exercício da Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Aí eu fiquei pensando: acho que já encontrei a minha ministra”.

Nesta campanha eleitoral, a candidata do PT foi tratada a ferro e fogo pela mídia, de clara preferência pelo tucano José Serra. “Torturada” psicologicamente a partir da firmeza e da disposição de comando profissional que não esconde, essas virtudes de Dilma Rousseff, manipuladas, foram transformadas em defeitos e ela foi “denunciada” como grosseira e descortês.

O perfil do próximo presidente brasileiro será feminino a partir de muitos fatores. Mas resultado também do desempenho da própria candidata. Isso pode não ser determinante, mas faz parte da receita do sucesso.

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