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Serviço Militar obrigatório

por Celso Marcondes — publicado 08/10/2008 18h34, última modificação 24/08/2010 18h36
Rapazes de 17 anos, por todo País, passam por um momento especial: estamos em plena temporada de apresentação ao glorioso Exército Brasileiro.

Rapazes de 17 anos, por todo País, passam por um momento especial: estamos em plena temporada de apresentação ao glorioso Exército Brasileiro. Entre os jovens das camadas mais pobres da população, segundo o ministro Nelson Jobim, “o número de rapazes que entram para ter o que comer e onde dormir é cada vez maior” (26/08/2008 – Agência O Dia). Já entre aqueles das chamadas classes A e B, raros almejam tal destino. Esse descompasso social estaria preocupando o governo, que deve anunciar ainda esse mês algumas novidades importantes nas regras para o serviço militar obrigatório.

Se você acha que vai deixar de ser obrigatório, está enganado. Ao que tudo indica, a intenção é a de diminuir as chances dos jovens de classe A e B escaparem ilesos ao chamado pátrio. Nessa batalha estaria Jobim e o ministro de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger. Eles estão juntos no chamado “PAC da Defesa”. Juro que eu nem sabia que tinha um PAC neste setor.

Na faixa mais alta e seleta da nossa pirâmide social arrisco dizer que quase todos tremem quando se aproxima o momento da apresentação. Insônia, dor de barriga, nervosismo, (mais) brigas e discussões com a mãe. Eu conheci uma história bem recente. Veio através de um e-mail, cheia de detalhes cruéis. Ela me fez voltar a 38 atrás, quando passei, tremendo, por esse martírio. Depois de várias idas e vindas aos quartéis, um pé torto e 5 graus de estrabismo em cada olho livraram minha barra e eu pude fazer meu vestibular. O caso descrito abaixo aconteceu em 2007, mas poderia ter ocorrido em 1970. Os militares não estão mais no poder, mas nada mudou nesse departamento. Como mudanças parecem estar em curso, seria bom que o governo ouvisse também os jovens antes de fazê-las.

Um estudante conta sua história
Deixo Mahle Paes Robin, hoje estudante da USP, contar sua saga do ano passado. Omito os nomes e referências dos locais que ele freqüentou.

“Alistei-me no Exército no consulado brasileiro de Londres quando fiz 18 anos e estava morando na Inglaterra. Voltando ao Brasil, descobri que, para renovar meu passaporte, deveria regularizar minha situação militar, já com 20 anos. Na Junta Militar da minha região tive meus primeiros contatos com a podridão do sistema. Inscrevi-me na primeira etapa do processo de seleção e perguntei se era possível obter algum tipo de documento provisório para renovação de passaporte. O sujeito, baixinho, bigodudo e com cara de malandro sugeriu que eu lhe deixasse pago duas cervejinhas no bar da esquina. Senti-me impotente diante da situação e tive receio que ele pudesse atrasar meu processo. Fiz o que ele pediu.

Um atendente bêbado e corrupto
Precisei retornar algumas semanas depois à Junta Militar. Encontrei o mesmo atendente completamente bêbado. A situação era constrangedora. Quando chegou minha vez, ele pegou meu Certificado de Alistamento Militar e tentou pronunciar meu nome, enrolando a língua. Achou a sonoridade engraçadissima e começou a cantarolar algo imitando a fonética da língua inglesa. Os meninos que estavam na fila deram muita risada. As outras atendentes fizeram cara de constrangimento. O sujeito entrou na sala de sua chefa e fechou a porta. Segundos depois, todos nos que estávamos na sala de espera ouvimos gritos vindos da sala reservada. O sujeito voltou, devolvendo-me o documento e comentou: “a gente tem que ouvir cada coisa”!”.

Depois de algum tempo, precisei retornar à Junta para saber meu destino. Tive o azar de ser um dos poucos escolhidos para a "seleção" em um quartel de uma cidade vizinha.

Cheguei às seis horas da manhã, pensei que só havia um quartel na cidade. Peguei uma primeira fila, um oficial olhou meu documento e não disse nada. Três horas depois, quando chegou a minha vez, outro oficial veio pedir desculpas por não ter percebido antes que eu deveria estar em outro quartel. Fiquei perplexo. Eu e outro menino fomos então para o outro quartel. Chegando lá, nos deram uma considerável bronca, gritavam na nossa cara. Não aceitavam que, apesar de termos ido ao lugar errado, o erro poderia ser em parte explicado pelo fato de que o oficial não examinou os nossos documentos corretamente. Acabamos nos encaixando no processo (atrasados, fomos os últimos da fila).

Preconceito à flor da pele
Os militares humilhavam os meninos, em um ambiente de tensão desumana. Fiquei esperando a minha vez de ser humilhado. Por sorte, passei despercebido. Um descendente de japoneses sofreu bastante. O menino não sabia que cara fazer enquanto os militares o pegavam para chacota. O soldado lhe chamava de homossexual, dizia que tinha cara de mafioso, que deveria voltar para o Japão. Foi uma experiência asquerosa.

Esperei mais seis horas de pura tensão, clima horroroso. Quando chamaram os últimos para inspeção médica, a primeira coisa que perguntaram foi: "alguém tem alguma doença?". Fui o único a apresentar relatório médico. Ele falou: "claro, você tem Ménière, a triade: vertigem, zumbido e perda da audição"... fiquei surpreso, pois achava que a doença era relativamente rara e concordei que aqueles eram os sintomas. Um outro menino (negro, bem alto) falou que tinha pinos no pé. O médico perguntou o porquê, o menino respondeu "é tiro".

A partir daí eu passei a apenas assistir os procedimentos com os outros meninos, fui colocado de lado e já reparara que o médico tinha carimbado "DISPENSADO" na minha ficha. Os meninos continuaram sendo tratados com arrogância, pelados, sendo examinados. Enquanto isso, o tenente que estava no mesmo posto médico olhou minha ficha, abriu um sorriso enorme e falou: "nossa, você se alistou em Londres? Aprendeu inglês? Você conhece o museu de cera?"... eu disse que conhecia, e então um sargento falou "o museu chama-se Madame Tussauds". Ao ouvir a palavra "Londres", os oficiais já mudaram de atitude comigo. Os outros meninos, todos muito humildes, continuaram ouvindo gritos. Assisti parte do exame médico, e depois eles foram levados pra fazer o teste de força, enquanto eu, que nem precisei tirar a roupa, já fui mandado para a seção dos dispensados. Esperei mais uns 50 minutos e fui liberado.

Desorganização absoluta
Certo dia, meu pai me ligou para dizer que a Junta Militar estava me procurando. Preocupado, liguei imediatamente e uma mulher me disse que haviam cometido um engano. Tinham me mandado para a "seleção" no dia errado. Incrivelmente, não sabia me explicar o porquê, disseram ter sido um "erro no sistema". Mandou-me voltar para uma nova "seleção" em setembro. Senti uma raiva gigantesca de toda aquela falta de organização, da ignorância da atendente em relação ao motivo do problema, dos maus-tratos dos militares, enfim, a historia tornou-se infernal. Não sabia mais como me livrar do exército brasileiro.

Retornei ao quartel. Lá, descobri o porquê do "erro no sistema". A Junta Militar havia me mandado num dia comum de "seleção". Aquele dia era reservado APENAS aos que haviam se alistado no exterior ou aos atrasados do processo. Obviamente, o público neste dia foi bem distinto. Enquanto estava na fila em frente à entrada do quartel, via os meninos chegando em carros importados, 4x4, Corollas etc. Não sei se foi coincidência, mas nesse dia não houve gritaria, muito menos situações de desrespeito, e havia até mesmo uma televisão na sala de espera.

Fui dispensado definitivamente por causa de minha doença. Retornei à Junta Militar para jurar bandeira e obter minha carteira de reservista. Estava livre”.

Interessante esse sistema, não é? Quem é pobre, já levou tiro no pé e quer servir, é sempre maltratado. Quem tem grana e não quer servir, corre o risco de ser bem tratado. Não seria mais civilizado tratar bem quem quer servir e dispensar, tratando bem, quem prefere não servir? Porque, se há excesso de demanda, o serviço militar tem que espelhar nossa desigualdade social?

Qual é a sua teoria, caro jovem leitor?