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Política

Rio de Janeiro

Segundo turno entre Pezão e Garotinho seria "tragédia", diz Lindbergh

por Marsílea Gombata publicado 23/09/2014 09h17, última modificação 24/09/2014 17h01
Ex-prefeito de Nova Iguaçu e candidato ao Palácio Guanabara, petista garante não se ressentir da falta de apoio explícito da presidenta Dilma Rousseff
Tasso Marcelo/Fotos Púœblicas
Lindberg

Lindbergh Farias visita a Feira de São Cristovão, no Rio

Botão Eleições 2014Do Rio de Janeiro

Um segundo turno entre Luiz Fernando Pezão (PMDB) e Anthony Garotinho (PR) seria uma "tragédia" para o Rio de Janeiro e impediria que o estado conseguisse realizar reformas urgentes nos serviços públicos. A afirmação é do senador Lindbergh Farias, ex-prefeito de Nova Iguaçu e candidato ao governo do Rio de Janeiro pelo PT.

Quarto colocado nas pesquisas de intenção de voto, atrás de Garotinho, Pezão e Marcelo Crivella (PRB), o paraibano de 44 anos afirma que o segundo turno entre Pezão e Garotinho significaria uma disputa entre duas versões de uma mesma linhagem política. “Pezão começou na política como braço direito do Garotinho, foi secretário de governo da Rosinha (Garotinho), a pasta mais importante. Depois foi indicado para ser vice do Cabral e acabou se tornando o seu braço direito”, disse o petista. Para Lindbergh, há uma estratégia do PMDB de pintar Pezão como dissociado dos governos Garotinho e Cabral, algo que ele tentará contornar em sua campanha.

Lindbergh falou a CartaCapital durante o deslocamento entre uma reunião em Santa Teresa e uma agenda na qual previa uma caminhada no calçadão de Nova Iguaçu. Previa porque o ex-prefeito da cidade da Baixada praticamente não conseguiu se mexer. Ao saltar do carro, foi espremido, fotografado, abraçado, louvado. “Lindbergh vai ser governadooor! Eôôô, Eôôô”, gritavam militantes na cidade em que Lindbergh consolidou sua carreira política. No auto-falante pediam: “Atenção, militância! Só um tempinho que o Lindbergh vai falar! Atenção, militância!”

Do lado oposto do calçadão, um telão com gerador móvel em um carro projetava imagens da campanha “Lindbergh e Dilma”, apesar de a presidenta raramente aparecer ao lado dele. Dilma apoia os quatro principais candidatos ao governo do Rio e tem participado de eventos com Pezão, Crivella e Garotinho. As cenas confundiam quem se animava a fazer campanha para o petista. Um senhor que por ali passava com adesivos do candidato no peito perguntou: “A Dilma tá aí no meio falando?”

CartaCapital: O senhor está em quarto lugar nas pesquisas de intenção de voto para o governo do estado. Ressente-se da falta de apoio de seu partido, o PT, de forma mais incisiva?
Lindberg Farias: É claro que para a gente seria maravilhoso se só tivesse uma candidatura de apoio da presidenta Dilma aqui. Mas não é esse quadro no Rio, e sabíamos disso. Essa situação, de fato, dispersa o voto da presidenta em várias candidaturas e dificulta um pouco o crescimento na velocidade que a gente quer neste primeiro período. O que houve, aqui no Rio, em um primeiro momento foi uma campanha falsa do governo do (Luiz Fernando) Pezão.

CC: Por que falsa?
LF: Falsa porque estão construindo um personagem que não existia, escondendo totalmente o Sérgio Cabral, escondendo a história do Pezão. O governador começou na política como braço direito do Garotinho, foi secretário de governo de Rosinha Garotinho, a pasta mais importante. Depois foi indicado para ser vice do Cabral e acabou se tornando o seu braço direito. Então ele está aí esse período todo, mas na televisão construíram ele como se fosse um homem novo, e em um primeiro momento conseguiram êxito nessa estratégia. O que estamos fazendo agora? Estamos associando, dizendo que o que existe aí é um grupo que está no poder há mais de 16 anos, começando com Garotinho. Quem estava por trás de Garotinho eram Sérgio Cabral, Eduardo Cunha, Jorge Picciani. E agora quem está por trás do Pezão são o Sérgio Cabral, Eduardo Cunha e Jorge Picciani. Queremos mostrar que, infelizmente, com essas opções não há como melhorar os serviços públicos, como saúde e educação, porque o que há por trás disso aí é uma aliança política extremamente comprometida com grupos econômicos que atuam dentro do estado. Como o exemplo que dei recentemente: o grupo Facility, que está aí desde a época do Garotinho, já em 2002 tinha um contrato de 2 bilhões de reais. Não há como melhorar a saúde, por exemplo, sem romper com essa turma, sem essa mistura de interesses empresariais e políticos. Olhando o cenário nacional, eu sou Dilma, mas sinceramente, vejo um segundo turno entre Dilma e Marina como algo que faz o Brasil avançar, mudar. Diferente de um segundo turno entre Garotinho e Pezão aqui, o que seria algo trágico para o Rio de Janeiro, que sempre foi um estado de vanguarda, que esteve à frente, resistiu à ditadura, votou em Leonel Brizola em 1982, lutou pelas Diretas e esteve no centro das manifestações do ano passado. Você cair em uma coisa pobre dessa é triste. Por isso acredito que assumir esse ciclo político de mudança pode nos ajudar a crescer e chegar a um segundo turno.

CC: Na opinião do senhor, então, um segundo turno entre Garotinho e Pezão seria ter mais do mesmo em lados opostos?
LF: Para mim, seria uma tragédia. Gosto de fazer um paralelo forte com a eleição atual e a municipal de 2008, na qual disputaram Eduardo Paes (PMDB), Marcelo Crivella, Fernando Gabeira (PV), Jandira Feghali (PCdoB) e Alessandro Molon (PT). O que houve ali? O Eduardo Paes cresceu muito em um sentimento anti-Crivella. O mesmo vem acontecendo no Rio agora: criaram esse Pezão na tevê, e muitos querem votar nele com medo do Garotinho. Em 2008, Paes passou o Crivella a oito dias da eleição, quando o Gabeira tinha 10% e o Crivella, 24%. Acho, então, que podemos crescer nesse sentimento de mudança, em uma onda de tirar o Garotinho do segundo turno. Eu acredito nisso. Perto de 50% dos eleitores ainda não têm candidato quando a pesquisa é espontânea. É muita gente que se decidiu nacionalmente, mas no Rio de Janeiro não sabe ainda o que fazer ainda. É uma eleição que pode ter mudanças.

CC: O senhor acha que se a presidenta Dilma Rousseff focasse em mais agendas com o senhor, ajudaria a alavancar essa mudança?
LF: Claro que ajuda, mas não vou pedir isso para ela porque sei qual tarefa ela tem. Ela está em uma disputa dura, presidencial, e aqui tem outras candidaturas que apoiam o nome dela à Presidência. Então eu entendo e não exigiria isso de Dilma.

CC: E quanto ao presidente Lula, que esteve recentemente no Rio?
LF: Lula está gravando comigo, me ajudando aqui na televisão. Existe um apoio aberto, explícito, diferentemente da Dilma, que é candidata. É por isso que acredito muito nessa possibilidade de virada ainda. Lula vai fazer uma nova gravação para a gente agora, ele tem muita força aqui, na Baixada, em São Gonçalo. Acho que estamos entrando aqui em um ciclo perigoso. Temos um verdadeiro genocídio com a juventude negra, e esses governos são incapazes de entrar em uma discussão sobre a reforma da polícia no Rio de Janeiro. É fim de linha, eles não têm mais como levar o Rio de Janeiro à frente.

CC: O senhor acha que esse escândalo recente que expôs a máfia existente dentro da Polícia Militar do Rio e o fato de a milícia influenciar o processo eleitoral em algumas comunidades, alguns com UPP, inclusive, é indicativo de que a política de segurança levada a cabo pelo governo atual falhou?
LF: Achar que só ocupação policial resolve é um equívoco completo. Primeiro, a lógica que se tinha de buscar é a do policiamento comunitário, de proximidade, já que nunca se iniciou um processo de tentar reformar a polícia, para se ter uma polícia que respeite o cidadão, a juventude negra, a comunidade. É uma polícia militarizada, formada dentro da lógica militarizada, apenas de combate ao inimigo, e que acaba tratando um jovem de 18 anos, negro, da favela, como suspeito natural. Nada mudou na velha abordagem da polícia. No lugar de policiamento e proximidade, temos um quadro cada vez mais parecido com o de forças de ocupação nas áreas pobres. As UPP estão nesse limite de ser uma força de ocupação e de contenção dos pobres. No fundo, trata-se de uma política de guerra aos pobres, na qual a juventude está sendo atacada pela milícia, pelo tráfico e por essa polícia truculenta. Por isso, os desafios de um outro governo com perspectiva de esquerda aqui no Rio seriam gigantescos. Não é fácil desarmar essa herança cultural que existe, de violência na polícia, mas é um dos desafios do Rio de Janeiro. Queremos lutar muito nesses dias que faltam pois o estado vive uma encruzilhada. Com esses grupos continuando no poder, os serviços públicos não serão melhorados, e o Rio pode acabar definitivamente nas mãos das milícias, que crescem porque houve no passado uma política de Estado deliberada de achar que as milícias eram melhores do que o tráfico e, por isso, foram incentivadas.

CC: Em que governo o senhor acha que isso foi mais incentivado?
LF: Tanto no governo do Garotinho quanto no de Sérgio Cabral. As prisões que existiram por meio da CPI das Milícias aconteceram, principalmente, pelo trabalho do deputado Marcelo Freixo (PSOL). Não foi o governo, mas ele quem escancarou, que denunciou. E o acordo implícito que existe agora no Rio é de que os milicianos continuam a existir, mas podem ser candidatos. Me pergunto por que não existe uma regulação, por parte do Estado, da venda de gás, do "gatonet". Estou convencido de que a milícia atua na sombra do Estado, com acordos implícitos. Então acho que tanto uma vitória do Garotinho quanto do Pezão representam um aprofundamento da crise. Ceder ao poder desse pessoal das milícias é ter o Rio de Janeiro entrando em um período muito complicado.

CC: Além do PT, o senhor é coligado com o PSB do candidato ao Senado Romário e da presidenciável Marina Silva. No horário eleitoral, é comum alguns candidatos a deputado aparecerem ao lado do nome do senhor, de Romário e de Marina, e não da presidenta Dilma, que é do seu partido. Como essa “confusão” ressoa aos ouvidos do eleitor no Rio? Para o eleitor, o senhor é candidato da Dilma ou da Marina?
LF: Isso está claro porque eu sempre falo que sou candidato da Dilma. Mas aqui no Rio, da mesma forma que Dilma tem quatro candidatos que a apoiam, tínhamos feito uma aliança com Eduardo Campos lá atrás, que dizia que “o Rio de Janeiro tem de construir um novo caminho, e a candidatura do Lindbergh é essa possibilidade, de se contrapor a Pezão e Garotinho”. Então, em cima disso, os deputados do PSB fazem campanha para Marina, os deputados do Partido Verde fazem campanha para Eduardo Jorge, e nós do PT e do PCdoB fazemos campanha para Dilma. Claro que é um cenário confuso, mas são as condições estaduais que também expõem as suas peculiaridades.

CC: Como o senhor enxerga o fato de que, dentre os três candidatos ao governo mais bem colocados, dois serem ligados a igrejas evangélicas. E o que fará para conquistar esse eleitorado, uma vez que não é de nenhuma denominação?
LF: O Rio de Janeiro perde para Roraima e Rondônia no número de evangélicos. É o terceiro estado do País em presença de evangélicos. É uma força considerável, que cresce a cada dia. Acho que a eleição está trazendo um reflexo dessa composição que existe hoje no estado do Rio. Os evangélicos têm muita força e dois candidatos. Se tivesse um só, este poderia ser um candidato com muita chance de conquistar o governo do Rio.

CC: Esses candidatos fazem campanha para o eleitorado evangélico e para o não evangélico. O senhor, em sua estratégia de campanha, pensa em como conquistar esses votos, já que não tem uma ligação direta com uma igreja evangélica?
LF: Fui prefeito de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, que tem maioria evangélica. Sempre tive uma relação de muito respeito, até porque tem muito preconceito de gente de classe média com quem é evangélico. Tem muita coisa séria, um trabalho benfeito, uma juventude que é cabeça no lugar. Eu vi isso como prefeito de Nova Iguaçu. Então sou um cara que tem muito diálogo, tanto com eles quanto com o pessoal das religiões de matrizes africana, católica etc. Eu sou respeitado, rodo muito esse Rio de Janeiro, conheço todos. Tem pastores que me respeitam, que poderiam votar em mim. Só que as circunstancias dessas eleições, com dois candidatos evangélicos, mudaram meu foco. Sei que dentre 100 evangélicos que converso, posso estar disputando dez votos, pois 90 estão ali bem presos com eles. Por quê? Porque o Garotinho tem uma rejeição grande, mas o Crivella é um evangélico com pouca rejeição. Então, se o cara não é Garotinho, é Crivella. Se não é Crivella, é Garotinho. Sobra muito pouco para mim. Então, eu que sempre fiz muita agenda e visitava as igrejas, diminuí um pouco porque achei que fosse em vão. Claro que tenho votos evangélicos, mas é algo muito minoritário.

CC: Portanto, não existe um esforço no sentido de conquistar esse eleitorado que, em tese, já teria um candidato evangélico?
LF: Já fiz esse esforço a vida inteira. E fiz o mais difícil, que é ter uma relação de proximidade. Nesta reta final de campanha, esse não é o centro. Porque daí é bem difícil pescar mais votos. Eu estaria usando meu tempo para disputar menos votos.

CC: O senhor é réu em processo que corre no Supremo Tribunal Federal, em dez inquéritos. Como espera que o eleitorado não leve isso em conta na hora de votar?
LF: Eu inclusive quero colocar isso na TV, porque fizeram uma campanha aqui no Rio dura e suja. Ligaram de uma central de telefones para as casas das pessoas como se fosse uma pesquisa, espalhando um monte de boatos sobre a gente. O Tribunal Regional Eleitoral fechou a empresa. É uma coisa criminosa, clandestina. Estamos atrás de qual candidatura está por trás dessas ligações que contabilizam mais de mil. Fui prefeito de Nova Iguaçu e estou na luta enfrentando o pessoal desde a época do Garotinho e do Cabral. Hoje sou senador, então qualquer denúncia feita ao Ministério Público vai para o STF. Quando chega ao Supremo, se ele achar que a denúncia tem fundamento, vai para um ministro, e daí começa a ser um processo. No meu caso, já foram analisados pelo supremo dez inquéritos, nenhum teve indício de virar processo. Eu não tenho nem processo, só inquérito. Cada hora surge um, isso aqui não é brincadeira. Mas nenhum virou processo, o que é uma situação completamente diferente dos meus adversários. Garotinho tem processo e foi condenado por formação de quadrilha, juntamente com Álvaro Lins. E Pezão, que O Globo não dá de jeito nenhum, foi condenado por superfaturamento de ambulâncias e responde por mais três processos pelo envolvimento com a Máfia dos Sanguessugas. Então são situações diferentes. Eu sou completamente ficha limpa: não tenho condenação ou processo no Supremo.