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Rumo a Copenhague: o que esperar da posição brasileira

por Ricardo Young — publicado 30/10/2009 15h23, última modificação 08/09/2010 15h24
Existe um grande mal-entendido sobre as emissões de carbono no Brasil que novos estudos têm esclarecido.

Existe um grande mal-entendido sobre as emissões de carbono no Brasil que novos estudos têm esclarecido. Mas ainda haverá tempo de influenciar a posição brasileira na conferência do clima em Copenhague? Devemos nos esforçar para que sim. Afinal, a COP15 vai marcar oficialmente a entrada em cena da economia de baixo carbono, que precisa substituir, em vinte anos, no máximo, a “velha” economia baseada no combustível fóssil, pelo bem da sobrevivência da espécie humana neste planeta.

Tem sido lugar comum, no Brasil, afirmar que basta zerar o desmatamento para o país praticamente extinguir suas emissões de gases de efeito estufa. Não que seja tarefa simples chegar ao desmatamento zero. A floresta vem sendo derrubada porque há interesses econômicos movendo as motosserras. A suposição é de que, apoiando-se um mecanismo como o REDD (redução de emissões por desmatamento e degradação), haverá incentivo para manter a floresta em pé.

Ocorre que as emissões brasileiras não vêm apenas do desmatamento, como se acreditava até bem pouco tempo. O desmate ainda é a maior fonte destas emissões, mas cresce menos do que as emissões vindas da queima de combustíveis fósseis, da agropecuária, da indústria e do lixo.

O engenheiro agrônomo Carlos Cerri liderou um grupo de pesquisadores da USP de Piracicaba que mediu as emissões de GEE no país entre 1994 e 2005. Desde 1994, ano do último inventário oficial sobre o assunto, as emissões cresceram 17% e tiveram seu perfil bastante alterado. As emissões pelo desmate cresceram 8% no período, enquanto que aquelas oriundas da energia, da agropecuária, dos processos industriais e do lixo cresceram juntas 41%. No balanço geral, o desmatamento ainda é nossa principal fonte de gases-estufa. No entanto, se continuar a trajetória descendente dos últimos anos e os demais setores aqui mencionados, a trajetória ascendente, pode não ser de grande valia basear a posição oficial brasileira em Copenhague no mote do desmatamento zero. Haverá um ponto de cruzamento em que processos industriais e agropecuários, bem como seu corolário que é o lixo urbano e rural, superarão as emissões das queimadas. E o Brasil está montando sua posição apenas na expectativa de redução de desmatamento. Para o país ter uma estratégia bem-sucedida, é preciso levar em conta todos os setores que impactam nas emissões, estabelecendo com eles as medidas para a mudança. E, de todos os acima citados – energia, indústria e agropecuária – o mais recalcitrante vem sendo mesmo este último.

A indústria, embora com segmentos ainda resistentes, vem avançando no sentido de estabelecer metas de redução de carbono, de mudanças em processos produtivos e de desenvolvimento e utilização de novas tecnologias. O setor energético também avança com a biomassa, cuja utilização ampliada pode não só compensar o carbono gerado pelo pré-sal, como ainda avançar no combate à pobreza e às desigualdades sociais.

O setor da pecuária, todavia, mantém-se rígido numa posição que põe em risco a própria viabilidade do negócio, no curtíssimo prazo. Não aceita metas de carbono, não contribui para ser a solução para o desmate e continua firme na aplicação de velhas práticas que já deveriam ter sido enterrados no século 19, como o trabalho análogo à escravidão e a criação que degrada o ambiente. Estas práticas começam a ter seus dias contados, com a proximidade da reunião de Copenhague. Por quê?

Poucos entenderam qual o “espírito” desta convenção do clima. Certamente, ela não representará uma revolução no sentido estrito da palavra. As metas estabelecidas talvez fiquem aquém do esperado (e necessário); a adoção delas pelos países vai obedecer as agendas nacionais; os avanços serão desiguais. Mas, ao menos num aspecto, Copenhague vai ser decisiva: os governos vão começar a construir o projeto de uma governança global sobre o clima que pode mudar radicalmente a geopolítica do mundo.

A partir das decisões firmadas pelos países, estará aberta a possibilidade de se ampliar, em nível nacional e global, os marcos regulatórios que terão impacto no comércio internacional, por exemplo. É bem provável que o que hoje consideramos barreiras não-tarifárias e subsídios seja aprovado pela comunidade internacional como salvaguardas para a segurança climática do planeta. Assim, a carne brasileira estará sujeita a escrutínios mais rígidos e detalhados do que as inspeções fitossanitárias recentes.

O gado veio de área de desmate? Existe trabalho infantil na cadeia produtiva? Controla o consumo de água? Estas e outras perguntas terão de ser respondidas para consumidores do mundo inteiro. A pesquisa do grupo de cientistas da USP atesta, por exemplo, que a fermentação entérica do gado ("pum", gás metano) cresceu de 184 milhões de toneladas em 1994, para 248 milhões de toneladas em 2005, representando 12% da contribuição brasileira ao efeito estufa.

É possível lidar-se com este problema sem acabar com a pecuária. Já existem exemplos na suinocultura em que, por meio de biodigestores, os criadores captam o metano emitido pelos animais e o transformam em energia e calor para movimentar a própria fazenda. Isso só é possível porque há confinamento dos suínos.

A pecuária terá de pensar em novas soluções para o negócio, para se encaixar nas novas exigências que vão emergir a partir de Copenhague.

Então, por que a pecuária brasileira não faz como alguns setores industriais, antecipa-se à demanda e propõe os vetores para uma pecuária sustentável?

Reconhecer que uma nova economia está nascendo é mais saudável para os negócios e para a sociedade do que fincar pé numa atitude renitente e atrasada que será superada pelo turbilhão dos acontecimentos.