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Violência no Rio

Rio: nem maniqueísmo, nem complacência. Muito menos, ingenuidade

por Celso Marcondes — publicado 02/12/2010 10h07, última modificação 06/06/2015 18h43
CartaCapital oferece uma coletânea, atualizada diariamente, de textos, entrevistas e análises sobre o combate ao tráfico no Brasil. Leia e opine. Por Celso Marcondes

CartaCapital oferece uma coletânea, atualizada diariamente, de textos, entrevistas e análises sobre o combate ao tráfico no Brasil. Leia e opine

CartaCapital publicou mais de duas dezenas de artigos e análises sobre os últimos acontecimentos no Rio de Janeiro. Eles estão reunidos aqui, para sua consulta e reflexão. A complexidade do tema exige que sejam dispensadas as avaliações rápidas e maniqueístas. Não dá para reduzir tudo a uma luta entre mocinhos e bandidos. Há inúmeras questões a envolver o assunto, não é nosso papel de cidadão apenas clamar pela ação eficaz e poderosa de forças policiais.

Reunimos textos, entrevistas e opiniões distintas, análises sob ângulos diversos. Desta seleção fazem parte o jurista Wálter Maierovitch, nosso colunista, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, o ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, os políticos Brizola Neto, Marcelo Freixo, Chico Alencar, Vladimir Palmeira, Renato Simões e Plínio de Arruda Sampaio, a urbanista Raquel Rolnik, o professor José Cláudio Souza Alves, o economista Paulo Daniel, o jornalista e editor da Carta, Mauricio Dias, a Ong Observatório das Favelas e a Associação Juízes para a Democracia. E as manifestações de vários leitores. Além das matérias de sites e blogs parceiros.

A corrupção dentro da polícia é um dos temas mais abordados pelos textos. Afinal, calcula-se que as milícias controlam mais de 40% das favelas cariocas. Luiz Eduardo Soares chega a dizer que “a primeira coisa que a polícia tem de fazer para combater o tráfico é deixar de se associar a ele”. Bombástico, não é?

Também é muito discutida a situação precária de nossos presídios - com seus altos índices de portabilidade de celulares - e a peneira das fronteiras, a receber generosas importações não registradas da Colômbia, Bolívia, Peru e Equador. O crime organizado transnacional é especialidade do Maierovitch que lança agora livro a respeito.

Outra questão importante: o arsenal mais que moderno em posse dos marginais nos foi apresentado pela telinha, até bazuca eles têm, muita coisa desviada de delegacias e depósitos oficiais, nem tudo com visto de entrada do Paraguai. Se só no Alemão tinha aquilo tudo que apareceu, imaginem no Rio inteiro. Aquele era reduto maior do Comando Vermelho. Qual será o estoque do Terceiro Comando e da Amigos dos Amigos? E o PCC paulista, onde e quanto armazena?
Mais um aspecto do imbróglio para mexer com corações e mentes: as responsabilidades dos usuários. Um leitor (leia “Favela cercada, usuários na praia”) nos escreveu indignado ao contar a placidez com que alguns fumavam maconha nas praias do Leblon enquanto o pau comia no Alemão. Ele lembra que, quando questionados, os usuários contumazes da erva respondem rápido – “Precisa legalizar!”. Mas há que retrucar – “E enquanto não legaliza?”. Debate nada fácil, mas que tem tudo a ver com a situação.

São tantas as questões envolvidas, que qualquer redução da solução do problema pela combinação pura e simples da implantação de UPPs com a ação policial vigorosa ultrapassa os limites da ingenuidade. Principalmente quando se conhece que as Unidades de Polícia Pacificadora - que não podem ser confundidas com meros postos policiais permanentes - só cobrem até aqui uma mísera parte das favelas do Rio (2%) e que serão necessários 7 meses para ver duas delas implantadas no Complexo do Alemão.

Voltam à tona também questões eternas no Brasil, como a trágica precariedade da ação do Estado nos bairros pobres das grandes cidades (leia o deputado Brizola Neto, a lembrar dos finados CIEPs do seu finado avô), a inexistente integração das diversas polícias e aparatos de repressão, a dificuldade da relação entre os governos municipais, estaduais e federal (que, pela primeira vez, não pareceu problema no Rio), o papel omisso do parlamento. Ou nem sempre omisso, cúmplice mesmo, como dizem Freixo e Alencar.

E o que dizer do papel das Forças Armadas nesta história? O jornalista Luiz Carlos Azenha nos informa que os EUA são a favor da ação do Exército nestes casos. Mas, apenas o Exército de outros países, Azenha ressalva, nada dentro das fronteiras americanas. Interessante. Ainda mais quando lemos matérias nos jornais que dão conta da existência de soldados do nosso Exército envolvidos com a ocupação dos morros que estão com medo de voltar para suas moradias, situadas em favelas, obviamente, porque seus familiares são ameaçados por traficantes. Como será que eles vão sair dessa?

Para recordar os piores momentos da nossa recente campanha eleitoral, tinha que surgir também o viés conservador de uma parte da sociedade brasileira. Não faltaram nas páginas do Facebook, muito pelo contrário, os que aproveitaram a oportunidade para defender a mudança na legislação sobre a maioridade penal e os que tentam limitar os direitos humanos universais a uma parcela da humanidade.

A onda raivosa torna possível afirmar que qualquer pesquisa feita agora pelo Datafolha indicaria um significativo crescimento dos defensores da implantação da pena de morte no País. As imagens da fuga de dezenas de marginais pela estrada de terra da Vila Cruzeiro foram acompanhadas por intensa torcida para que chegasse um helicóptero com a caveira estampada a metralhar os que corriam como ratos de um esgoto.

Por falar em helicóptero, o papel da mídia é outro aspecto do debate. Dá para aceitar como normal uma aeronave da Rede Globo a sobrevoar tranquilamente uma zona de combate? A cobertura estilo talk show? Uma repórter a comemorar ter sido a primeira a chegar ao alto do morro? O endeusamento dos homens de preto?

Mas como tudo tem mais que um lado, dá para comemorar sim as matérias que denunciaram abusos dos policiais ao “revistar” as casas de moradores. Como deve ser exaltado o papel da internet, principalmente dos garotos do @vozdacomunidade, que deram um show de cobertura jornalística em meio ao olho do furacão. Direto do Complexo do Alemão viram saltar seu número de seguidores de 180 para 36 mil em uma semana. Se você ainda não os conhece, ainda é tempo, clique neles.

Mas CartaCapital não tem um site que pretenda concorrer com os grandes portais de notícias. Como nossa edição impressa, optamos pela análise e conteúdo diferenciado, pelo incentivo ao debate e, ao cabo dele, pela tomada de posição.

Os textos relacionados aqui devem ajudar no posicionamento do leitor, como estão a ajudar no meu. Abaixo deles, no espaço destinado aos COMENTÁRIOS, você pode registrar sua opinião.

1. Wálter Maierovitch, em 24/11/2010:

2. Wálter Maierovitch, em 25/11/2010:

3. Walter Maierovitch, em 26/11/2020:

4. Marcelo Freixo, em 25/10/2010:
5. Marcelo Freixo, em 24/11/2010:

6. Vladimir Palmeira, em 25/11/2010:

7. Prof. José Cláudio Souza Alves, em 25/11/2010:

8. Mauricio Dias, em 26/11/2010:

9. Plínio Arruda Sampaio, em 26/11/2010:

10. Página 12, argentino, em 26/11/2010:

11. Bahia de Fato, em 26/11/2010:

, em 26/11/2010

13. Chico Alencar, em 26/11/2010:

14. Observatório de Favelas, em  27/11/2010

15. Luiz Eduardo Soares, em  27/11/2010:

16. IHU On-line, em 29/11/2010:

17. Ricardo Targino, em 29/11/2010:

18. Luiz Carlos Azenha, em 30/11/2010:

19. Raquel Rolnik, em 30/11/2010:

20. Paulo Daniel, em 30/11/2010:

21. Entrevista com Brizola Neto, em 30/11/2010:

22. Em 30/11/2010:

23. , em 1/12/2010

24. Gerson Carneiro, em 01/12/2010:

25. Entrevista com Rubens Casara, em 01/12/2010:

26. Natasha Pitts, em 02/12/2010: 

27. Entrevista com Renato Simões, ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de São Paulo, em 03/12/2010:

28. Wálter Maierovitch, em 03/12/2010:

29. Mauricio Dias, em 03/12/2010:

30. Brasil de Fato, em 7/12/2010:

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