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Política

Contraponto

Retrospectiva

por Plínio Arruda Sampaio — publicado 21/12/2010 15h12, última modificação 21/12/2010 15h19
Fim de ano. Como sempre: retrospectiva; pausa para o Natal; prospectiva. Plínio Arruda Sampaio divide com os leitores de CartaCapital a sua visão sobre as eleições 2010

Fim de ano. Como sempre: retrospectiva; pausa para o Natal; prospectiva.

Comecemos pela primeira.

O ano foi marcado pela eleição presidencial. Uma eleição de resultado anunciado, que teve uma única pequena surpresa quando não foi despachada já no primeiro turno.

A vitória de Dilma consagrou Lula como uma liderança sem rivais à vista - um líder populista que comandará a política brasileira por muitos anos.

A melhor expressão para definir o resultado do pleito parece ser “exaustão da esperança”.

O povo não votou em Dilma por acreditar que ela possa resolver os seus problemas, mas porque se conformou em obter apenas pequenas quireras que sobram da mesa da burguesia. Votou na candidatura menos ruim: ruim com Lula, pior sem ele.

O povo acreditou na promessa das “Diretas já!” e decepcionou-se: os militares voltaram aos quartéis, mas a promessa de que isto significaria melhoria de sua vida não deu em nada. O povo voltou a acreditar na Constituinte e para lá foi, em massa, fazer lobby pelas suas reivindicações. Resultado? Zero. Restava Lula. E o povo apoiou-o com um entusiasmo enorme. Mas, novamente, nada.

Conclusão: já que não dá para resolver mesmo, conformemo-nos com as pequenas melhorias que Lula nos deu.

Contribuíram também para o resultado: a bonomia do Lula, sua origem popular, a cultura do favor e o medo da fome. Para a maioria do povo pobre, Lula deu (a expressão é essa mesmo) a Bolsa Família – um favor que, eticamente, requer retribuição. O medo da fome, num país em que mais da metade da população passa fome em alguns dias do ano, fez da existência da Bolsa Família uma garantia. Lula foi hábil em fazer crer que só Dilma seria capaz de manter o Programa.

Que dizer da oposição?

Serra e Marina não têm divergências de fundo com a política de Lula. Trata-se apenas de uma disputa de facções, interessadas exclusivamente no acesso ao botim. Serra pagou as maldades que alicerçaram sua candidatura: foi traído pelo seu próprio partido. Na campanha, não disse nada – um discurso burocrático, descolorido. Cometeu, além disso, erros imperdoáveis num político indiscutivelmente preparado.

Marina é uma oportunista que viu uma brecha e entrou por ela. Sua excelente votação explica-se, de um lado, pela enorme cobertura de imprensa (patrocinada por Serra, interessado em reduzir os votos de Dilma) e pelos vultosos recursos da sua campanha; por outro lado, na existência de um setor da população que, temeroso do conflito, prefere o discurso anódino.

A esquerda não conseguiu marchar unida, mas o PSOL brilhou e afirmou-se como uma força maior do grupo. O motivo principal disso foi o discurso claro, ideológico, socialista. O objetivo da campanha (marcar posição) foi inteiramente cumprido e a repercussão disso na juventude abre ao partido uma larga avenida de apoio político e eleitoral.

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