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Relações em banho-maria

por André Siqueira e Cynara Menezes — publicado 16/03/2011 10h52, última modificação 16/03/2011 11h03
Obama vem pela primeira vez ao Brasil em busca de um recomeço.

Obama vem pela primeira vez ao Brasil em busca de um recomeço

Barack obama vai voltar a sentir o gosto da popularidade, em baixa na terra natal, a partir do sábado 19. É quando deverá desembarcar, com a família, em um país com população de maioria miscigenada, onde o papel simbólico de um negro à frente da maior economia do mundo ainda tende a ser valorizado. No mais, será um passo para tentar fortalecer uma relação desgastada nos últimos dois anos.

Logo no início do mandato, Obama disse que Lula era “o cara”, mas, sob sua gestão, o relacionamento com Brasília, muito produtivo na era Bush, deteriorou-se. O auge do conflito deu-se quando, após estimular Lula, por meio de uma carta, a negociar com o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o presidente dos Estados Unidos ignorou o acerto fechado entre o Irã, a Turquia e o Brasil sobre a produção de energia nuclear naquele país.
De concreto, porém, é pouco o que Obama tem a oferecer ao Brasil, em termos comerciais, na curta visita de dois dias, com a agenda dividida entre­ ­compromissos políticos, em Brasília, e sociais, no Rio de Janeiro. Principal parceiro comercial do País durante muitos anos, os EUA perderam o posto para a China no ano passado, e perigam cair para o terceiro lugar, atrás da Argentina.

“Se a gente vê a composição da pauta de exportações, porém, o perfil das vendas para os americanos é bem mais favorável a nós, por incluir produtos industrializados, enquanto a China, e em menor escala a Argentina, importam mais commodities”, afirma a professora do Instituto de Economia da Unicamp, Daniela Prates.

De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, 68% dos 19,3 bilhões de dólares vendidos aos Estados Unidos pelo Brasil em 2010 eram produtos industrializados, enquanto nos 30,8 bilhões de dólares exportados à China os produtos básicos representavam 83% do total.

“Deveríamos tentar recuperar parte do espaço perdido para os chineses no mercado americano”, afirma a professora. “Mas, para isso, nossas propostas de acordo não podem se resumir a produtos agrícolas ou mesmo ao petróleo, a não ser que haja o compromisso de importar bens processados e de valor agregado mais elevado.”

Um estratégico vazamento de informações da diplomacia americana dá conta de que a abertura comercial é o tema prioritário da visita presidencial. Com a economia ainda deprimida pelo estouro da bolha imobiliária em 2008, os EUA têm poucas saídas para reduzir o déficit público além de elevar as exportações.

Se é verdade que a desvalorização internacional do dólar, como resultado das medidas de estímulo econômico, deixou as empresas americanas mais competitivas no exterior, também é fato que a vantagem artificial inspira medidas protecionistas nos mercados compradores, preocupados com seus próprios déficits.
Embora chegue aqui preocupado em abrir mercado para a sua indústria, Obama não conta com o respaldo incondicional de seu Congresso para oferecer contrapartidas. Tampouco deverá se sentir inclinado a gastar parte do capital político que lhe resta, um ano antes de uma campanha pela reeleição que promete ser especialmente dura para o democrata.

O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, afirmou em Washing­ton, após as reuniões preparatórias­ ­para a visita de Obama, no fim de fevereiro, que o potencial brasileiro de produção petrolífera é um tema que interessa à Casa Branca, disposta a transferir do Oriente Médio para as Américas parte das compras da commodity.

Mas é preciso recordar que Obama foi criticado em casa ao anunciar, em agosto de 2009, um empréstimo de 2 bilhões de dólares do Ex-Im Bank à Petrobras. O aporte fazia parte de um acordo para estimular a compra de equipamentos de fornecedores americanos para explorar o pré-sal. A oposição argumentou que o apoio ao Brasil foi oferecido antes que o presidente cedesse ao lobby a favor da produção de petróleo no Alasca, onde a atividade representa uma séria ameaça ambiental.

Obama chega a Brasília no sábado 19 pela manhã e segue direto para o Palácio do Planalto. No Itamaraty, faz declaração à imprensa. Também no Ministério das Relações Exteriores participa de um fórum de CEOs e almoça com a presidenta Dilma Rousseff. Está previsto, mas não confirmado, outro evento com empresários, na Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na sequência, a família Obama tem um jantar privado com Dilma no Palácio da Alvorada, antes de seguir para o Rio, na mesma noite.

É na capital federal que o presidente americano deverá tomar atitudes concretas de cooperação com o Brasil. É esperada a assinatura de acordos bilaterais, envolvendo inclusive questões imigratórias e o aumento do número de voos entre os dois países. Sinais dos tempos pós-crise, quando os visitantes brasileiros ganharam novo status nos parques da Flórida, deixados às moscas pelos turistas locais.

No Rio, a única atividade confirmada é a visita a uma comunidade carente. Por exigência da segurança de Obama, será uma área pacificada. O governador Sérgio Cabral sugeriu a Babilônia e a Ladeira dos Tabajaras. Celso Athayde, secretário-geral da Central Única das Favelas (Cufa), acha que, pela representatividade, seria mais interessante a Cidade de Deus. “Seria mais emblemático por tudo que representa no Brasil, mas cada um tem suas motivações”, opinou Athayde.

Obama faz no Rio um pronunciamento público, mas não há detalhes. Sabe-se que, com certeza, será reservado tempo na agenda para uma visita ao Cristo Redentor. Parte da tarde e da noite na capital fluminense serão livres para que o presidente americano desfrute do Rio como desejar (ou como a segurança permitir) ao lado da mulher, Michelle, e das filhas Sasha e Malia.

Mesmo com as restrições mundo afora à atuação do presidente americano, o secretário da Cufa tem dado boas-vindas a Obama em mensagens no Twitter, contra as propostas de fazer protesto durante a visita. “Acho que ele tem de ser bem recebido. Discordamos de algumas coisas, mas independentemente do sucesso que terá ou não como presidente do EUA, é inegável que Obama é a melhor coisa que aconteceu para o respeito aos negros no mundo.”

Para Athayde, a importância da eleição do primeiro negro não foi mostrar igualdade, e sim como existem diferenças entre negros e brancos no mundo. “O fato de a eleição de um negro ser assunto demonstra que não existe democracia racial, que onde nascer, seja aqui, na Rússia ou nos EUA, será vítima de preconceito”, afirma. “A chegada de Obama ao poder deixou claro quem é superior e quem é inferior. Individualmente, os negros podem ser piores ou melhores, mas socialmente são inferiores no mundo todo.”

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