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Política

Rosa dos Ventos

Realidade na ficção

por Mauricio Dias publicado 29/07/2011 16h30, última modificação 29/07/2011 16h40
No pano de fundo do livro de Telles Ribeiro, o golpe de 1964 e a distensão de 1975 começam em Washington
Realidade na ficção

Em 1978, o presidente Jimmy Carter encontrou-se com Arns e Faoro (acima). Foto: Adriana Lorete

Entre os anos 1960 e 1970 o governo dos Estados Unidos fez e desfez no continente latino. Ameaçado pela proposta revolucionária de Fidel Castro, em Cuba e, também, pela virada à esquerda do chileno Salvador Allende, Washington patrocinou a derrubada de governos civis e militares com políticas nacionalistas ou progressistas e impôs ditaduras militares conservadoras e sangrentas.

Foi uma orquestração sob a regência dos maestros da Casa Branca.

Nesse mesmo período, além dos golpes no Brasil, na Argentina e no Uruguai, foram derrubados também os governos do Panamá (1968), Chile (1973), Peru (1975), Equador (1976), El Salvador (1979), Bolívia (1980). Formou-se o que os diplomatas chamaram de “dominó da direita”.

No Brasil, logo após a queda de Goulart, o jornalista Edmar Morel escreveu o livro O Golpe Começou em Washington, onde expôs-se pela primeira vez os mentores da ação de 1964.

Agora, no que pode vir a ser uma antecipação aos historiadores, o romance O Punho e a Renda, do escritor e diplomata Edgard Telles Ribeiro, introduz uma hipótese nova. Sugere que a distensão política conduzida pelo general-presidente Geisel de forma “lenta, gradual e segura”, como ele próprio a definiu, também começou em Washington. Impelida por um acordo nuclear Brasil-Alemanha que, entre outros efeitos, interrompeu a compra das usinas nucleares da americana Westinghouse.

Nesse acordo, interessava aos militares brasileiros, oficialmente, o domínio da produção de urânio enriquecido e, clandestinamente, a construção da bomba atômica.

Eis o que conta Eric Friedkin, fictício ex-agente- da CIA na América do Sul, ao narrador, alter ego do experiente diplomata autor do livro:

“Por maiores que fossem nossas convicções sobre a ineficácia da tecnologia alemã nesse campo nuclear, ficamos preocupados. Primeiro, porque não tínhamos cem por cento de certeza de que ela não funcionaria (...) começamos a nos dar conta do perigo em lidar com regimes excessivamente fechados”.

“(...) A tão proclamada distensão política brasileira teve início ali. Mas partiu de Washington, bem antes de surgir nas mentes dos supostos magos de Brasília”.

Certos fatos reais dão sustentação a essa reflexão do ficcionista.

Cuba, sem apoio da União Soviética e sufocada pelo embargo americano, já não oferecia perigo e o golpe no Chile, contra Allende, eliminou o outro foco de subversão antiamericana no continente. Washington mudava a visão geoestratégica.

Em 1978, Jimmy Carter desembarcou por aqui. Geisel o recebeu com uma frieza registrada pela imprensa. O presidente dos EUA respondeu a isso com o desafiador encontro com um grupo de brasileiros influentes onde se destacavam dom Paulo Evaristo Arns, de São Paulo, e Raymundo Faoro, presidente do Conselho Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil.

O cardeal, destemido, denunciava as torturas promovidas pelo regime. O advogado, ator importante na reabertura, mostrava que a ordem jurídica democrática poderia abater o autoritarismo.

No primeiro discurso, Carter botou o dedo na ferida: “Ambas as nações estão recorrendo à energia nuclear (...) e ambos acreditamos que o uso pacífico da energia atômica não é incompatível com a necessidade de evitar a proliferação nuclear”.

A insinuação de Carter foi a picardia que transformou o sigilo do projeto da bomba atômica brasileira em segredo- de polichinelo.

Andante mosso

Flutua e boia
Os petistas ficaram irritados com a revelação do ministro da Defesa, Nelson Jobim, de que votou em José Serra na eleição de 2010.

Ele saiu pela porta larga da amizade para justificar o voto no tucano.

Não foi sincero. Sabe que assinaria a demissão se admitisse a verdade: fez a opção por quem achava ser o melhor candidato.

Jobim serve a Dilma como serviu a FHC.

Flutua com a leveza de pluma e boia com a densidade de rolha.

Efeito demonstração
Anunciam que o Planalto tem pesquisas com resultados que mostram o apoio da população à faxina anticorrupção que Dilma faz no Ministério dos Transportes.

O resultado é óbvio.

No Brasil, fazer essa pergunta ao eleitor equivale a oferecer banana a macaco.

A resposta expressa mais uma velha hipocrisia do que um novo rigor ético.

Ou seja: corruptos são sempre os outros.

Beatífico
Desde que admitiu saber de emendas piratas na Constituição de 1988, Jobim mostra desprezo pelas regras constitucionais.

Espanta a atitude contemplativa dele diante da fogueira que o Exército e a Marinha fizeram com os documentos da repressão política na ditadura:

“Disseram que não havia mais nenhum documento. Haviam sido incinerados há muito tempo”.

Disseram no ouvido de Jobim ou informaram oficialmente esse crime?

Bastou ao ministro a informação de que a exigência do “termo de incineração” trata apenas de papéis sigilosos. Seria essa mesmo a classificação do que foi para a fogueira e que hoje ajuda a proteger a identidade de torturadores?

Efeito prático
Pesquisa Vox Populi, do início de julho, antes da faxina no Dnit, indicava uma aprovação do governo Dilma, nos níveis “ótimo e “bom”, de 45%.

Ela fechou o primeiro semestre do governo com o mesmo porcentual, também no primeiro semestre, do primeiro governo Lula.

Cheiro de pólvora
O PT carioca não abre mão do acordo eleitoral feito com o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes, ambos do PMDB.

Adilson Pires, petista, líder do governo na Câmara de Vereadores, é o nome que vem sendo trabalhado pela ala mais influente do PT na capital.

A ênfase que os petistas põem na palavra “acordo” deixa a impressão de que esperam reação dos aliados.

Tocata e fuga
A delegação de Camarões deu trabalho aos organizadores dos jogos mundiais militares realizados no Rio de Janeiro.

Nos primeiros dias, houve desmentido formal sobre suposto assédio sexual de dois atletas a uma camareira. Tudo não teria passado de um “mal-entendido”.

Nada foi informado, no entanto, sobre o tamanho do mal-entendido.

Nos últimos dias, um pugilista desertou.

Deserção é um crime político para o qual não cabe extradição.

Ex-favelas
A prefeitura do Rio de Janeiro encontrou um meio eficiente e rápido de resolver o problema das favelas.

Em apenas um ano, de agosto de 2010 a agosto de 2011, a cidade deixou de ter 438 favelas. Baixou de 1.020 para 582, conforme registra o jornal virtual Maré de Notícias feito na, ainda existente, Favela da Maré.

Mas tudo não passa de um truque de nomenclatura.

Por critério das autoridades municipais essas favelas deixaram de existir por possuírem certos serviços básicos similares a outros bairros da cidade.

Oficialmente, passaram a ser chamadas de “comunidades urbanizadas”.

Bandalha fardada
O Inquérito Policial Militar (IPM) que apurou irregularidades nos contratos entre o trepidante Departamento de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e o Instituto Militar de Engenharia (IME) ainda está em fase de análise da documentação.

Em decorrência desse IPM, do 2º Ofício da Procuradoria de Justiça Militar no Rio de Janeiro, outras investigações foram deflagradas.

A mais importante delas há 30 dias queima as mãos da procuradora-geral do Ministério Público Militar Cláudia Luz, em Brasília, a única apta a denunciar generais.

E há três deles sob investigação.

Entre os acusados de patente mais baixa (há seis denunciados)as coisas andam com mais rapidez. Já foi deferido pela Justiça Militar o sequestro de bens de alguns. Entre eles, um coronel que, embora seja da Intendência, tem o hábito do pessoal da Cavalaria do Exército: gosta de cavalos.

Só que pertencem ao coronel que é sócio da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga.

Os cavalinhos, por desconhecimento do promotor, não estão entre os bens sequestrados.

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