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Política

Eleições 2014

As empresas já ganharam as eleições

por Piero Locatelli — publicado 10/09/2014 04h34, última modificação 10/09/2014 09h03
Não importa o candidato à Presidência que tiver mais votos: algumas companhias garantiram a sua vitória em outubro
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Montagem Presidentes

Marina, Aécio e Dilma: mesmos financiadores

A um mês do primeiro turno, alguns vencedores da eleição deste ano estão definidos. Estes ganhadores são empresas que já garantiram seu poder nos próximos quatro anos, independentemente de quem lidera as apurações e sairá vencedor das urnas em outubro. A estratégia delas é pulverizar doações para diferentes candidatos. Desta forma, terão com o político eleito uma relação de "altruísmo recíproco", na prática tornando o eleito, não importa quem seja, um "devedor" da empresa.

Até agora, o frigorífico JBS e as construtoras OAS e Andrade Gutierrez são os principais doadores das eleições deste ano. No total, investiram 64 milhões de reais – ou seja, quase quarenta por cento do recebido por Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (PSB) por meio de seus comitês.

Os dados ainda são incompletos. Eles se referem aos dois primeiros meses da campanha, e a maior parte das doações acontece no período final da campanha, quando os gastos também aumentam. Se for mantido o padrão das últimas eleições, esta concentração só deve piorar.

Nas últimas eleições gerais, a construtora Camargo Corrêa financiou diretamente 133 candidatos e outros 50 comitês, que espalham o dinheiro para outros candidatos. O espectro ideológico da sua bancada era abrangente, com políticos que iam do PC do B ao DEM. Desta forma, os 100,45 milhões de reais investidos pela empresa poderiam bancar a campanha de todo o Congresso Nacional.

A disputa presidencial também seguia lógica semelhante. Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) tiveram 78 doadores em comum, responsáveis por quase 70% do valor arrecadado por ambos. No segundo turno, o eleitor podia escolher entre os dois candidatos, mas as empresas vencedoras eram as mesmas.

Naquele ano, o ex-bilionário Eike Batista resumiu a postura do empresariado com uma transparência rara entre os seus pares. Ele havia doado aos três primeiros colocados na eleição presidencial: um milhão de reais para Dilma, outro para Serra e meio para Marina, então no PV. Em entrevista ao programa Roda Viva, Eike explicou que não poderia deixar seus projetos “atrasarem por razões políticas”. Os projetos de Eike estancaram, mas ‘razões políticas’ não parecem ter sido o motivo.

Acabar com este poder excessivo de empresários como Eike no pleito se tornou um objetivo de diversas entidades. Movimentos sociais fizeram, na última semana, um "plebiscito popular" pedindo uma reforma política que possa rever a forma como as eleições são organizadas e financiadas. A OAB, a CNBB e outros grupos têm uma proposta para acabar com o financiamento privado.

O presidente da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coelho, diz que este financiamento perpetua um problema nacional. Para ele, o princípio de “um homem, um voto” nunca valeu plenamente no Brasil. As regras atuais, que estabelecem o limite de dois por cento da renda anual de uma empresa, não parecem suficientes para equilibrar as eleições.

O caminho mais próximo para mudar este quadro é o Supremo Tribunal Federal. Seis ministros já votaram favoravelmente à proibição de doações por empresas, em uma ação direta de inconstitucionalidade feita pela própria OAB. Até o STF retomar este objeto, porém, o eleitor segue sem muita opção.