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Eleições 2014

Quem está disputando a eleição?

por Bruno Wilhelm Speck e Maíra Kubík Mano — publicado 04/09/2014 12h26, última modificação 04/09/2014 12h27
Pela primeira vez, cotas de 30% de mulheres para cargos proporcionais federal e estadual são cumpridas; população preta está ligeiramente sobrerrepresentada
José Cruz / Agência Brasil
Movimento negro

Manifestantes durante a 2ª Marcha Internacional Contra o Genocídio do Povo Negro, realizada em 22 de agosto. Há uma leve sobrerrepresentação dos negros entre os candidatos

Em quem votam os mais jovens e as mulheres? E a região Nordeste? Na disputa acirrada por cargos, as intenções do eleitorado são objeto de análises, especulações e cálculos políticos. São capazes da mudar discursos e programas. Pouco se fala, porém, do outro lado da moeda: o perfil das candidaturas. Afinal, quem está se apresentando para dirigir o país?

Em 2014, a maioria dos candidatos é homem. Até aí, nenhuma novidade. Mas pela primeira vez, o número de candidaturas de mulheres superou os 30% previsto pela lei de cotas (lei 9.504/1997) para os cargos proporcionais de federal e estadual. Houve um salto significativo: enquanto esse ano as candidatas a deputada federal são 32%, no pleito anterior, em 2010, elas somavam 22,1% do total. Nos cargos majoritários, no entanto, onde não há lei de cotas, a desproporção continua mais exacerbada: as mulheres são apenas 17% das candidaturas a governos estaduais e 20% ao Senado, ainda que sejam 51% da população brasileira.

Outro dado inédito é o da raça dos/as candidato/as, informação que antes não constava na relação do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O resultado é o que já se intuía: a maioria é branca. São 55% do total de 25.366 inscrito, sete pontos percentuais acima da participação dos brancos na população total.

Porém, quando essas estatísticas são cruzadas com a auto-declaração do Censo 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), temos um número surpreendente: há uma ligeira sobre-representação de pessoas de cor preta

Abaixo, a distribuição dos candidatos por sexo:

Abaixo, a distribuição dos candidatos por "raça":

Em todos os cargos analisados – deputado federal, estadual, governador e senador – a porcentagem de candidatos auto-declarados pretos supera à sua porcentagem total na população. Uma hipótese inicial, e que mereceria investigação, seria que as pessoas estariam mais propensas a se declararem pretas para a concorrência eleitoral do que para o Censo.

É interessante notar também a cor quando analisada em relação ao gênero: a proporção entre homens e mulheres praticamente se mantém, mas há uma prevalência de candidaturas de homens brancos em relação às mulheres brancas enquanto as candidaturas de mulheres pardas e pretas são proporcionalmente superiores em relação aos homens pardos e pretos.

Ao analisar a participação dos candidatos não brancos entre o total de candidatos a  deputado estadual  e federal, temos resultados também curiosos: PMDB, PTB, PSDB e PSD são os partidos com menor participação de candidatos não brancos. Somente partidos pequenos – de variadas orientações ideológicas – tem uma proporção de candidatos negros, pardos, amarelos e indígenas acima da média da população.

Em relação à idade, a maioria das candidaturas fica na faixa de 41 a 60 anos.  O número era esperado, uma vez que a idade mínima para candidatura aos cargos proporcionais é 21 anos e aos majoritários, 35 anos:

Por outro lado, quando a conta é feita levando em consideração o gênero, as estatísticas mudam de figura. As mulheres que estão concorrendo são majoritariamente mais jovens que os homens, como já aconteceu em eleições anteriores. Talvez isto ocorra porque para as gerações mais velhas predomina o sujeito masculino como hegemônico na política institucional e as mulheres destas faixas etárias se apresentem menos.

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Em relação ao Estado Civil, a ampla maioria dos candidatos é casada, numa proporção maior que na população geral. O número deve-se, possivelmente, à idade dos/das candidatos/as:

Novamente, quando o critério é gênero, os números ganham outro significado. As mulheres solteiras, desquitadas e viúvas aparecem em maior proporção, como aconteceu também em 2010.

Em certa medida, esses dados estão relacionados à distorção causada pela idade: há muitas mulheres jovens concorrendo, o que diminui o número de casadas. Porém, isso não explica tudo. Como demonstram estudos anteriores, parte das mulheres candidatas e eleitas não têm a solidariedade de companheiros e maridos para participar da vida pública, reforçando o estigma de que a política é um dos espaços mais inacessíveis em termo de igualdade de gênero.

Por outro lado, os homens são na maioria casados. No âmbito da divisão sexual do trabalho, enquanto as mulheres ficam incumbidas das tarefas de cuidados domésticos e com a família, acumuladas também com o trabalho fora de casa, eles têm mais tempo e condições para dedicar-se à política institucional.

Por fim, sobre a instrução dos candidatos, vemos que prevalece aqueles com curso superior completo. É interessante notar que isso significa um afastamento da média da população – 50,2% não têm instrução ou tem o ensino fundamental incompleto:

Já em relação ao gênero, os homens prevalecem com ensino superior completo, enquanto as mulheres são proporcionalmente superiores no ensino médio completo ou superior incompleto. É um outro dado significativo uma vez que as mulheres superaram há alguns anos os homens no ensino superior em geral (Censo da Educação Superior 2009) e, no entanto, isso não se reflete no perfil dos concorrentes eleitorais.

Apesar de alguns números mais animadores, como os mais de 30% de mulheres candidatas,  podemos concluir rapidamente que o que prevalece como perfil de candidato é o homem, branco, casado, de meia idade e com instrução.

Ao mesmo tempo, as duas candidaturas à Presidência da República com maior intenção de voto são de mulheres: Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB), esta última “negra e de origem pobre”, como ela mesma se define.

A questão é, então, quem conseguirá se eleger. As campanhas dos homens, brancos, casados, de meia idade e com instrução costumam ter mais destaque,  financiamento e apoio dos partidos. E a proporção de mulheres, pretos/as e pardos/as corre o risco de permanecer semelhante ao que já temos, muito abaixo de sua porcentagem na população.

*Bruno Wilhelm Speck é professor do Departamento de Ciência Política da USP; Maíra Kubík Mano é doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp, jornalista e blogueira da CartaCapital.

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