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Que tal um Nuremberg brasileiro?

por Leonardo Calvano — publicado 23/11/2010 11h35, última modificação 23/11/2010 12h52
Os porões argentinos, assim como os chilenos, foram mais cruéis que os brasileiros, ainda mais se levarmos em consideração o número de mortos por aqui.

A Folha de S.Paulo obteve a liberação de todo o processo da ditadura contra a presidente eleita Dilma, junto ao Superior Tribunal Militar (STM), após algumas tentativas frustradas no auge das eleições presidenciais deste ano. A “grande vitória de toda a sociedade”, como mencionou a advogada do jornal, poderia ser completa se, como aconteceu em países que viveram também os anos de chumbo, todos os arquivos fossem abertos e os envolvidos (aqueles que ainda estão vivos) em torturas e assassinatos fossem julgados e condenados.

Tomo como exemplo um julgamento que acabou na condenação dos responsáveis por um dos maiores genocídios já ocorridos na América do Sul, que ficou conhecido como “El Nuremberg Argentino”. Entre 1976 e 1983, estima-se que pelo menos 30 mil pessoas morreram. Internacionalmente, a ditadura argentina e a violação de direitos humanos, contou com o apoio ativo do governo dos Estados Unidos (salvo durante a administração de James Carter) e a tolerância dos países europeus e da Igreja Católica.

O julgamento aos integrantes das Juntas que comandavam o país teve as mesmas necessidades morais de Nuremberg, mas foi superior do ponto de vista jurídico: foi a primeira vez que tribunais civis julgaram pessoas que detiveram o poder. Isso foi possível graças a uma decisão política do então presidente Raúl Alfonsín. Lá, os militares foram condenados por delitos comuns – aplicando para isso o Código Civil – como sequestros, roubos e assassinatos.

Os porões argentinos, assim como os chileno, foram mais cruéis que os brasileiros, ainda mais se levarmos em consideração o número de mortos por aqui (acredita-se que em torno de 3 mil). O Chile de Salvador Allende, que festejava uma reforma social jamais vista em países ditos do 3º mundo, os mortos foram 35 mil, inclusive o próprio presidente, morto no dia 11 de setembro de 1973, após um ataque aéreo ao Palácio de La Moneda.

Assistam no curta 11’9″01 a brilhante relação que o cineasta britânico Ken Loach fez entre o 11 de setembro chileno e o norte-americano

Lá, o general Augusto Pinochet, que comandou o Chile com mão de ferro entre 1973 e 1990, só não foi condenado porque morreu antes do julgamento, ironicamente no Dia Internacional dos Direitos Humanos, em 10 de dezembro de 2006. Direitos que ele violou constantemente durante 17 anos.

Aqueles que lutavam pela democracia pagaram com a vida e a integridade física, infelizmente, e isso já os absolvem de qualquer possibilidade de julgamento. Mas o estado foi conivente com aqueles que tinham o poder e, em qualquer tribunal de guerra, já que a alegação era que “estávamos numa guerra contra a subversão”, eles teriam que ser condenados, como prevê a Convenção de Genebra.

O fato de praças, parques, ruas e avenidas levarem o nome de alguns destes antagonistas do período mais triste da nossa história me passa a impressão de que tudo já foi esquecido. Não podemos tolerar, temos que ter a certeza que as próximas gerações estarão protegidas de qualquer possibilidade de que isso aconteça novamente.

Por que não fazer como o presidente argentino Nestor Kirchner (morto recentemente) que retirou das paredes do Colégio Militar todos os retratos de algozes militares? E como disse um grande amigo meu: quem sabe um dia isso se repita aqui!

Fica a dica:

Raymundo
A vida do braço cinematográfico da esquerda argentina Raymundo Gleyzer, que desapareceu em Buenos Aires em 1976, está neste documentário.

Curiosidade: o cineasta rodava o seu segundo filme no semiárido brasileiro, La Tierra Quema, durante o golpe militar no Brasil, em 1964, e teve que sair clandestinamente do nosso País.

A Batalha do Chile – 2ª parte: O Golpe de Estado
O filme que conta fatos que antecederam o golpe contra o governo de Salvador Allende foi considerado um dos melhores documentários já realizados na América Latina por várias publicações especializadas nos EUA e Europa.

Ele pode ser assistido na 5ª Mostra de Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, que termina nesta quinta-feira (25/11).