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Política

37º Encontro Nacional da Anpocs

Protestos foram uma resposta ao 'peemedebismo' da política

por Matheus Pichonelli publicado 27/09/2013 09h21, última modificação 27/09/2013 09h39
Para o filósofo Marcos Nobre, governantes privilegiaram a supermaioria parlamentar, ignoraram as reformas e criaram as condições para as revoltas
Agência Brasil
Renan Calheiros

Em vez de reformas, governo optou pelo 'peemedebismo', diz filósofo. Na foto, o presidente do Senado, Renan Calheiros, aliado dos governos Collor, FHC, Lula e Dilma

Durante a sua exposição no debate sobre os protestos de junho, no último dia do 37º Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em Águas de Lindoia (SP), o filósofo Marcos Nobre, pesquisador o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), traçou um panorama da história política recente do País para explicar a origem das mobilizações que tomaram as ruas do País. Segundo ele, a revolta de junho revelou um “descompasso flagrante” entre a cultura política do sistema de representação e a base da sociedade. “Esse descompasso significa que há uma democracia que não pode se reduzir ao sistema político, muito menos à eleição. A democracia é muito mais do que isso.”

Participaram do debate o cientista político Marco Aurélio Nogueira, professor de titular de teoria política da Unesp, o sociólogo Marcelo Ridenti, professor titular da Unicamp, e a militante do Movimento Passe Livre (MPL) Mariana Toledo.

Segundo Nobre, o descompasso é explicado pelo “mito da governabilidade”, criado a partir do impeachment de Fernando Collor de Mello, segundo o qual, para governar, é preciso abrir concessões por atacado para formar uma “supermaioria parlamentar”. Esse modo de operar, chamado por ele de “peemedebismo”, marcou os governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso e blindou o sistema político em relação à sociedade civil organizada. “A mensagem era: ‘se é impossível reformar o sistema político para fazer alguma coisa para a nação, é necessário ao menos dirigir esse sistema político’. O governo FHC foi uma combinação da necessidade de adaptar o país a uma nova situação do capitalismo internacional e manter o sistema político como foi herdado. Como? Fazendo um cordão sanitário no BNDES, no Ministério da Fazenda, da Educação, eventualmente da Saúde, na qual a cultura política do sistema político não pode entrar com tudo, e negociando por atacado (com outros partidos para ocupar os outros cargos).”

No inicio do governo Lula, o governo de minoria foi ameaçado de impeachment, em 2005, devido ao escândalo do “mensalão”. Isso, segundo Nobre, levou o PT a fazer um pacto com o sistema político tal como ele funcionava. “Lula tinha duas opções. Uma, a reforma do sistema. Outra, o combate à desigualdade. Em 2005, o que o governo Lula disse à sociedade política organizada foi: ‘não dá pra fazer as duas coisas’. Se quisesse combater as desigualdades, teria de fazer um pacto.”

Fora desse sistema, a sociedade organizada acompanhou a expansão da internet e detonou o monopólio de informação por parte da mídia tradicional. “Com isso, você tem a possibilidade de discutir. E isso vai direto para as ruas, onde os manifestantes vão dizer: ‘eu tenho emprego, mas ele é uma porcaria’.” Para Marcos Nobre, os protestos de junho são o final de um longo processo de transição democrática que tem como base o ‘peemedebismo’ e a blindagem ao sistema político a partir de 92.

“Os protestos de junho são uma resposta a essa blindagem. Deixou clara a exigência de uma mudança radical do sistema político e mostrou que há um descompasso entre a maneira como o sistema político funciona e a maneira como a sociedade está se autocompreendendo. Isso significa que o sistema político vai se reformar radicalmente? Espero que sim. Já? Não. Por isso é importante dizer o que aconteceu depois de junho.”

Em sua exposição, o sociólogo Marcelo Ridenti citou o acesso da juventude à universidade e aos meios digitais nos últimos anos para dizer que “está se gestando uma realidade nova no Brasil, com desejo forte de democratização”. Ao mesmo tempo, afirmou o professor, cresceu o descontentamento com a desumanização das cidades, com serviços de educação, transporte e moradia precários.

“Os protestos foram o movimento de uma juventude escolarizada que trabalha e têm dúvidas sobre as suas possibilidades de ascensão. Muitos trabalham o dia inteiro, estudam, e enfrentam uma condição terrível para se locomover nas cidades. Têm uma mistura de desejo de reconhecimento e realização para se colocar na sociedade brasileira pela integração com o consumo. E deixaram uma mensagem: ‘queremos uma melhor gestão para a aplicação do fundo público, não para financiar a Copa do Mundo, mas os interesses públicos’.”

Segundo o professor, as manifestações ganharam proporção cada vez maior a partir da revolta “contra a polícia e os mecanismos de repressão, incompatíveis com a democracia”.

Mariana Toledo, do MPL, se opôs à ideia de que o apoio popular ao movimento aconteceu em razão da truculência da polícia. Ela citou a violência cotidiana nas periferias e disse que a revolta antes estava apenas invisível. Toledo criticou o processo de heroicização do movimento por parte da mídia que antes os chamavam de “vândalos”, mas destacou: a agenda dos protestos é permanente, mas os movimentos sociais, mesmo após a visibilidade de junho, seguem criminalizados pelo Estado e por parte da mídia.