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Profanação do evangelho por pastores

por Coluna do Leitor — publicado 11/11/2010 16h24, última modificação 11/11/2010 16h31
O leitor Elias Botelho escreve como a disputa eleitoral marcou a desvirtuação da religião em detrimento do poder estatal

O leitor Elias Botelho escreve como a disputa eleitoral marcou a desvirtuação da religião em detrimento do poder estatal

A corrida eleitoral à presidência da República chegou ao final, mas vai deixar seqüelas em muitas instituições sociais. A mídia, por exemplo, vai acabar por entender que existe um paradoxo entre o que pensa a imensa maioria da população e o que pretende incutir na sociedade. Noutra ponta, os evangélicos estão tentando marcar posição de uma vez por todas no poder estatal, sem um certo equilíbrio, alguns líderes evangélicos vão além e mostram a outra face da moeda.

Em recente texto que escrevi, falei da satanização de candidaturas e a interferência religiosa no processo eleitoral. E nos dias que antecederam ao final dessa turbulenta campanha, surgiram fatos que demonstram como a fé das pessoas servem para sustentar vaidades de homens que se intitulam pregadores de Deus. São pastores com feições de boa reputação que usam seus púlpitos para falar não só de Deus, mas de si mesmos e de recalques oriundos, talvez, de frustrações.

Por essas palavras, valho-me de vídeos no Youtube que mostram declarações de pastores evangélicos alfinetando uns aos outros. Num desses vídeos ouve-se o irreverente pregador Silas Malafaia num culto de sua igreja tentando justificar porque não votaria na candidata Marina Silva (seis dias antes das eleições). Numa linguagem intimidadora, ele vai apontando os motivos pelos quais mudou de posição. Segundo ele, a senadora estava enrolando os evangélicos por ter engavetado um projeto de Lei nº. 2865/2008, de autoria do deputado federal Filipe Pereira. Tal projeto versa sobre a inclusão de um exemplar da bíblia em cada biblioteca pública do Brasil.

Noutra parte do discurso, maltrata a então candidata com ironias recheadas de discriminação, afirmando que ela estava em cima do muro sobre a liberação da maconha e do aborto. Não sabia se agradava os crentes ou os libertinos. Não sabia se estava verde... porque, por enquanto, estava igual abóbora, “vai apodrecer”! O que pretendia, segundo Silas, em outras palavras, era enrolar os crentes até passar o período eleitoral. Isso, ele dizia com ar de certeza absoluta. Quem assiste ao vídeo se impressiona com suas eloqüentes afirmações que não coadunam em nada com preceitos religiosos.

Na mesma trilha, convidado a comentar sobre a repentina mudança de opinião de Malafaia com relação ao seu voto à Marina da Silva, o pastor Caio Fábio, (www.vemevetv.com.br) espanta a todos com declarações e revelações bombásticas. Começa dizendo que Silas é safado, venal e que seu negócio é dinheiro. Quem acredita nele são esses alienados, e, que confia mais num “bicheiro” do que no Silas. Continua: - "enquanto você não se converter, vai chamando juízo sobre si, e hoje, você chamou juízo bravo". Acrescenta: - "o Silas não conhece a Deus... Aprendeu a papagaiar o evangelho, mas não tem nenhum temor a Deus." E termina: - "Quantas vezes você mudou de opinião na vida por causa de grana. Frouxo, covarde, mentiroso, oportunista."

Foram tantas palavras proferidas pelo notório pastor que causa perplexidade a qualquer cristão. Ele que nos anos 80 e 90, foi pioneiro ao apresentar programas na TV, voltados ao público evangélico. Assim, sendo verdade tudo que foi dito, estamos diante da manipulação da crença alimentada por um pseudo "crente", que faz da fé, sua plataforma de interesses negociais.

Por sua vez, o acusado se defende em outro vídeo ao mesmo tempo em que acusa seu oponente. - "... colocaram na internet. Quem colocou? Um filho do capeta, um diabo em forma de gente que ninguém conhece e, o crente passa acreditar mais no filho do inferno do que na vida de um pastor." Emenda - ... outro caído ( Caio Fábio), um lascado que já foi um dos maiores pastores do Brasil e hoje está falido..." E muitas outras coisas de natureza grave.

Nesse ardor de acusações, só vem demonstrar que há algo errado. Vejo que seria um despropósito e irresponsabilidade de alguém com o respaldo de quem já levou milhões de pessoas aos templos em suas conferências mundo afora, rebaixar com palavras a honra de um homem que pastoreia e ocupa uma emissora de televisão para pregar aos cristãos. Não quero acreditar que ambos mentem ou falam a verdade em tudo, pois de um modo ou de outro, há de saber em que mundo "clerical" estamos vivendo. O mundo em busca da salvação de nossas almas ou a enganação protegida por um manto que tem no seu verso ou anverso, a fé em Deus?

Embates como esses ocorreram em alguns Estados da Federação, como por exemplo, no Espírito Santo, entre um Bispo católico e pastores evangélicos. Enquanto o bispo defendia a Rita Camata, aliada da fé católica, o senador-pastor, Magno Malta alfinetava em seu programa eleitoral gratuito, numa espécie de cruzada contra a pedofilia. Tudo isso gerou incômodos nas duas "correntes" Religiosas. Bom para quem? Para os que profanam o evangelho? Para o Estado de libertinos ou para os ímpios?

Elias Botelho é advogado e escritor

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