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Política

Delfim e Belluzzo

‘Problema cambial hoje é mais difícil’

por Sergio Lirio publicado 20/08/2011 09h30, última modificação 06/06/2015 18h57
Em diálogo promovido por CartaCapital, os dois economistas discutem o momento econômico do Brasil frente à crise mundial

Nem todos os países emergentes serão capazes de reproduzir modelo exportador. Eficiência das empresas privatizadas é micro, não macro. Não há razão para o Brasil não ter uma taxa real de juros de 2,5% ao ano. Leia essas e outras análises feitas durante encontro promovido por Carta Capital entre Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo. Esta é a terceira e última parte da conversa entre ambos. Leia também a e a partes.

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CartaCapital: E o Brasil no meio de tudo isso?
Delfim Netto: Temos uma política bastante razoável. Acho que o governo tem a clara noção de que estamos em um ambiente hostil e que precisamos providenciar um crescimento nosso. Existe recurso, tecnologia e imaginação. Parece existir a compreensão clara de que não podemos continuar com um modelo agromineral exportador. Vamos continuar a aproveitar nossas vantagens, mas elas precisam ser revertidas para a construção de um desenvolvimento apoiado no mercado interno.

Luiz Gonzaga Belluzzo: Temos de seguir o exemplo dos Estados Unidos do fim do século XIX, início do XX, que era exportador de alimentos e matéria-prima e construiu sua industrialização.

DN: Aliás, o Brasil de hoje tem a população dos Estados Unidos dos anos 1970 e a renda dos anos 1930. Possui, portanto, um mercado interno com condições de se autoalimentar e continuar a funcionar, obviamente usando o setor externo como complemento.

LGB: Não podemos imaginar que nos próximos anos todos os países emergentes serão capazes de reproduzir o modelo puxado pela exportação. Temos de usar a política cambial para proteger a indústria e garantir o seu desenvolvimento. Esse modelo agroexportador é fundamental para nos prover de recursos de moedas estrangeiras suficientes para que possamos desenvolver o mercado interno. Temos de subir a participação do investimento público. No fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, a participação do investimento público no PIB era de 11%. Havia uma sinergia importante, incluindo as estatais. Foi o nosso liberal Roberto Campos quem deu fôlego para as empresas públicas investirem. Criou-se um modelo em que o investimento das estatais coordenava o investimento privado.

DN: É que, antes de ser liberal, o Roberto Campos era inteligente (risos). É muito simples. Quando crescíamos a 7,5% durante 30 anos, a carga tributária estava em torno de 24% e o Estado investia 5% do PIB. Hoje temos uma carga tributária de 36% e a União investe 1,5%. O sistema está sendo reconstruído e muito mais eficiente, porque as privatizações trouxeram eficiência para várias empresas, que hoje são muito mais competitivas do que eram. O problema todo é que a coordenação do Estado é fundamental.

LGB: Eficiência do ponto-de-vista micro, mas do macro não, porque as estatais investiam na frente da demanda, sobretudo no setor elétrico.

DN: Porque no nosso sistema era de poupança forçada, que foi devolvida. Emitíamos debêntures e as pagávamos, não era um truque de manipulação simplesmente.

CC: O tema energia é interessante. Temos uma clara vantagem comparativa, mas nossa energia é uma das mais caras do mundo hoje.

DN: Está tudo errado. Era muito mais fácil colocar impostos sobre a energia do que ter que montar um sistema tributário mais inteligente. Os estados e a União têm 13 taxas sobre a energia elétrica, da última vez que contei. É um escândalo. No mais, você destruiu os instrumentos de pensar o Brasil para a frente. Há queixas corretíssimas quanto aos excessos e equívocos do regime autoritário, mas uma coisa estava implícita, que era pensar o Brasil ao menos 25 anos para a frente.

LGB: Estou a cavaleiro para falar da ditadura, estava do outro lado. A verdade é que se teve uma continuidade com a ideia de que o desenvolvimento brasileiro precisava de uma coordenação do Estado, suas instituições e do sistema de empresas estatais.

DN: Algumas empresas eram altamente eficientes, como a Telebrás, que ganhou vários prêmios internacionais, inclusive. A privatização do setor siderúrgico foi benéfica, porque havia muita interferência e um modelo como havia não poderia sobreviver em uma democracia. E hoje é um setor ágil, competitivo. Mas não adianta ter ilusão, o Estado tem um papel indutor. O mercado é um instrumento eficientíssimo para fazer o desenvolvimento, só que ele não pensa o desenvolvimento.

CC: Como sair do problema cambial?

LGB: É mais difícil que nos anos 90.

CC: Vocês veem o mesmo risco?

LGB: Não, a capacidade de administrar mudou muito.  Há uma situação fiscal muito mais manejável, as reservas cambiais são maiores. O que não podemos evitar é que, por conta dessa indefinição nos EUA, eles façam outro quantitative easing. Se fizerem, é um caudal que não se consegue segurar.

DN: Não há nenhuma razão para essa taxa de juro real teratológica. Isso é uma invenção, um produto de um instante de grandes dificuldades, quando se passou a financiar a dívida pública inteira em 24 horas. Ainda há hoje 35% dessa dívida financiada pela Selic, um papel de 4 ou 5 anos, e 80% vence no governo Dilma. Esse é o momento realmente para se mudar o mecanismo de financiamento. Temos de aproveitar. Não podemos desperdiçar a chance como fizemos em 2008. Estamos nos aproximando de um instante no qual se pode tomar medidas muito mais fortes para se reduzir o juro e é preciso coragem política. Por quê? Porque vai começar pela caderneta de poupança, que não pode pagar uma taxa de juro real de 6%. Isso é um absurdo. Por que a taxa do fundo de garantia é 3%? Porque naquele tempo éramos tão idiotas que acreditávamos que aquela era a taxa de equilíbrio. A caderneta de poupança vai ter se submeter a um mecanismo de mercado, provavelmente vai ser atrelada à taxa básica. Temos de caminhar para reduzir a dívida selicada para praticamente nada e ir para a taxa de juros fixada pelo mercado. Acho que esse negócio está sendo bem conduzido pelo Guido e pelo Tombini. Isso tem que ser feito com cautela, porque se você se meter a fazer uma coisa dessas, você quebra metade do sistema financeiro. Primeiro você dá o sinal correto, eu vou fazer e vocês têm três anos para sair da sua posição. Mas é necessário que o mercado acredite que será feito. Não há razão para o Brasil não ter uma taxa real de juros de 2,5% ao ano. Essas versões de que a taxa de equilíbrio é 7% ou 8% é pura masturbação intelectual.

LGB: É pura ideologia e defesa de interesses, não tem nada de “científico” nisso. De qualquer forma, o governo tem feito um esforço é importante para construir um sistema privado de financiamento de longo prazo. Não vai ser feito da noite para o dia, mas é fundamental.

DN: É um ponto importante porque será a construção de um mecanismo em que a poupança vai ficar menos dependente da escolha do governo. Isso é fundamental e é o que está acontecendo.

CC: Já seria hora de pensar em redução da taxa de juros?

DN: Não me precipitaria, melhor esperar, as coisas estão acontecendo no mercado mesmo.

LGB: Concordo, não se pode fazer algo precipitado, sobretudo em um momento de incertezas enormes. Eu apostaria que daqui até a eleição nos EUA, o (presidente do Fed, Ben) Bernanke vai fazer o quantitative easing 3 (grande emissão de dólares). Se assim for, o Brasil terá de baixar mais rapidamente a taxa de juros.

DN: Quando ele fizer, teremos de mudar a política. Sabemos o seguinte: não devemos esperar nada do mundo e vamos fazer o que é preciso fazer aqui.

LGB: Não sei se o Delfim concorda, mas o anúncio de que os Estados Unidos irão manter a taxa de juros perto de zero até 2013 já é para mim um sinal de que precisamos responder. As pessoas falam da integração nos mercados financeiros e a nossa situação atual mostra que essa integração, para o bem ou para o mal, funciona. Na minha opinião, mais para o mal. De qualquer maneira, se houver uma ampliação da liquidez internacional, ocorrerá um novo rearranjo dos portifólios. E é claro que o dinheiro será atraído mais por um juro de 12,5% do que por um de 5%.

DN: Temos um sistema financeiro hígido e extremamente eficiente. O mercado de capitais do Brasil está em altíssima qualidade e temos que cooptá-lo e não brigar com ele. O governo age em legítima defesa, contra a sobrevalorização do câmbio, e tem tomado as medidas necessárias.

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