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Ditadura

Prisão que recebeu Stuart Angel virou "Clube do Mickey"

por Marsílea Gombata publicado 30/05/2014 19h27, última modificação 01/06/2014 07h07
Área de lazer na Base Aérea do Galeão é conhecida desde 1982 com o nome que remete ao personagem Disney. Base foi alvo de diligência da Comissão da Verdade
CNV
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O local onde funcionava uma prisão e que depois foi rebatizado como "Clube do Mickey" e que serviria de área de lazer para filhos de oficiais

Reconhecido pelo ex-cabo da Aeronáutica José Bezerra da Silva como o local onde os militantes e militares contrários à ditadura eram detidos e torturados na Base Aérea do Galeão, na Ilha do Governador, no Rio, o chamado presídio subterrâneo onde ficou preso Stuart Angel foi transformado em centro de lazer.

O local, de acordo com Bezerra, foi cimentado e batizado em 1982 como Clube do Mickey. "Eles mascararam o terreno, puseram o gramado e fizeram o Clube do Mickey, uma área de lazer para os filhos de oficiais. Mas criança alguma vai lá, não tem recreação, é algo para inglês ver", afirmou Bezerra sobre o que era antes chamado de prisão do Cisa (Centro de Informações da Aeronáutica).

A informação veio à tona durante diligência feita nesta sexta-feira pela Comissão da Verdade no local.

Militante do MR-8, o filho da estilista Zuzu Angel foi preso em junho de 1971. Apesar de relatos de que tenha passado pela Base Aérea do Galeão e pelo Hospital Central do Exército, seu corpo não foi encontrado até hoje.

Segundo Bezerra, Stuart saiu do presídio subterrâneo, foi levado até a sala do dentista “Dr. Luiz” por causa de um inchaço, um roxo que tinha no rosto. “O Luiz deve ter dado algo para ele continuar aguentando o interrogatório. Ele morreu naquela mesma noite”, lembrou.

Para o ex-militar, que foi considerado subversivo depois de chamar de “covardia” a sessão de tortura à qual Angel era submetido pelas mãos de três militares, transformar o presídio de 13 celas que foi palco de tortura no Clube do Mickey é uma “zombaria”. “Isso é uma fantasia, uma fachada, algo de muito mau caráter das Forças Armadas brasileiras”, protestou. “Em vez de fazerem um trabalho relevante para o Brasil, as Forças Armadas escondem documentos e protegem torturadores.”

Expulso das Forças Armadas, Bezerra hoje trabalha como advogado em defesa de ex-militares que, como ele, foram perseguidos e presos. Sua maior batalha é para que esses sejam considerados anistiados políticos.