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Política

Entrevista com Kassab

Por um Estado forte

por A Sergio Lirio e Soraya Aggege — publicado 11/07/2011 10h00, última modificação 17/07/2011 11h18
O prefeito de São Paulo diz que o PSD não terá uma plataforma liberal, aposta em uma aliança perene com o PSB e prevê uma disputa dura com o PT na eleição municipal de 2012
Por um Estado forte

O prefeito de São Paulo diz que o PSD não terá uma plataforma liberal, aposta em uma aliança perene com o PSB e prevê uma disputa dura com o PT na eleição municipal de 2012. Foto: Edson Lopes Jr/AE

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, desenha o organograma em um pedaço de papel: num canto, o PT, com os partidos alinhados à esquerda. No extremo, aqueles à direita, como o DEM. Com uma flechinha, explica que o PSDB pode estar em transição para a direita. O PSD que ele acaba de criar ocupa o centro. “Fui mal compreendido quando disse que o novo partido não era esquerda, direita, nem centro. Somos centro. Nós queremos fortalecer o papel do Estado e isso não é ser liberal”, explica, em entrevista a CartaCapital.  
Kassab, 51 anos, monta uma estrutura de apoio nacional ao PT, enquanto sonha com sua eleição para o governo paulista em 2014. Mas na capital paulista, antevê uma briga ferrenha com os petistas pela sua sucessão em 2012. Ele conta que apoiaria o ex-governador José Serra, mas considera a hipótese remota e se volta para a base aliada do PSDB, como o PV e o PPS. Kassab tenta montar um cenário diferente para a disputa à Prefeitura: sem o PSDB, ele mesmo polarizaria com o PT em São Paulo. 

Boa parte das suas promessas de campanha não será cumprida, mas Kassab guarda no caixa um superávit recorde, de sete bilhões de reais, que começará a ser liberado às vésperas da largada eleitoral para a sua sucessão. No mínimo, poderá dar um bom “banho de loja” na cidade.  Com a perspectiva de fazer o sucessor e ao lançar o novo partido, já atraiu 40 dos 55 vereadores paulistanos, aprovando todos os seus projetos, inclusive os estratégicos, como uma isenção de 536 milhões de reais ao Corinthians, que viabilizará um estádio para a maior torcida do Estado, e a construção de um novo caminho rumo ao Litoral Sul. 

Kassab também enfrenta problemas, principalmente no Ministério Público do Estado. O MPE o acusa de improbidade administrativa, alegando que ele cede irregularmente a área pública onde fica parte do Estádio do Canindé, da Portuguesa. O prejuízo público é estimado em quase dez milhões de reais. O megaumento salarial que conseguiu aprovar na Câmara, de 12 mil reais para 24 mil reais, também entrou na mira dos promotores. 

CartaCapital: A aprovação da lei que está sendo chamada de anti-PSD no Senado atrapalhará seus planos?
Gilberto Kassab:
Essa aprovação foi em uma comissão e já não é mais terminativa, porque tem um recurso que joga (o caso) para o Plenário. Depois ainda precisará ir para a Câmara, onde deve ficar por uns seis meses e o PSD em duas ou três semanas estará criado. 

 CC: Era realmente necessário o senhor criar um partido?
GK:
Juridicamente era a única saída. Alguém com um mandato, e eu sou prefeito de São Paulo, só pode mudar de partido para fazer um novo partido. 

CC: Ficou famosa a sua frase de que o PSD não seria nem de direita, nem de esquerda, nem de centro. É isso mesmo? Que parte da sociedade a nova legenda pretende representar?
GK:
Os adversários trataram à época de forma maldosa esta declaração, tanto que hoje ninguém mais a cita. Quando fiz essa afirmação, o partido ainda não possuía um programa. Não quis me portar como um coronel, dono, para dizer se o programa de um partido ainda em formação seria de uma maneira ou de outra. Posso dizer, porém, que há um denominador comum entre as pessoas que aderiram ao PSD. Todos entendem que, nos dias de hoje, o Estado tem de ter uma presença muito forte na saúde e na educação, portanto no campo social. Aumentou a demanda de serviços do Estado, em especial nestas áreas. Há uma classe média a exigir uma educação de qualidade, um ensino público de qualidade. Um dos pontos principais a serem encampados pelo partido será a defesa intransigente de mais recursos e mais qualidade para a educação e saúde pública, associado a investimentos de qualidade na prestação de serviços na área da justiça e da segurança. E ao lado dessa presença forte do Estado, uma defesa intransigente das liberdades, individuais e de imprensa, guardiãs da democracia. 

CC: O PSD será um partido de direita ou de esquerda?
GK:
De centro. Não podemos ser considerados liberais, por exemplo, porque defenderemos um Estado forte, em especial em algumas áreas fundamentais e que envolvem uma participação orçamentária grande. Um partido com visão liberal defende um Estado mais leve. 

CC: O que diferencia o PSD do PT e do PSDB?
GK: Todos esses partidos têm programas, mas qual os cumpre? Então vamos fazer um programa, mas vamos construir com as bases e o partido vai ter essa posição muito clara em relação a essa militância, aos seus parlamentares. 

CC: Qual tem sido o erro da oposição?
GK:
Até então, não sei daqui para frente, é a posição intransigente de ficar contra tudo e todos. Isso significa que estavam contra o país, jamais preconizei que fosse um comportamento de situação. É possível ser oposição, mas contribuindo, cooperando, sugerindo, apoiando em alguns casos. Não é possível que o governo erre sempre. O DEM sempre foi muito intransigente, radical. 

CC: O senhor consideraria o DEM à direita?
GK:
Eu não, os próprios líderes, semana passada, o Demóstenes (Torres) deixou claro que é um partido de direita. Não sou de direita, mas o DEM é. 

 CC: Por que é tão difícil para um político no Brasil assumir que é de direita?
GK: Porque devem ser poucos. O próprio líder do Senado reconheceu, na semana passada, que tem que ser uma pessoa de direita, conservadora, e que assim quer que o DEM se comporte. Respeito, porque na democracia há espaço para todas as tendências. Não é a minha, mas não é possível que em um país com a dimensão do Brasil não tenha um partido de direita. Não é o meu partido, mas o DEM cada vez mais, ao lado do PP, talvez do PTB, se notabiliza com de direita, centro-direita. Mas isso é positivo para a democracia. 

CC: É perigoso perder voto assumindo que é de direita?
GK:
Acho que não. Quem é de direita vai receber votos de quem é de direita. Tem países que a direita ganhou a eleição, no meu caso específico, não participaria de um partido de direita porque não sou de direita. Mas cada um deve participar de um partido que tenha ideias e programas em que acredita.

CC: O voto do senhor em São Paulo não é de direita, ou pelo menos um voto antitrabalhista?
GK:
Não, se pegarmos a minha eleição de prefeito, avancei na periferia, nas classes trabalhadoras, como ninguém avançou em qualquer outra candidatura que não fosse o PT nos últimos 30 anos. O meu voto é muito consolidado e cresceu nessas regiões. E  tem o voto também do formador de opinião. Isso ficou muito forte e claro nessa região central, nas universidades, que foi muito presente, com regiões onde teve 80%. Na periferia da cidade nunca teve uma votação tão expressiva diante de um candidato do PT como foi a nossa, até por conta da nossa ação que é voltada para a classe trabalhadora. Hoje, temos no Brasil a Prefeitura de São Paulo que mais investe em saúde e educação, que é justamente para essa camada. 

CC: Quando o senhor fala na defesa das liberdades individuais isso inclui, por exemplo, o apoio à união civil dos homossexuais?
GK:
Não posso falar pelo partido porque o programa ainda não existe. Posso falar em termos pessoais: eu defendo a união civil. E acho que o partido também irá defender, não tem sentido não ser assim. 

CC: Qual a diferença do Kassab do DEM e do Kassab do PSD? 
GK: O Kassab é o mesmo, o partido é diferente. A partir de um determinado momento, passei a sentir um desconforto no DEM por suas posições. Hoje, em um mundo complexo e em um país complexo como o Brasil, não tem sentido após as eleições você não contribuir para o sucesso de um governo, mesmo na oposição. O estado de espírito do quanto pior melhor não é o meu. Infelizmente, parte importante do DEM teve e tem esse comportamento. Veja a minha relação como prefeito e pessoal com o governo federal, com o presidente Lula, a cooperação intensa do governo federal conosco e da prefeitura com o governo federal, são diversas parcerias. Trabalho pelo êxito do governo. Sou brasileiro, ele foi eleito. Quando veio a campanha eleitoral, ninguém foi mais leal ao José Serra do que eu. São coisas distintas. Como cidadão, tinha obrigação de apoiar o presidente Lula. E hoje, como cidadão, brasileiro e também prefeito, me sinto na obrigação e motivado para ajudar a presidenta Dilma. Por quê? Porque ela foi eleita. O DEM não tinha essa postura. Para eles, qualquer projeto do governo federal é ruim. Será mesmo? Não dá para aprovar nenhum? 
 CC: O PSD vai ter candidato próprio à sua sucessão no ano que vem?
GK:
Vamos participar de uma aliança que terá um candidato. Ele poderá ser do PSD ou não. Mas vamos ter um candidato que represente o governo.  É muito difícil para uma administração não ter um candidato que o represente depois de oito anos. Até porque é um governo bem sucedido. O nosso arco dependerá muito da situação de candidaturas, do perfil das outras candidaturas. Um partido de centro, como o PSD, tem facilidades para composições de um lado e de outro. Tenho apresentado três hipóteses de candidaturas, todas dependem dos partidos: o Eduardo Jorge, se o PV quiser. O Guilherme Afif é uma hipótese pelo PSD. E lembrei-me do Francisco Luna (PSDB).

CC: E o Serra?
GK: Se ele quisesse disputar teria o meu apoio. Até porque ele seria naturalmente o candidato da situação, ele defenderia essa administração, iniciada por ele 

CC: O senhor fecharia aliança com quem não está no governo?
GK:
Sim, no segundo turno. Por mais que exista uma boa aproximação hoje do PSD com o PT, estadual e nacional, não é natural na cidade de São Paulo, no primeiro turno, o PT não ter um candidato. Como não é natural que nós não tenhamos. Como considero que fizemos um governo melhor do que o da Marta (Suplicy) seria incoerente essa união. Prevejo uma disputa forte com os petistas no ano que vem. 

CC: Como anda a relação com o PSB? As duas legendas tendem a caminhar juntas no futuro?
GK:
Imagino o PSB como um grande parceiro. Até pela expressão do governador Eduardo Campos (Pernambuco), por sua crescente presença na política nacional. O PSB tem tudo para caminhar com o PSD numa aliança muito sólida no plano nacional e em uma área muito grande do território nacional. Não temos, na mesma intensidade, essa ligação com outras legendas.

CC: O PSB tem densidade para uma candidatura nacional em 2014?
GK:
Não posso achar, porque diante das manifestações de Eduardo Campos, de que não terá, penso que o projeto do PSB é para 2018. 

CC: O senhor ainda pensa em uma fusão?
GK:
Não. Chegamos à conclusão de que o melhor é trabalhar em uma aliança mais profunda. 

CC: O senhor é um possível candidato ao governo de São Paulo em 2014. Como vai viabilizar essa candidatura?
GK:
Há um equívoco aí. Seria irresponsabilidade, antes de encerrar meu mandato, pensar em algo além. Não há nenhum discussão nesse sentido. Quero continuar na vida pública, gosto dela, mas não faço de nenhum projeto uma obsessão. Quem não gostaria de ser o governador de São Paulo? Mas não transformo essa vontade em obsessão, em ansiedade. Não tenho problema em contribuir em outra função. Não existe pré-candidatura, nem articulação. 

CC: Que tipo de reforma política o senhor defende?
GK: Defendo partidos fortes, o fim das coligações nas eleições proporcionais, o voto distrital. Sou contra o financiamento público de campanha. 
 CC: Por quê?
GK:
Hoje não é viável, só com partidos fortes. É como defender pedágios urbanos em São Paulo, que tem seis milhões de pessoas que se locomovem em carros. Sou contra. O cidadão não tem alternativa, não tem Metrô. São Paulo era para ter 300 quilômetros de Metrô e tem 70.
CC: São Paulo é o estado que menos aproveitou o ritmo de crescimento econômico do País nos últimos anos. O que aconteceu?
GK:
Na medida em que você atinge um patamar, os ganhos porcentuais são menores. Houve um crescimento enorme em vários estados que estavam aquém na escala de desenvolvimento, tinham margem para crescer mais depressa. 

CC: Um plano de metas para uma cidade é ou não um compromisso?
GK:
São coisas distintas. Fui pessoalmente à Câmara explicar. Sempre cito o exemplo da casa. Você planeja reformar a casa, mas então o carro fica com problemas, o filho tem problemas e você precisa reformar as metas. Na vida pública também às vezes acontece. E existiu muita má-fé na condução dessa questão. Tanto que nenhuma outra cidade do Brasil aprovou um plano de metas. Quis aprovar em São Paulo para dar o exemplo. E começou a haver um envolvimento político-partidário. Felizmente a mídia percebeu e tem informado a diferença à opinião pública. Torço para que a gente reverta essa questão. Não tenho mágoa, mas algumas entidades tiveram má intenção. 

CC: O senhor fala da Rede Nossa São Paulo? O último levantamento do movimento indica que até abril o senhor só cumpriu 24 das 223 metas. Estima-se que o senhor não cumprirá um terço delas, a começar pelos 66 quilômetros de corredores de ônibus.
GK:
Veja como é ridícula a forma como se coloca a entidade. É leviandade. Vamos nos aproximar muito das metas. Ainda temos 18 meses de gestão pela frente. 

CC: A que o senhor atribui a queda de sua popularidade?
GK: Atualmente 30% dos paulistanos consideram a administração ótima ou boa. De 40% a 45%, regular. A rejeição está em torno de 20%. Nunca na história da cidade de São Paulo um prefeito ficou tanto tempo no comando. O primeiro ano como vice e agora seis como prefeito. Tem sempre uma pessoa que diz: “Poxa, o Kassab ficou aí sete anos e não arrumou esse buraco aqui”. Mas na campanha, quando for lembrado o que foram os prefeitos anteriores e tivermos a oportunidade de apresentar seus resultados, a tendência será sempre crescer, como aconteceu na minha última campanha. Eu mostrei o que fiz, a Marta mostrou o que fez e eu ganhei. Na próxima, mostrarei o que fiz. Falo com humildade, porque todos erram. Mas tenho acertado muito na zeladoria da cidade, na saúde, na educação. Eu vejo na rua um sentimento de respeito, carinho, apoio. 

CC: Por que São Paulo não consegue acabar com a cracolândia?
GK:
É um problema nacional, mundial, o consumo de drogas. Felizmente o ministro Alexandre Padilha (Saúde) nos chamou para uma conversa. É preciso um plano conjunto que envolva a União, o estado e a cidade.

CC: É melhor a repressão ou a descriminalização?
GK:
Acho muito complexo fazer a descriminalização, embora isso não me leve a defender uma guerra às drogas. É incoerente limitar o cigarro e permitir o consumo de drogas. Sou contra a liberação, mas defendo o debate livre, aberto. 

CC: Qual é saída, na sua avaliação?
GK:
Mais investimento em educação. Políticas públicas de saúde e educação em médio e longo prazo. Não é um problema social, é de saúde pública. São doentes. 

CC: Por que propor um novo aumento, desta vez de 250%, no seu e no salário dos secretários?
GK:
Não fiz em causa própria. Vou doar a parte do meu aumento à Fundação Antonio Prudente, para o câncer. Mas não acho que um secretário de uma cidade que tem o quinto maior orçamento do País, que tem a responsabilidade de lidar com verbas na casa dos bilhões, receba um salário de cinco mil e duzentos reais. Desta forma fica difícil atrair bons quadros para o setor público. 

CC: O senhor também é muito criticado por posições muito próximas à direita, a uma certa linha dura... Por exemplo, o fechamento dos bares, os enfrentamentos constantes com manifestantes, seja o Passe Livre, os comerciantes e camelôs da 25 de Março. Isso não tira votos?
GK:
São centenas de manifestações ao longo da nossa gestão e em todas elas houve nosso apoio, nosso acompanhamento. Uma vez ou outra quando houve excesso, houve sindicância e punição. Então essa sua afirmação não é correta. Em relação ao Psiu nos bares, os moradores estão gostando. Eu não sou linha dura, não. Ao contrário é uma administração que busca o consenso e o diálogo. Agora, eu sigo a lei. São Paulo era a cidade mais poluída visualmente no mundo e hoje é a menos poluída.  Eu fui eleito para administrar a cidade e ela tem uma lei. 

CC. São Paulo é uma das grandes cidades do mundo que tem seu centro mais abandonado...
GK:
Tivemos a ousadia de um grande projeto, que é o Nova Luz. Com um bilhão de reais que gastamos no Metrô, poderíamos ter feito 20 pontes em São Paulo e colocado lá: Gestão Gilberto Kassab. Não, colocamos dinheiro no Metrô, que não é da Prefeitura, que não é nem nós que licitamos, nem nós que vamos inaugurar. Então, essa é a diferença. A Luz era uma das regiões mais deterioradas e será uma das mais modernas do mundo com o projeto que será apresentado em dez dias. 

CC: E o senhor só vai lançar, não vai concluir...
GK:
Mas qual o prefeito que consegue concluir um grande projeto em São Paulo em quatro ou oito anos? Infelizmente, aconteceu isso com a cidade e a população percebeu isso. 

CC: O senhor fará alguma mudança de rumo na gestão, para se aproximar mais da base nacional do PT? São Paulo é uma das cidades que menos oferece o Bolsa Família, há confrontos constantes com os sem-teto e poucas políticas sociais...
GK:
Não é verdade. São Paulo tem peculiaridades, é mais desenvolvida, mas a demanda é a cada dia mais atendida. A nossa aproximação é total (com o governo Dilma) politicamente. Do ponto de vista administrativo também, tanto no governo Lula quanto no de Dilma. Acho que eles estão satisfeitos e nós também. 

CC: Vamos falar mais um pouquinho de política? Queremos entender melhor as articulações do seu partido para 2012.
GK:
Nossa, sinceramente, acho que nunca falei tanto de política em uma entrevista. O governo vai ter um candidato. Vamos ter então um candidato representando o governo e quatro contra, o que é natural. É difícil que esse daqui (o PT) não tenha 25% ou 30%.  Talvez a gente vá com o PT para o segundo turno.

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