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Por que Dilma é o alvo central dos protestos?

por Deutsche Welle publicado 25/03/2015 04h43
Posição de evidência dentro do PT, percepção popular de que a presidenta governa sozinha e erros cometidos pela própria Dilma explicam por que ela virou alvo central dos protestos
José Cruz/ Agência Brasil
Dilma

Mesmo sem ser acusada na Operação Lava Jato, Dilma amarga impopularidade

Por Clarissa Neher

Por que só Dilma? Apesar de nem figurar na lista de acusados na Operação Lava Jato e de ter pautado sua gestão pelo combate à corrupção, a presidente Dilma Rousseff foi o principal alvo dos manifestantes que saíram às ruas de várias cidades brasileiras no domingo passado (15/03).

O fato de os nomes dos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, estarem na lista de políticos a serem investigados na Operação Lava Jato, entregue pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal (STF), parece ter passado despercebido pela maioria dos manifestantes.

A denúncia de que o esquema de corrupção na Petrobras existe há pelo menos 15 anos também foi deixada de lado. Os protestos de 15 de março, que em tese poderiam ser contra os representantes máximos do Executivo e do Legislativo, bem como contra a disseminação da corrupção pela política brasileira, voltaram-se contra a presidente. Por quê?

Para especialistas ouvidos pela DW Brasil, um dos motivos centrais é o descontentamento de boa parte dos brasileiros com o PT, que há mais de 12 anos governa o país. Além do desgaste natural de quem está há tanto tempo no poder, o partido se viu envolvido em escândalos de corrupção, como o mensalão, e é apontado como um dos principais beneficiados pelo esquema de desvio de dinheiro na Petrobras.

Dilma, na condição de presidente da República, é hoje a figura mais em evidência do PT, até mais do que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, maior líder do partido. E, ao contrário de Lula, ocupa um cargo, para o qual foi eleita pela população, e do qual pode ser afastada. Assim, é contra ela que a indignação de muitos brasileiros se volta.

"A Operação Lava Jato só exacerbou uma reação contrária, já existente, ao governo do PT e à presidente Dilma", afirma a socióloga Vera Chaia, da PUC-SP. O cientista político Pedro Floriano Ribeiro, da Universidade Federal de São Carlos, é da mesma opinião. Para ele, os protestos só evidenciam o descontentamento de uma parcela da população com o PT, principalmente em São Paulo.

O sociólogo Marcelo Siqueira Ridenti, da Unicamp, acrescenta que os manifestantes que saíram às ruas no último domingo eram sobretudo pessoas que não votaram no PT, então era de se esperar que apenas Dilma e o PT fossem os alvos. "O interesse dos manifestantes era atacar o partido que está no governo", completa.

Mas a aversão ao PT não explica sozinha esse foco na figura de Dilma. Para os especialistas, o sistema presidencialista brasileiro, extremamente concentrado na figura do presidente, reforça uma percepção equivocada de que ele governa e resolve tudo sozinho – bastaria, portanto, trocá-lo para solucionar os problemas.

"É natural que o presidente funcione como um para-raio, pois no sistema presidencialista ele acaba encarnando toda a classe política. E como há uma aversão muito grande e generalizada à classe política, e não só no Brasil, é normal que a população jogue toda a sua 'raiva' contra a figura do presidente", diz Ribeiro.

Por esse raciocínio, um presidente de estilo durão e com pouco carisma, como é o caso de Dilma, se torna ainda mais facilmente um alvo da insatisfação popular.

Quanto ao Congresso, que tem 22 deputados federais e 12 senadores entre os investigados na Lava Jato, Ribeiro é categórico: "Os parlamentares já tem uma imagem tão negativa perante a população que um caso a mais ou a menos de corrupção não afeta a sua imagem. Por isso, eles ficam em segundo plano, e todo o foco da rejeição à classe política vai em direção à figura da presidente."

Há, porém, alguns motivos justificados para que a presidente seja alvo da ira popular. Chaia lembra que Dilma tem uma ligação recente com a Petrobras, primeiro como presidente do Conselho de Administração da estatal entre 2003 e 2010, depois como presidente da República. A escolha de Graça Foster para o comando da petrolífera foi uma decisão de Dilma. Ambas são amigas.

Após as primeiras denúncias de irregularidades, a presidente demorou para mudar a diretoria da estatal. Depois, o governo segurou a divulgação do balanço da empresa no terceiro trimestre de 2014, que, mesmo sem considerar as perdas causadas por corrupção, mostrou uma queda de 9,07% em seus lucros. Essas decisões certamente não ajudaram a melhorar a imagem da presidente perante a população.

"Houve uma sequência de posicionamentos duvidosos do governo, como a manutenção da Graça Foster na presidência da Petrobras, que depois se reverteram negativamente para a própria presidente da República", avalia o cientista político Alexandre Gouveia, da UnB.

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