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Mudança

Políticos, cuidado: olhem para o Oriente Médio.

por Paulo Cezar da Rosa — publicado 25/02/2011 10h10, última modificação 25/02/2011 12h05
Um tuite de um seguidor fez nosso colunista gaúcho buscar um elo entre as revoltas distantes e os abusos de poder em terras democráticas. Por Paulo Cézar da Rosa

RT @senhorf: Na dúvida, os políticos brasileiros deveriam ficar expertos com os que está acontecendo no Oriente Médio …
O tuite acima traduz a sensibilidade de quem convive há mais de uma década com o poder em Brasília. O Senhor F, autor do tuite, é jornalista (já foi editor da Folha e assessor da Dilma no Ministério das Minas e Energia). Aficionado pelo rock, o Senhor F é uma legenda no rock brasileiro.
Nepotismo a parte, retuitei esta mensagem na terça passada por achar que ela é muito apropriada para o momento que estamos vivendo. A síntese que ela expressa é clara. Os políticos brasileiros, acostumados a décadas de patrimonialismo e clientelismo, estão abusando e podem ser varridos do mapa também aqui, como no Oriente Médio.
Do ponto de vista do cidadão comum, o abuso é variado. Aprovam aumentos enormes nos próprios salários, mas negam 50 centavos a mais por dia no salário mínimo. Não contestam aumento nas taxas de juros, mas aprovam aumentos acima da inflação para passagens de ônibus. Fazem promessas do melhor dos mundos em campanha, mas aproveitam meses de férias e início de governos para fazer as maldades .......
Para mim, há uma conexão entre o estudante que para um tanque de guerra na Praça da Paz Celestial em Pequim em 1989 e o estudante que se acorrenta em frente à Prefeitura de São Paulo para mostrar que seu direito de ir e vir está sendo violentado por uma passagem abusiva. Ambos lutam por direitos fundamentais e por liberdade.
Veja bem. Não sou especialista em assuntos internacionais, nem acompanho a evolução dos acontecimentos no mundo como deveria. Nos últimos vinte anos tenho sido informado sobre o que se passa em outros países de maneira irregular e assistemática. Na verdade, me sinto muito próximo do cidadão comum quando se trata de analisar a situação internacional e as crises em outros países.
Talvez por isso, pela minha ignorância, posso afirmar algumas ideias:
Há uma conexão entre a emergência dos trabalhadores na América Latina e as grandes transformações que vimos tendo, como a derrubada do Muro de Berlim, a manifestação dos estudantes chineses na Praça da Paz Celestial e a onda de mudanças no mundo árabe;
Talvez até mesmo a eleição de Obama (não o seu governo, conforme o que tenho visto) possa ser elencada neste rol de transformações;
Todas estas manifestações de massas e a evolução cidadã no planeta têm sido acompanhadas e ao mesmo tempo são fruto das profundas mudanças tecnológicas e da globalização das últimas décadas;
Tudo isso está ocorrendo contra e apesar das velhas estruturas políticas, sejam elas de direita, de centro ou de esquerda.
Desde que um estudante chinês parou um tanque com a força da sua vontade, as pessoas passaram a se ver como possuidoras de direitos e capazes de mudar o mundo para melhor. Mas a ampla maioria dos políticos brasileiros não entende esta mudança, acha que “fazer política” é monopólio dos “profissionais do ramo”, e continua tratando o povo como objeto da sua política, quando deveria compreendê-lo cada vez mais como sujeito.
O jornal impresso no final do século XIX e início do século XX tornou-se ferramenta da afirmação do iluminismo. O obscurantismo medieval foi soterrado pela palavra impressa distribuída em jornais diários. Bancados pela burguesia em sua ascensão ao poder, eles moldaram o que hoje é a velha mídia.
O PIG de hoje é a aristocracia do século XVIII. Neste século, as novas tecnologias, e a internet em particular, deverão varrer de seus postos centenas de políticos brasileiros acostumados à velha lógica do poder e da comunicação – não é somente a comunicação feita à revelia dos meios tradicionais, é a comunicação feita com outro conteúdo e outros métodos, como a do povo egípcio. É, principalmente, a comunicação feita pelas pessoas para elas próprias. A mídia velha opera dentro da lógica vertical e autoritária. A nova mídia trabalha com a lógica horizontal e democrática.
De um modo geral, há uma onda cidadã, de indignação quanto aos políticos e suas políticas tradicionais que atravessa o planeta. A mídia velha e a política velha estão com os dias contados. É isso que vai derrubar os Berlusconis. Quem não entender essa transformação agora, pode até resistir mas vai sangrar até o fim. É o caso do Egito e do mundo árabe, mas é também o caso de boa parte dos políticos do chamado mundo desenvolvido ou em desenvolvimento.
Quem não entender a mudança, vai dançar. Quem entender, vai governar o mundo amanhã.

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