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Política

Morte de ambientalistas

Polícia identifica suspeitos

por Felipe Milanez publicado 20/07/2011 15h16, última modificação 20/07/2011 17h03
Delegado diz não ter identificado indícios de envolvimento de pessoas ligadas ao setor madeireiro na morte de casal
Crime no Pará

Enterro de casal assassinado em conflito de terra no Pará. Foto: Marcelo Lacerda

Foi divulgado nessa quarta-feira pela Polícia Civil do Estado do Pará os resultados das investigações sobre o assassinato do casal José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, ocorrido em 24 de maio no assentamento agroextrativista Praia Alta Piranheira, em Nova Ipixuna. O mandante do crime, segundo a polícia, foi o fazendeiro pecuarista José Rodrigues Moreira. Os executores, de acordo com a investigação, foram o próprio irmão do mandante, identificado como Lindojonson Silva Rocha Silva, e o comparsa Alberto Lopes do Nascimento.

“Não há dúvidas quanto a autoria e execução do crime”, garantiu o delegado Silvio Maués, diretor de polícia do interior.

A primeira hipótese descartada foi o conflito pela posse de lotes na região. “Ao analisar as acusações feitas em relação a fazendeiros da área, observou-se que não havia mais a disputa pela posse das fazendas na região, em virtude da já haver ocorrido intervenção do Incra há alguns anos”, descreve o inquérito.

Outra hipótese analisada pelos policiais civis foi a atuação do casal na defesa da floresta como motivadora para o crime. “Na análise das informações colhidas, inclusive nas interceptações telefônicas, não foram vislumbradas indícios de envolvimento de pessoas ligadas ao setor madeireiro com a autoria do crime”, aponta o inquérito.

Os fatos apurados pelo delegado apontam que Moreira adquiriu ilegalmente dois lotes de terra dentro do assentamento e tentou à força expulsar os assentados, inclusive com a ajuda da policia de Nova Ipixuna. José Cláudio Ribeiro denunciou a ilegalidade à Comissão Pastoral da Terra e ao Incra, já que a propriedade não poderia ter sido vendida. Moreira teria insistido na expulsão dos assentados e oferecido dinheiro, mas José Cláudio e Maria negavam e tentavam dissuadir os outros assentados de aceitar a venda ilegal.

Nas tentativas de expulsar os assentados, Moreira teria inclusive queimado o barraco de um, enquanto outro teria sido retirado em um camburão da policia. Essas duas famílias estão sob proteção da Força de Segurança Nacional em Marabá. O conflito se intensificou no final do ano passado.

Conforme foi demonstrado na reportagem , testemunhas chaves teria visto os assassinos num bar conhecido como Encruzilhada da Morte. Ali, os pistoleiros conversaram com uma das testemunhas, que relatou que um deles estaria com a perna quebrada em razão de um acidente de moto ocorrido 50 dias antes – eles discutiam o recebimento de um seguro. Através dessa pista, a policia conseguiu identificar quem teria sofrido o acidente. Da mesma forma, Jonson Silva, irmão de Moreira, foi visualmente reconhecido. Eles discutiam a estratégia do crime.

Outra pista chave encontrada pela policia foi parte de um equipamento de mergulho utilizado em garimpos, deixado no local do crime. O restante do material foi encontrado na propriedade de Moreira que, um tempo depois, sumiu com os vestígios. A policia chegou a colher depoimento de Moreira, quando ele confirmou que detinha um equipamento de mergulho utilizado em garimpos

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O autor dos disparos fatais segundo a policia foi Jonson Silva. O alvo era José Cláudio, mas quem morreu primeiro foi Maria do Espírito Santo, com estilhaços fatais no coração. A suspeita da polícia é que ele cortou a orelha para forjar que o crime teria sido por encomenda por parte de madeireiros que faziam ameaças ao casal. José Cláudio levou dois tiros, e não ficou provado se a arma utilizada era uma espingarda calibre 12 ou 16.

A policia informou que pediu, por três vezes, a prisão dos envolvidos, e que os mandatos foram negados pela Justiça do Pará. Também foi descartado pela policia o envolvimento de outros fazendeiros ou madeireiros na região, atribuindo a morte exclusivamente à disputa dos lotes com Moreira.

O deputado federal Arnaldo Jordy (PPS), presente na coletiva, disse “lamentar a morosidade da Justiça no Pará”. As investigações foram coordenadas pelo delegado José Humberto Mello Jr, que apresentou fotografias da reconstituição do crime.

Segundo o advogado da CPT, José Afonso Batista, "os executores foram beneficiados duplamente, pela demora e pela decisão do juiz que negou decretar a prisão deles. Mesmo que seja agora, dificilmente eles erão localizados e presos." Além disso, ele afirma que "desde o início das investigações, as testemunhas que foram ouvidas apontaram a participação de outros proprietários e madeirieros como mandantes, junto de Moreira. Temos convicção de que ele não agiu sozinho. Mais pessoas podem ter tomado a decisão de mandar matar Ze Claudio."

*Colaborou Marcelo Lacerda, de Belém.

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